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Os Reis de Meliorn

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Os Reis de Meliorn

Há muito tempo atrás existiu uma cidade muito próspera chamada Meliorn. Esta cidade foi governada por um grande rei que enfrentou muitas batalhas e esforçou-se para manter a paz por vários anos. Este rei se chamava Zyron. Além destas conquistas, o rei era muito inteligente e o povo tinha muita confiança em suas palavras e em suas ações. O povo adorava Rei Zyron. Por toda sua vida, enquanto rei, a paz se manteve constante. Poucos reis atingiam tal proeza. As terras da cidade de Meliorn também eram conhecidas por serem férteis e prósperas e seu povo era conhecido por ser amistoso e trabalhador.

Chegando aos seus setenta e cinco anos, o velho rei não poderia mais governar por tanto tempo e tinha que começar a pensar no futuro de Meliorn. Quem iria suceder o trono? Zyron tinha quatro filhos. Todos do sexo masculino e todos possuíam a mesma idade, ou seja, eram quadrigêmeos. O velho rei, nos seus últimos dez anos, ocupava-se pensando no momento de repassar a coroa, sem causar nenhuma injustiça ou discórdia entre seus filhos, visto que todos eram merecedores da posição de governante. Sua mulher, Aurora, morreu durante o parto, portanto não poderia se fazer presente neste momento de dúvida. Restou, então, conversar com o Conselho de Anciões. Este conselho era formado por velhos sábios encarregados em servir e aconselhar o rei em suas decisões. Estes anciões eram nomeados a dedo pelo rei e todos eles juraram servir lealmente ao rei e a toda cidade.

Passaram-se mais alguns anos e o velho rei começou a adoecer. Percebendo que não poderia mais adiar a questão, resolveu pedir ajuda para chegar a uma decisão final sobre a indicação do novo rei junto do conselho. Convocou uma reunião e ali conversaram por mais de três horas. Ao término da reunião, o rei convocou todo o povo no castelo para anunciar sua decisão final.

Quando todo o povo de Meliorn se reuniu dentro e nas proximidades do castelo real, o velho rei Zyron anunciou sua decisão.

– Povo de Meliorn, eu os convoco aqui para anunciar o nosso futuro, o futuro de Meliorn. Este futuro governo os cuidará, protegerá e governará justamente e nobremente. Eu, assim que partir, estarei nomeando meus quatro filhos como governantes de Meliorn. Hoje com a vasta área que conquistamos, cada um se fará responsável por uma parte deste reino. Eu confio nos meus filhos, sangue do meu sangue, e em suas virtudes e qualidades que possuem total capacidade de manter a paz, juntos por mais muitos anos, porém, ao menor sinal de conflito entre os reis, qualquer guerra, briga ou morte provocada entre eles, o poder será repassado, automaticamente, ao Conselho de Anciões.

Os príncipes se entreolharam, surpresos com a decisão de seu pai. Esperavam por um nome, e não por uma divisão de poderes. O rei continuou seu pronunciamento.

– Methein, meu filho, és dotado de muita coragem, bravura e possui a força e a grandeza de um guerreiro. Por isso você estará no comando das terras do sul, pois essa região está próxima de nossos antigos inimigos e não sabemos quando podem voltar a nos invadir novamente.

– Turyn, meu filho, és dotado de uma inteligência, perspicácia e fome pelo saber sem igual. Estarás no comando das terras do oeste onde residem nossas instituições, academias e escolas e tu saberás como valorizar, cultivar e repassar este conhecimento ao povo.

– Cornelius, meu filho, és dotado da arte da oratória, de muita sensibilidade e reúne facilmente as pessoas assim como um sábio pastor quando reúne todo o seu rebanho. Terás as terras do leste onde estão estabelecidas as maiores catedrais e templos de nosso reino. Tens a responsabilidade de manter nossa devoção, nossa fé e guardar a morada de nosso Deus.

– E por último, meu filho Khelik, és dotado de muita organização, visão e facilidade de lidar com transações e com o comércio, ficarás com as terras do norte, onde temos fronteira com nossos vizinhos comerciantes e proximidade com o litoral, nossa porta aberta para as nossas negociações comerciais.

O povo de Meliorn confiava muito nas decisões de seu rei. Não pensaram duas vezes. O povo bradou e aclamou a decisão e logo todos começaram a preparar os festejos para a coroação dos quatro reis de Meliorn. O rei, ao se retirar do discurso, se voltou ao conselho, que se fazia ali presente próximo ao trono.

