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Um Diabo de Óculos

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Um Diabo de Óculos

 

E então o Diabo pensou:

— É chegada a hora!

Desde o retumbante fracasso de seu último empreendimento, a tentativa de fundar uma igreja das trevas, capaz de arrebanhar não apenas os “restos” divinos, mas que organizasse em seu entorno uma liturgia própria, baseada na exaltação dos pecados mais atrozes com o objetivo de tornar seus frutos, que eram apenas esporádicos, verdadeiras migalhas celestes, em ganhos constantes arrebatando definitivamente para o seu lado toda a humanidade, plano que deu certo durante um longo período (vide A Igreja do Diabo, Machado de Assis), mas que entrou em declínio quando o Diabo perdeu seu entusiasmo após ouvir aquela maldita frase do criador: “É a eterna contradição humana”. E percebeu que qualquer novo esforço seria em vão até que pudesse contornar a situação.

Durante muito tempo o Diabo refletiu sobre como fazer com que essa bendita, quer dizer, maldita “contradição humana” pudesse ser neutralizada, solucionar este problema virou sua ideia fixa, seu Emplasto Brás Cubas. À época, a igreja demoníaca parecia um plano perfeito, incitava o lado mais animal dos seres humanos, orgulho, vaidade, gula, avareza, cobiça, todos os demais pecados possíveis e imagináveis. “É muito mais fácil para esses mortais viver de forma inconsciente, gozando a vida, sem dor, viver apenas para atender aos próprios desejos, essa será a minha pregação”. No entanto, como não levou em conta aquela característica fundamental do ser humano “Como pude me esquecer do lado divino da humanidade? Como pude cometer tal erro!! Como fui ingênuo!!” Essa cobrança interna o motivava a encontrar uma solução para o problema. Até que… “Um transe! Preciso encontrar uma forma de jogar a humanidade em transe profundo, deixar a consciência humana adormecida, ou melhor, em um coma profundo e irreversível! Mas como farei isso? Não importa, acharei uma maneira”. Mesmo sem saber ao certo como, bateu agitadamente suas asas e foi visitar o Reino dos Seus e contar sua nova intenção.

Deus, na sua infinita serenidade acolhia uma criancinha, deu os ombros para a chegada de seu filho das trevas. Os arcanjos ameaçaram o ataque mas, como da última visita, foram impedidos por um leve gesto celestial.

— Deixem-no. Certamente tem algo importante para me dizer.

— Termine seu trabalho, meu caro, acolha esta criancinha, pois desta vez fiz minha lição de casa, lições aprendidas, conhece este termo corporativo? Os erros do meu último empreendimento não se repetirão.

Após acolher a jovem alma, Deus esfregou o rosto e pensou, “será que ele nunca vai desistir?” E perguntou ao Diabo:

— Esqueceu do nosso último encontro? Da contradição humana e tal?

— Você me subestima, já lhe disse. Aprendi, este problema está superado.

Um Diabo de Óculos— Diga-me então, qual seu novo plano perfeito para conquistar todas as almas do mundo.

O criador não se conteve e deu uma piscadela para um Serafim que estava ao seu lado que, percebendo o bom humor do chefe, esboçou um leve sorriso.

— Não seria ironia uma virtude das trevas? Perguntou o líder do Inferno, ao reparar na cumplicidade entre Deus e aquele Serafim.

— Vai, desembucha, não tenho a eternidade toda. Vai montar outra igreja com uma cara mais moderna? Perguntou-lhe o criador.

— Um transe, disse o Diabo com um ar confiante. Vou deixar a humanidade hipnotizada de tal forma que serão incapazes de terem qualquer atitude consciente.

— Como?

— Isso eu ainda não sei, mas aviso que não será uma igreja, afinal de contas as coisas da alma não estão meio fora de moda, ao contrário do que se passava na época da minha igreja.

“Essa eu quero ver”, pensou o criador.

— Parece-me um bom plano. Vai, execute-o.

— Não acredita no meu potencial, não é mesmo?

— A coisa é que tenho certeza do potencial da humanidade.

— Acompanhe de perto esse meu empreendimento, pois perderá definitivamente seu reinado. Controlarei pessoalmente todas as almas terrenas.

— Apresse-se então, muito trabalho o espera, não perca mais tempo comigo, o recado foi dado. Vá!

Naquele instante o Diabo achou a solução. “Um produto! Algo que as pessoas usem e que as distraia até que adormeçam suas consciências indefinidamente. Preciso criar uma empresa para desenvolver esta invenção e posteriormente vender para as pessoas. É isso!”

