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A Arte sob a ótica da Filosofia à Maneira Clássica

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Em visita ao Brasil pela primeira vez, o professor, músico e diretor internacional do Instituto de Artes Tristan, o alemão Walter Gutdeutsch, participou do Seminário “Arte, Filosofia e Educação”, promovido pela Sociedade de Educadores Giordano Bruno, Associação Cultural Nova Acrópole e com apoio cultural da Petrobrás. O Evento aconteceu na cidade paulista de São José dos Campos e em Florianópolis, SC. Nessa ocasião, o artista concedeu com exclusividade a seguinte entrevista para a repórter de Esfinge, Genni Alves:

Esfinge: O Instituto de Artes Tristán, presente atualmente em vários países do mundo, tem o seu aporte na Filosofia à Maneira Clássica. O que significa a arte sob o ponto de vista filosófico?

WG: Primeiramente quero dizer que filosofia é amor à sabedoria. Quem ama a sabedoria, vai em sua direção, em sua busca, e isso também se reflete na Arte, que pode ser um acesso à sabedoria.

Esfinge: E qual seria a importância da Arte no momento em que vivemos? Às vezes, tem-se a impressão de que ela perdeu um pouco a sua função educadora. Como o senhor avalia a Arte na atualidade?

WG: a Arte tem três grandes aspectos: o cultural, como as realizações de concertos, exposições de pintura, poesia ou qualquer arte que esteja representada em nossa sociedade; o pedagógico, uma vez que sem pedagogia ninguém pode se aproximar conscientemente da sabedoria; e o terceiro que é o aspecto filosófico, ou seja, por trás das artes encontram-se valores atemporais e pode-se filosofar, interrogar-se sobre estas verdades. Um de meus grandes desejos e trabalhos é o resgate do sentido filosófico e pedagógico das artes, que atualmente, está em falta.

Esfinge: E o senhor saberia dizer porque a arte chegou a ser hoje algo somente cultural e também comercial, perdendo assim o seu aspecto filosófico e pedagógico?

WG: Isto para mim tem suas raízes no Romantismo. Há 150 ou 200 anos surgiu em nosso mundo ocidental uma percepção nova, uma visão muito diferente da arte que foi a “arte pela arte”. Desde então, a arte perdeu suas conotações de sistema pedagógico e de filosofia. Uma arte sem mensagem. Antes do Romantismo era a arte da consciência, de aproximar o ser humano do mais elevado. A partir daí ela tornou-se um fim em si mesma e não mais um meio para outras finalidades.

Esfinge: o Senhor acredita na Arte como um meio do ser humano se elevar ou até mesmo de purificar-se, como na Grécia Antiga?

WG: Este é um dos muitos componentes da Arte à Maneira Clássica. Falávamos da concepção da arte antes do Romantismo, que era muito próxima do conceito renascentista. O Renascimento tinha uma visão global do mundo e do homem e, por isso, as artes tinham uma compreensão muito maior. A purificação era apenas um aspecto. Outro era o da conexão da consciência humana com os arquétipos eternos; e ainda outro o de como posso comunicar-me com outros seres humanos. Havia também o das artes como canal da beleza. No aspecto da purificação, estava a catarse, que vem dos antigos gregos e era um aspecto muito importante da arte.

Esfinge: E em relação ao Instituto Tristán, a proposta é resgatar esse conceito de arte?

WG: Temos um duplo objetivo: um é resgatar elementos perdidos para promover outra vez um sentido mais global, mais amplo das artes. Outro aspecto é buscar e encontrar novas formas para expressar as artes, porque se não, só vamos fazer algo retrospectivo e orientado ao passado. E isso não colabora com o desenvolvimento de nossa sociedade.

Esfinge: E como se daria isso?