Os Reis de Meliorn– Eu não me esqueci de vocês, caros conselheiros de Meliorn. Eu tenho aqui em mãos uma caixa, porém, ela será de vocês quando, e somente quando, Meliorn vir a ter somente um rei novamente. Se este dia chegar, a chave que abre esta caixa será de posse de vocês. Poderão abri-la.

Passaram-se mais dois anos e o velho rei veio a falecer. Os quatro filhos então, como o pai havia ordenado, assumiram seus postos, cada um em seu respectivo lugar. Os três primeiros anos foram tranquilos, todos os reis estavam felizes e bem satisfeitos com suas novas obrigações e deveres. Mais uns anos à frente e já haviam aprendido a trabalhar em equipe, ou seja, quando determinada região carecia de algum tipo de alimento, por exemplo, outra região bem abastecida enviava e doava um pouco do que tinha. E assim, com tudo o mais que fosse necessário. E mais alguns anos à frente, já haviam estabelecido muitas trocas, boa comunicação, boas relações e bons tratados entre as quatro regiões.

As coisas andavam bem até demais. O Conselho de Anciões andava irritado. No fundo, não admitiam esse governo de quatro reis. Pensavam que o rei não conseguiria fazer sua escolha e passaria todo o poder ao conselho. Nunca haviam sugerido e muito menos se posicionado a favor desta ideia tão tola. Há anos pensavam em uma forma de destronar o rei, e agora, como fazer com quatro? Não acreditavam que, para eles, o plano só tinha ficado ainda mais difícil. Passaram-se mais alguns anos e, mesmo com várias tentativas de causar intrigas e problemas aos novos reis, estes continuaram trabalhando juntos e arranjando formas de lidar com os problemas juntos.

Até que um dia, um dos anciões que havia viajado em busca de uma solução para desencadear o plano de ruptura do poder, volta carregando um grande embrulho. Era um espelho mágico com um lindo acabamento dourado e envolto em um tecido aveludado vermelho, muito bonito.

– Caros colegas, eu vos trago aqui o objeto que nos ajudará a acabar com esse governo absurdo. Eu trouxe aqui um espelho mágico que causará a ruptura de uma vez por todas. Este espelho mágico será enviado a cada um dos reis. Sem saber que ganharam o mesmo espelho, retirarão o tecido e olharão através dele, do qual revelará a imagem do seu pior medo.

– Caro Sheein, não vejo como isso pode nos ajudar. É óbvio que nenhum deles irá querer olhar por este espelho e ademais, mesmo se olharem através dele, alguns podem ficar apavorados, mas acredito que muitos já sabem quais medos moram em seus corações.

– Bem observado, caro Guiphu, bem observado. Porém, o plano é um pouco diferente. Existe um pequeno detalhe. Nós iremos sim afirmar que o espelho é mágico e enviado como presente. Mas não diremos a verdade quanto ao que revela. Diremos que revela, nada mais nada menos, que a imagem do futuro da pessoa. Uma pessoa que acredita que seu futuro é o reflexo de seu medo mais profundo e negro nunca mais viverá como antes.

E assim foi dito e assim foi feito. O espelho foi enviado aos quatro reis, todos ao mesmo tempo, como gesto de gentileza de um nobre misterioso de terras distantes.

– “… e eu os envio este humilde presente. Envio um objeto raro encontrado em nossas terras. Ele funciona como uma bola de cristal, ele consegue revelar o seu futuro em uma imagem.” Impressionante! Quero ver esse tal espelho. Tragam-no já para cá. Tenho certeza que revelará o quanto serei grande, rico e poderoso, e mais, quantas batalhas já terei ganho defendendo nossa terra daqueles selvagens!Os Reis de Meliorn

Os servos buscaram o espelho e colocaram a frente de Methein. O bravo rei, orgulhoso e ansioso para ver o seu futuro, em um instante, puxou o tecido aveludado de cima do espelho, descobrindo-o todo. Methein então, em poucos segundos, pôde ver a transformação na imagem do espelho. Logo que a imagem se formou, Methein viu, nada mais e nada menos, que a reprodução da sua morte, ou melhor, a imagem de todo o seu reinado sendo massacrado, destruído e dizimado pelos seus piores inimigos. Era uma cena terrível, não sobraria uma alma viva para contar história. Methein ficou paralisado e horrorizado.

Dias se passaram e o jovem rei, agora não tão corajoso como antes, não comia mais nem dormia mais direito. Não conseguia aceitar que o seu fim seria assim. Não conseguia entender. Bastaram apenas três meses para o rei entrar em colapso, começar a perder o sentido de sua vida e mais alguns dias para tirar a sua própria vida.