— Já vou, espero que não se arrependa de ter impedido o ataque dos Serafins contra mim, seu reino na Terra está com os dias contados.

Após estas últimas palavras, o Diabo desceu à terra “com sangue nos olhos”. Sua primeira ação foi buscar uma consultoria renomada e apresentar sua ideia de forma que desenvolvessem o tal produto capaz de deixar o ser humano completamente inconsciente. Apresentou sua ideia e participou ativamente do processo de criação. Eram reuniões intermináveis, onde eram usados termos que lhe eram estranhos como “Brainstorming”, inovação, planejamento estratégico, perenidade do negócio, “trade off”. Quase que instantaneamente o Diabo se adaptou àqueles termos corporativos e passou a dominá-los. A consultoria contratada mostrou-se extremamente competente, e logo já tinham o esboço do produto. A nova invenção eram óculos que seriam capazes de transportar os clientes para uma realidade que eles “escolhessem”, mas o pulo do gato, como apontado pelo Diabo, era que as escolhas seriam gradualmente direcionadas, de forma que os seres humanos que utilizassem do produto não estariam escolhendo nada efetivamente.

— Genial, senhor Diabo — entusiasmou-se um dos consultores. — E ainda vamos poder agregar valor ao produto com o desenvolvimento do conteúdo. Ficaremos ricos! A empresa será um sucesso, mal posso esperar para adquirir o meu.

“Acho que será mais fácil do que eu planejava”, pensou o Diabo, abrindo um leve sorriso.

Na fase final de criação, houve uma reunião importante em que foi discutida a Matriz SWOT do produto (uma ferramenta muito difundida na administração moderna que busca apontar os pontos positivos e os pontos negativos do produto, de forma a mitigar os impactos dos pontos negativos e alavancar os pontos positivos). Ao final da reunião, um ponto negativo deixou o Diabo levemente preocupado: os “cegos”. Como fazer para adormecer a consciência dos “cegos”?

— Encontraremos uma solução no futuro, senhor Diabo — replicou o consultor mais competente e experiente percebendo sua inquietação. — Essas coisas são assim mesmo, primeiro lançamos o produto no mercado, entendemos o seu potencial, bem como as necessidades dos clientes. Com o tempo a equipe de marketing da empresa mapeará as necessidades dos que não consumirem o produto e encontraremos uma solução para difundir o produto para toda a humanidade.

A última etapa antes do lançamento era a escolha do nome. O problema foi solucionado em uma reunião de Brainstorming e o nome escolhido era simplesmente perfeito.

Diaboclos! Que seria também o nome da empresa do Diabo.

Um Diabo de Óculos

O sucesso do Diaboclos foi instantâneo. A empresa start-up criada pelo Diabo logo se tornou uma grande corporação e todos os seres humanos queriam ter o seu “Diaboclos”. O produto era realmente genial. Ao utilizá-lo era possível transformar completamente a realidade ao redor daquele que usava o “Diaboclos”. Inicialmente o Diabo era o CEO da Diaboclos, comandava todas as ações de forma onipresente, desenvolvia os conteúdos, cuidava da parte jurídica e financeira. Rapidamente a pequena companhia tornou-se uma das maiores do mundo e nesse momento o Diabo passou a exercer as funções de Presidente do Conselho de Administração da empresa e Diretor de Criação de conteúdo, este último era na verdade o cargo que lhe importava, já que a ele pouco importava a questão financeira…

Um dos primeiros “clientes” tinha como foco a mudança da aparência da esposa, achava-a horrenda, então configurava seu dispositivo para que ela passasse a se parecer com atrizes de cinema, modelos, ao ponto de não conseguir mais olhar para ela sem que estivesse usando os óculos. Em um momento de distração, quando olhou rapidamente a esposa na cama ao acordar, causou-lhe um infarto que quase o matou. Decidiu então passar a dormir com os óculos.

