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Legna, a Sábia

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Legna, a Sábia

Parecia ser um dia como qualquer outro para o guarda Francisco que trabalhava como chefe do posto de guarda que fazia fronteira entre a civilização moderna e a maior reserva natural da Amazônia. Segundo as lendas, era habitat de povos indígenas ainda não identificados, alguns desses descendentes dos velhos Incas do Oeste.

Eis que o tranquilo dia de Francisco foi interrompido com a chegada de um velho conhecido, o índio Onadroig da tribo Sexana. Para alguns, ele encarnava a sabedoria de seu povo, para outros era simplesmente um velho louco, ultrapassado, que ainda acreditava e praticava antigos ritos, além de afirmar que a floresta era habitada por seres invisíveis para a grande maioria dos seres humanos. Francisco era um tanto indiferente a essa ou qualquer outro tipo de polêmica, que segundo a sua concepção, servia somente para desviar a atenção do que realmente importava: seu trabalho. Em relação a Onadroig, evitava participar de comentários depreciativos, até mesmo porque o índio havia curado um de seus filhos de uma doença desconhecida para a medicina corrente.

O velho índio, já curvado pelo peso dos anos, entrou esbaforido e assustado na sala de Francisco, muito diferente de sua habitual calma e serenidade. E sem dar-se conta de que não cumprimentou Francisco, exclamou gritando:

— Aconteceu novamente. A floresta está em perigo!

Legna, a SábiaPassado o susto inicial de Francisco com a situação, aonde lhe passaram rapidamente imagens de incêndio, desmatamento e invasão, perguntou a Onadroig:

— Mas o que aconteceu?

— As abelhas! — falou Onadroig.

— Abelhas? — perguntou Francisco.

— Sim, as abelhas das montanhas do sul abandonaram suas colmeias e foram habitar cupinzeiros — disse Onadroig.

Francisco pediu para Onadroig se sentar, tendo a impressão de que realmente pudesse ter enlouquecido. Onadroig não se acalmava e em tom de desabafo relatou:

— Ninguém me ouve na tribo, os jovens já não respeitam os idosos, não estão percebendo a gravidade da situação…

E Francisco, quase não crendo no que estava acontecendo, retrucou:

— Mas, Onadroig, por que algo tão simples como a invasão de cupinzeiros pelas abelhas pode ser tão grave?

— Esse é o problema — respondeu Onadroig. — Negligenciar simples detalhes fazem com que os problemas adquiram proporções que podem chegar a serem irreversíveis.

Após alguns instantes, Onadroig percebeu que sua missão não iria ser fácil. Acalmou-se, sentou-se e começou a contar uma história:

— Quando estava sendo formado para ser o Chefe das Tribos de todo o Vale Ensolarado, havia um sábio índio chamado Selat de Otelim que me contou uma história. Segundo ele, havia ocorrido há muito tempo, na época em que o Sol ainda nascia atrás da Montanha dos Tucanos Azuis.

Legna, a Sábia

“Era uma época aonde todos os habitantes da floresta viviam em harmonia consigo e com todos os demais. Para que isso fosse possível, todos conheciam sua Natureza e de acordo a Ela atuavam. As flores produziam néctar para os insetos, as árvores oxigênio para todos, os insetos polinizavam as flores, os animais ao caçarem equilibravam o ecossistema e assim por diante, sem exceção. Assim, cada ser contribuía com o todo e, em contrapartida, usufruíam dos recursos que a generosa Natureza dispunha para todos. As plantas tinham acesso à água, ao sol e à terra e todos os animais aos alimentos para sua sobrevivência. Até que um dia, em uma colmeia de Abelhas localizada no meio do vale, na margem oeste do rio das pedras, uma abelha questionou suas companheiras:

— Amigas, alguém saberia me dizer por que temos que trabalhar tanto para produzir mel e construir colmeias? Passamos nossa vida inteira trabalhando sob as ordens da Rainha, sem questionar ao menos o fato de que boa parte do que produzimos não nos serve e sim a outros. Grande parte de todo o nosso mel serve de alimento para outros, que invadem nosso espaço em busca de alimento. E após saciarem a sua fome vão descansar e nós continuamos aqui trabalhando.