Ao receber o presente, o jovem Rei Khelik, também coberto por sua curiosidade, quis ver o que o espelho o revelaria.

– Será que o espelho revelará o que eu acho que será o meu futuro?

Pois, ao erguer o tecido, eis que o espelho mostrou também a sua morte, porém, na verdade era um assassinato. Estava sendo assassinado pelas costas por ninguém mais do que alguém de sua família, seu irmão Cornelius. O rei estava em choque. Assim como o Rei Methein, passou dias sem saber o que fazer a não ser consumido pelo seu próprio medo, esperando e temendo pelo dia em que aconteceria esse ataque.

Os Reis de MeliornAté chegar um dia que, alucinado pelos seus pensamentos obscuros, partiu em direção ao castelo de Cornelius e na primeira oportunidade, apunhalou-o pelas costas com sua espada. Ao ver seu irmão morto e ensanguentado em seus braços, não conseguiu se conter com tal ação horrenda que acabara de executar. Agora que tinha seu irmão morto em seus braços, não acreditava no que havia feito. Como pôde achar que o seu irmão, aquele que cultivava tanta bondade no coração, iria querer feri-lo de alguma forma? Não se conteve e enfiou a faca em seu próprio peito, caindo duro no chão.

Ao ouvir essas notícias, o maligno conselho vibrava de alegria. Seu plano estava funcionando. Um a um, os reis estavam caindo. Três já estavam mortos, todavia não escutaram mais nenhuma notícia quanto ao quarto e último rei. Restou um.

Após três tristes funerais, o povo de Meliorn pôde, enfim, ter um dia festivo. Depois de alguns dias, foi marcado o dia para celebrar a posse do Rei Turyn, coroado agora como o único e somente Rei de Meliorn. Estava lá, radiante e imponente no dia de sua posse, sem nenhum traço de profundo descontentamento e desesperança. Intrigados, o ancião Sheein foi conversar com o Rei Turyn.

– Gostaria de parabenizar vossa majestade pela posse. Vossa majestade está radiante.

– Obrigado, meu caro conselheiro. Eu não irei precisar trabalhar muito, visto que grande parte das conquistas meus queridos irmãos já fizeram. Eu irei apenas me certificar que todas essas conquistas se mantenham enquanto eu estiver vivo. Assim como a paz, do qual meu querido pai tanto considerava.

– Muito bem, alteza. Pois bem, ouvi falar que vossa majestade recebeu um presente muito especial já faz um tempo. Um certo espelho mágico enviado a vossa majestade por um nobre das terras orientais. Fiquei curioso quanto a essa rara peça. Deve ser um tanto quanto valiosa e desejada.

– O espelho mágico? Ah sim. Eu recebi esse objeto curioso de um governante de terras distantes, foi um presente. Mas na verdade ele está bem guardado, bem se dizer, está bem escondido. Fiquei grato pelo presente, mas não tive interesse em abri-lo. Na verdade iria enviá-lo de volta, porém, não consegui comunicação com este generoso remetente.

– Mas, como assim vossa majestade? O senhor não ficou nem com curiosidade de se olhar nele?

– Me olhar nele? Para quê? Para ver o meu futuro? – O rei deu uma risada. – Eu sei o que será do meu futuro, não preciso que um espelho me diga. Aliás, eu construo e transformo o meu futuro. Não acredito que ele possa ser algo fixo, pré-estabelecido assim, desta maneira tão ingênua. O futuro é muito grande, é feito e transformado de inúmeros momentos, decisões e escolhas ao longo de um grande espaço de tempo. O tempo todo ele está mudando, mas cabe a você ter as rédeas dele a todo o segundo para seguir definindo-o, fazendo o que você deve, da melhor forma possível. Como um espelho vai conseguir reproduzir algo assim, tão grandioso, mutável e complexo?

E o rei continuou a seguir o seu caminho para ver as outras pessoas, quando parou. Pensou um pouco, e falou novamente ao ancião:

– Caro Sheein, mais uma coisa. Nem todo presente é bom… Na verdade, o que não nos acrescenta em nada, não nos é útil, não nos serve. É… caro conselheiro, nada melhor, mais útil e precioso que a dádiva do nosso momento presente.

E Turyn continuou o seu caminho para receber o restante dos convidados.

Os Reis de Meliorn

Autora: Grace Caroline Mitie Yuki

 

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