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A alma no antigo Egito

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O destino da Alma está no céu; o destino do corpo está na Terra. Os rituais de mumificação determinam a direção da viagem.

O ego pessoal e a Alma diante da sala do Juízo

Na antiga cultura egípcia, o Ego pessoal é representado pelo coração e é de dupla natureza. Possui uma face espiritual superior, que lhe outorga as faculdades mentais da memória e da imaginação. Mas essa luz da inteligência se encontra submersa no mundo do desejo e da dualidade, o kama dos hindus, que se entende como uma espécie de Alma inferior humana ou mente de desejos.

O coração tem dois nomes que na vida se convertem em um só: Ab e Hati. O Hati é o coração físico, o que permanece na terra, o aspecto temporal, a sede das paixões que se devem dominar para transcender a natureza inferior. O Ab é o que vai ser julgado como uma testemunha que olha o passado e o futuro da alma.

Helena Blavatsky insiste em que a alma que aspira à osirificação, à ressurreição ou renascimento num plano superior, é o eu pessoal (Ab). Este coração, Ab, é o aspecto inferior da mente. O Ba é o superior, e ambos constituem uma unidade. De fato, devem integrar-se como tal na Sala do Juízo para demonstrar estar com a Verdade, com a Justiça, com a Lei e com a Luz. Isto é o que considera a alma osirificada, que permite ao Ba recuperar o poder sobre a memória e a imaginação.

Há diversos capítulos do Livro dos Mortos em que o coração hereditário Geb-Ba¹, ou o princípio que reencarna, solicita ao seu coração Ab que não testemunhe contra ele. “Oh, meu coração, meu coração hereditário, (te) necessito para minhas transformações (…) não te afastes de mim perante o guardião das balanças, Tu és minha personalidade dentro do meu peito, companheiro divino que vela meu corpo” (Livro dos Mortos. Cap. LXIV, 34, 35).²

O coração Ab deve testemunhar acerca da inocência do defunto e de que este se comportou na Terra como um discípulo no caminho espiritual. Este coração é o centro da forma e da vida da personalidade temporal, que tem de demonstrar, frente ao tribunal de Osíris, ter sido o correto canal dos princípios superiores.

Quando o coração do defunto é julgado puro, a sentença de sua liberação que o juiz pronuncia é: “que o coração seja posto em seu lugar, na pessoa de Osíris N. O retorno do coração ao peito do defunto é o sinal de seu renascimento e está associado ao escaravelho”.

A osirificação do coração permite o renascimento da alma no plano de Atum, sua divinização e sua fusão na luz de Re. O coração, uma vez osirificado, não se transforma mais, porém o Ba prosseguirá ainda sua transformação. O defunto diz: “Eu vejo as minhas formas, como vários homens transformando-se eternamente (…). Eu conheço este capítulo. Aquele que não o conhece assume todo tipo de formas viventes”. (Livro dos Mortos, Cap. LXIV, 29-30)

O juízo do coração determinará a direção da viagem, seja para reencarnar na Terra, seja para continuar seus renascimentos no Céu.

Se não consegue passar no juízo, o coração é engolido pelo monstro Amhet, que o excreta nos planos inferiores, transformando-o no corpo causal de uma futura vida ou encarnação. O Ba se inverte, retorna ao Duat de cabeça para baixo e volta a ter uma morada na Terra, o que se representa como o Ba retornando ao túmulo. Voltar ao túmulo significa reencarnar. Por isso, se vê Ba levar para a múmia funções vitais e alimentos, o que representa o processo de uma nova encarnação na terra. Na realidade a múmia não renasce no além, mas apenas simboliza a futura personalidade ou quaternário que deverá encarnar, em estado de gérmen.

A múmia representa o corpo que fica na Terra e por sua vez a representação do último destino da alma, o Sahu, o que pode causar muitos mal-entendidos porque é um conceito utilizado de modo alegórico. O corpo, depois da morte, é transformado em múmia. A múmia é a sustentação no mundo terreno da recomposição dos elementos septenários que tendem à dissolução depois da morte. Os rituais funerários propiciam a transformação do defunto em um corpo de Luz ou Akh. A múmia, como prefiguração do corpo de luz, é também denominada Sahu, que se distingue do cadáver ou corpo putrefactível, Khat, e do Djet ou corpo físico vivo.