Os conteúdos ligados a exacerbação do orgulho eram seus prediletos, ali podia incitar diversos defeitos humanos, os mais rasos, egoísmo, vaidade, total ausência de generosidade. Seu xodó passou a ser um programa chamado “Eu sou o Rei”, tratava-se de um sucesso de mercado, ao  selecionar o aplicativo no “Menu” dos óculos as pessoas passavam a viver no seu ideal de mundo (os dados das escolhas feitas por cada um eram armazenados em um grande computador que dava ao Diabo informações individuais dos desejos preferidos de cada personalidade no mundo que propiciavam ao Diabo as informações necessárias para levar o “mundo de desejos ideal” de cada um que adquirisse o aplicativo, que rapidamente foi comprado por todos os usuários do Diaboclos. E acredite, caro leitor, quando digo que em poucos anos, todos os seres humanos da terra possuíam algum tipo de Diaboclos, do mais pobre ao mais rico, o dispositivo tornara-se item essencial na vida de praticamente toda a humanidade.

As reuniões do Conselho de Administração eram monótonas, pouco atrativas para o Diabo, que acabou outorgando aquele consultor mais experiente como seu representante naquela. Ao Príncipe das Trevas pouco importava decisões financeiras, etc., preocupava-se apenas em controlar toda a humanidade para garantir que jamais saíssem do transe em que se encontravam e que mantivessem suas ações maldosas e individualistas como leva de vida.

Até que ele recebeu a fatídica notícia do experiente e competente consultor que, ao se reunir com o Diabo, portava o último modelo do Diaboclos.

— Senhor, o conselho promoveu uma reestruturação acionária na empresa, pulverizamos as ações no mercado e agora a Diaboclos terá uma gestão muito mais moderna e eficiente. O senhor me autorizou a vender parte de suas ações e agora você é o ser mais rico do Mundo.

— Tá bom, tá bom, isso pouco me interessa. Agora me deixe, preciso voltar ao controle dos humanos.

— Essa é a outra notícia que eu tenho para te dar, nós do conselho contratamos um novo Diretor de Criação, que sendo mais jovem trará as novas tendências de conteúdo para a Diaboclos e nos tornará imbatíveis.

O consultor estava conectado ao módulo plus do “Eu sou o Rei” e queria resolver logo aquele assunto para retornar ao seu mundo imaginário.

— O QUE???Um Diabo de Óculos

— É isso mesmo, senhor. Você agora é o ser mais rico do planeta, vá e aproveite sua vida. Aliás, como consegue viver sem o Diaboclos? Eu não consigo mais ver o mundo sem ele, a última vez que o tirei era como se eu estivesse saído de um sonho maravilhoso e entrado em um pesadelo horrendo.

— E eu lá quero saber de dinheiro? Quero continuar a controlar a mente das pessoas.

— Desculpe, senhor, mas a decisão está tomada. O estatuto da empresa já foi alterado e o senhor já não faz mais parte da Diaboclos. É claro que o senhor será sempre reconhecido como o fundador e idealizador do produto mais revolucionário da história. Tome seu cheque e aproveite a vida.

— Vocês não podem fazer isso.

— Claro que podemos, o senhor me outorgou totais poderes para administrar a empresa…

O Diabo imediatamente sentiu-se sem chão. Uma raiva incomensurável. Para ele não bastava que a humanidade estivesse naquele profundo coma, queria ele ser o líder, o controlador, garantir que jamais recuperassem sua consciência de forma que seu Reinado de Trevas na Terra perdurasse pela eternidade.

Consultou os melhores escritórios de direito empresarial existentes, não havia o que fazer. Ele autorizara o maldito consultor a tomar todas as decisões administrativas. Era tudo legal. Estava trilionário, mas não tinha qualquer poder na empresa. Seu grito ao perceber que qualquer ação era inútil provocou a erupção de um vulcão há muito adormecido. Pela televisão, assistia as pessoas usando o Diaboclos admirando a erupção sem perceber o perigo pelo qual passavam. O desejo de vingança despertado fez com que seu foco se voltasse para a destruição da Diaboclos, mas como fazer isso se seu plano era perfeito e toda a humanidade estava fadada a permanecer naquele transe eterno?

Engoliu seu orgulho e subiu novamente ao céu.

Ao chegar, viu Deus observando o mundo através de uma luneta. Antes de dizer qualquer coisa, o Criador o chamou e pediu para que desse uma espiada. A luneta apontava para um cego que argumentava com um dos mais assíduos clientes da Diaboclos e, para a sua surpresa, o assíduo cliente retirou os óculos e abriu os olhos novamente para o mundo real.

— Mas como? — perguntou o Príncipe das Trevas. E Deus respondeu.

— Não interessa a escuridão em que a humanidade esteja metida, meu filho, sempre haverá “cegos” para ajudá-la a retomar a trilha da luz.

Um Diabo de Óculos

Autor: Bruno Junqueira Morais e Silva

 

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