Parte das abelhas não deram atenção ao argumento da abelha, pois se sentiam felizes com a vida que levavam, mas outra parte sim. E ao perceber que obteve quórum em seu discurso, continuou:

— Vejam ali, aquele cupinzeiro. Poderíamos nos mudar para lá. Expulsamos os cupins e não precisaremos mais trabalhar para construir colmeias. Também aproveitamos e paramos de produzir mel, nos alimentaremos do costumeiro néctar e, se necessário, podemos também nos alimentar dos cupins. Assim teremos tempo para descansar e nos livramos desse castigo que é trabalhar de sol a sol, todos os dias. E quanto à Rainha, ela que dê conta de produzir a sua própria geleia real.

E, atraídos pela promessa de uma vida fácil e prazerosa, grande parte das abelhas atenderam ao chamado e passaram a habitar os cupinzeiros da margem oeste do rio, após expulsar e devorar os antigos moradores. Este foi o início da história. Viver para descansar passou a fazer parte da cultura das abelhas, que cada vez mais aderiam a essa ideia. Passadas 10 gerações, quase não se viam mais abelhas em colmeias produzindo mel. E após 50 gerações toda a tradição das abelhas havia sido esquecida. Nenhuma abelha sabia sobre a sua Natureza de abelha. Desconheciam o fato de que construir colmeias e produzir mel é o que de melhor poderia fazer por si mesmas e pelo todo. Para elas, o sentido da vida passou a ser expandir e conquistar, para ao final, descansar.

O equilíbrio da floresta foi alterado. As abelhas não polinizavam mais as flores e nem produziam mel, que antes servia de alimento para outras espécies. Se reproduziam indistintamente, muito mais do que o normal. Todo o vale ficou prejudicado com a superpopulação de abelhas que não respeitavam mais seus limites. Pensando apenas em si mesmas, invadiam e expulsavam de suas moradias qualquer espécie de animais para ali se instalarem. Passaram finalmente a ser consideradas pelos demais como uma praga que estava desequilibrando e colocando em risco toda a vida da floresta.”

Francisco ouvia atentamente a história contada pelo velho índio. Não sabia por que, mas a sua falta de posicionamento em opinar sobre a sanidade de Onadroig havia sido rapidamente substituída por um inusitado e grande interesse pela história, o que não lhe permitiu outra atitude senão perguntar:

— E o que aconteceu depois?

Onadroig continuou:

— Como acontece com qualquer espécie que se desvia de sua trilha, as abelhas não se sentiam realizadas e felizes com o que estavam fazendo. O prazer que desfrutavam conquistando um novo território logo se dissipava, situação que as levava a uma nova conquista, para sentirem novamente esse prazer temporário. Confundiam isso com a real felicidade destinada às abelhas, que era conquistada ao se produzir mel. Como haviam esquecido dessa básica questão da vida, sentiam um vazio em sua existência que buscavam preencher com suas incursões em busca de mais e mais território.

— Foi o fim da floresta…, —pensou em voz alta Francisco.

— Quase o fim…, — disse Onadroig, continuando seu relato:

“O que a salvou foi o fato de que um dia uma jovem abelha chamada Legna, ao estar sendo educada na escola para abelhas sobre as estratégias para conquistar cupinzeiros, pensou que tudo que estava sendo lhe ensinado não fazia sentido, que nada daquilo poderia preencher o vazio que sentia em sua existência. E fez a pergunta: ‘Por que?’ Legna intuía que a vida de uma abelha não poderia se resumir em conquistas e descanso e sua intuição serviu de impulso para buscar respostas para as questões que tanto lhe inquietavam. Ao não encontrá-las de forma satisfatória em nenhum lugar do vale, cruzou as montanhas do oeste. Deparou-se, com enorme surpresa, com milhares de abelhas que estavam construindo uma espécie de moradia, cuja engenhosidade, precisão e beleza nunca havia testemunhado. Percebeu que, como elas, outras milhares de abelhas também faziam o mesmo nos arredores.