A múmia pode também representar o continente ou veículo do que será transformado ou renascerá em qualquer plano. Estar em estado de múmia é estar em estado vegetativo ou latente. Mas isso pode denotar tanto a latência do corpo físico como a da alma superior. Não é a múmia física que ressuscita.

Quando nos textos se vê o Ba regressando à múmia, se está simbolizando o descenso da alma ao plano terrestre, isto é, a reencarnação. “O que vai reviver (…), a alma deveria encontrar-se com a múmia (Livro dos Mortos. Cap XXXIX) e lhe dar novamente a vida”.³

Depois de haver passado um tempo no além, no Amenti, e se haver purificado da vida passada, o defunto é chamado a contribuir com novas existências para a múmia, o germe causal de sua próxima encarnação. “Oh Deuses de Heliópolis (…), concedei-me que minha alma venha a mim onde quer que esteja. (…) Minha alma e minha inteligência me foram arrancadas. Fazei que minha alma veja meu corpo, se a encontrardes… Que se uma à sua múmia (que reencarne)” (Livro dos Mortos cap. LXXXIX).

Quando a múmia chama a alma ou Ba representa o germe do futuro ego pessoal que se está reconstituindo para uma nova encarnação. Não há ressurreição da carne no mundo terreno. O destino da alma está no Céu. O destino do corpo esta na Terra.

No Livro das Respirações, ou Shai-n-sin sin, supostamente escrito por Isis para seu irmão Osiris, para fazer reviver a alma, para fazer reviver o corpo, se diz: “tua individualidade é permanente; teu corpo é durável; tua múmia germina. A germinação da múmia é o símbolo da ressurreição ou reencarnação na Terra”.

Se a Alma for osirificada, isso significa que seu coração está tão leve quanto a pluma de Maat e não é preso pelo monstro Amhet. Então será o deus Horus quem apresentará, não o coração, mas a Alma viva e justificada (Livro dos Mortos cap. CCXXV) do defunto a Osiris, deus do Além. A Alma viva poderá continuar seu itinerário ruma à luz do dia. Será purificada no lago de fogo (Livro dos Mortos cap. CCVI) e avançará no caminho que a conduzirá à sua verdadeira natureza, que é ser Luz junto a Re.

O Livro dos Mortos oferece uma lista completa das transformações da alma que o defunto realiza enquanto se despoja progressivamente das vestes mais opacas e densas, à medida em que se eleva na noite do Duat, à luz do horizonte de Re.

A sombra (Kaibit), a forma astral, é aniquilada, devorada por Oreus (Livro dos Mortos, CIL, 51). Os Manes serão aniquilados; os dois gêmeos (os princípios quarto e quinto) serão dissipados; mas a Alma Pássaro (Ba), a Andorinha divina e a Oreus de fogo (Sahu, que reúne os três componentes superiores em uma unidade) viverão na eternidade, pois são os maridos de sua mãe.4

Notas

Blavatsky compara este Geb-Ba com o Maná Hindú, a Alma hereditária, o fio brilhante imortal do Ego superior, ao qual adere o aroma espiritual de todas as vidas ou nascimentos (Doutrina Secreta, vol. 4p. 196). O (morto) Rei é Osíris nas cinzas. Seu horror é a terra: não entrará em Geb (pois) está aniquilado quando dorme em sua casa sobre a terra (a nova personalidade) (Pyr 308-312). A entrada em Geb é a entrada na vida terrestre, ou seja, a encarnação. Às vezes se vê nos desenhos a Alma como pássaro com cabeça humana sobre a tumba. Esta (a tumba) representa a antiga personalidade material, que contém a múmia, as vísceras e os aspectos materiais. Há analogias entre a tumba e a casa. A casa na terra é a nova personalidade terrestre.

Doutrina Secreta, vol 1, p. 241.

La réincarnation. E. Berthelot, Ed. Pierre Guenillard, p. 164. Lausanne, 1978.

Doutrina Secreta, vol. 1, p. 247.

Bibliografia

O livro dos mortos, traduzido do francês por Paul Pierret, Ed. Ernest Leru, Paris, 1882.

O Livro dos Mortos, Ed. José Llanes, Barcelona, 1953.