Legna, a SábiaAo tomar contato com essas abelhas, foi lhe oferecido um alimento que chamavam de mel, que por sinal foi o mais saboroso que havia experimentado em toda a sua existência de abelha. Qual não foi também a sua surpresa em saber que a produção deste era realizada pelas próprias abelhas. Mas, realmente, o que mais lhe chamou a atenção foi a felicidade que cada abelha exprimia em construir aquelas fantásticas moradias e produzir seu delicioso alimento. Legna tinha certeza que havia encontrado o que procurava.

Foi lhe dado acesso aos anais da tradição das abelhas. Legna pode conhecer, então, sua verdadeira Natureza de Abelha. Obteve informações sobre quem era, de onde vinha e para onde ia. E pode constatar por si mesma que só poderia conquistar a tão almejada felicidade se também produzisse mel.

Tomou consciência do grande engano que viviam as suas irmãs abelhas do outro lado da montanha e, apesar de ter encontrado a sua felicidade, se sentiu na obrigação de voltar e avisar a todas. Agradeceu a calorosa recepção, os ensinamentos recebidos e partiu cruzando a montanha, dessa vez em sentido contrário.

Ao chegar no vale anunciando a todos a boa nova, Legna foi tachada de louca por algumas abelhas e de mentirosa e charlatã por outras. Chegou a ser presa sob a acusação de conspiração. Cogitou-se, inclusive, em se implementar a pena de morte para que Legna fosse a primeira a ser sentenciada e servisse de exemplo.

Isso não fez com que desistisse de seus propósitos. Fundou uma escola para abelhas, aonde transmitia todo o conhecimento que teve acesso do outro lado da montanha. Reuniu em torno de si abelhas que também possuíam a mesma intuição que a impulsionou em sua busca. Ensinou a elas sobre a real Natureza da abelha e também sobre como construir colmeias e produzir mel.

Legna ficou conhecida em todo o vale por sua iniciativa e ensinamentos, que eram repassados por muitas abelhas para outras abelhas. Com isso se reverteu a situação e, em pouco tempo, as abelhas foram deixando de habitar os cupinzeiros e passaram novamente a construir colmeias e produzir mel.

O sucesso de sua iniciativa foi grande. Passadas 10 gerações, mais da metade das abelhas já não habitavam cupinzeiros. E, passadas 50 gerações, havia o registro de apenas uma comunidade de abelhas que ainda habitava um cupinzeiro no extremo sul do vale. A felicidade havia retornado às abelhas do vale e a harmonia e a prosperidade a toda a floresta.

Após a sua morte, Legna passou a ser conhecida como ‘Legna, a Sábia’. Porém, sempre quando quiseram lhe atribuir este título em vida sempre o recusou, argumentando que tudo o que ensinava não era dela, apenas estava repassando o que um dia também lhe ensinaram:

— Não sou uma sábia. Conheci sábios do outro lado da montanha. Sou uma amiga da sabedoria. Sou uma filósofa.”

Finalizada a história, Francisco levantou-se rapidamente de sua cadeira e convocou todo o seu contingente para, de imediato, se deslocarem às montanhas do sul para destruírem os cupinzeiros e fazer com que as abelhas voltassem às suas colmeias. No fundo, para ele foi muito mais fácil tomar essa decisão do que ter que continuar a conversa e fazer a inevitável pergunta a Onadroig:

— Mas, quanto ao Ser Humano, não haveria um mel que deveria produzir?

Onadroig levantou-se também, em resposta a atitude tomada por Francisco, feliz por ter finalmente conseguido que alguém entende-se a gravidade da situação. Recobrando a sua costumeira serenidade, concluiu consigo mesmo que a conversa não acabara e que Francisco em breve iria lhe indagar sobre a questão do Ser Humano. Seria para si uma oportunidade de repassar o que um dia lhe foi ensinado.

Legna, a Sábia

Autor: Dimas Pincinato Alves

 

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