WG: Eu penso que um artista, um verdadeiro artista, sempre tem algo de inspiração e de intuição. O verdadeiro artista não reflete somente sua visão do mundo atual, ele não somente compensa seus próprios conflitos e situações biográficas em sua obra. O verdadeiro artista conecta-se com valores atemporais e quer encontrar novas formas para expressá-los. Os conteúdos filosóficos, talvez. No conceito de arte à maneira clássica essas idéias são atemporais, a aplicação e a busca das formas são diferentes em cada época. Eu penso que é absolutamente indispensável que busquemos também novas formas nas artes, mas com conteúdos e conceitos globais por detrás delas, que inspirem o artista.

Esfinge: Essa busca de novas formas para expressar a arte tem a ver com a idéia de arquétipo de beleza expressa por Platão?

WG: Não é possível falar assim. O que acontece é que agora há diferentes conceitos de arte, tão variados que não se pode dizer isso. Na antiga Grécia existia apenas um conceito de arte e hoje cada pessoa na rua tem suas particulares idéias sobre arte e beleza. Há artistas atuais que não têm a finalidade de expressar a beleza; outros que se orientam por um enfoque tradicional, mas são minoria agora.

Esfinge: E qual é sua idéia sobre a beleza?

WG: Eu me inspiro nos grande filósofos da antiguidade, não somente em Patão, nos gregos, como também nos filósofos do Egito, da Índia, das grandes culturas… Quando fazemos um estudo comparativo das diferentes culturas e de suas manifestações artísticas, ganhamos uma conotação muito mais ampla da beleza. Eu diria que a beleza não é somente o belo, o bonito, algo figurativo que tranquiliza, mas um canal para a verdade, para a sabedoria. E a sabedoria, as verdades, às vezes não são agradáveis. Saber a verdade sobre si mesmo exige um estado interior, psicológico. Nem sempre é tão agradável aceitar os nossos próprios erros e medos. Então, aproximar-se da verdade nem sempre é fácil.

Esfinge: E qual seria o caminho para a Beleza?

É o caminho da reta tensão. Numa pintura de Boticcelli ou de Miquelângelo, por exemplo, há tensões. Não é tudo harmonioso, porque quando tudo é perfeitamente harmonioso não há movimento. Demasiado equilibrio significa não movimento e isto é um signo de morte. Um bom artista tem um pouco de desequilibrio em sua arte para movimentar as pessoas, causar impacto, chocar um pouco. E se isso não ocorre, o belo no sentido comum, é decorativo, é artesanato. Em geral, as pessoas não gostam de conhecer-se a si mesmas porque é um trabalho que exige continuidade e veracidade consigo mesmo, além da exigência de um profundo desejo de melhorar seu próprio caráter.

Esfinge: Esse trabalho de melhorar o caráter, de trabalhar sobre si mesmo, é somente para o artista ou é também para quem vê, para quem aprecia a obra do artista?

WG: Este efeito toca tanto a quem pratica as artes como também aquele que as aprecia. Mas quero acrescentar algo ainda sobre a beleza. Ela é um caminho, não é algo estático, mas sim, dinâmico. Quando vemos uma rosa muito bela, sentimos afinidade e isto nos move. Quando sinto seu o perfume, isso me encanta. Como podemos compreender por que essa rosa é tão bela? A rosa traz de dentro de mim um sentimento e algo do plano mental, dos pensamentos. A beleza da rosa é somente a expressão do arquétipo do belo. Isso é platônico. Na música ocorre o mesmo, a beleza da música expressa somente o belo. A beleza de um abraço da minha namorada, é bela, mas é somente um reflexo do arquétipo do abraço. Eu penso que uma pessoa que se sensibiliza com a beleza no mundo, encontra estruturas que dão expressividade. Hoje, a concepção de beleza é subjetiva, é algo emocional, de gosto pessoal ou não. O meu conceito de beleza é de caminho.

Esfinge: Como o senhor avalia a arte moderna?

WG: Na arte moderna há de tudo. Há expressões psicológicas de nossos problemas, de nosso mundo, pessoas que refletem seus problemas, conflitos, crises, e querem despertar a sociedade para que abra os olhos para esses problemas. Há outros que querem não somente despertar de uma maneira brutal, fria, mas querem também abrir outro caminho para sair desses problemas. A palavra artista é usada, então, para duas diferentes formas de reagir aos problemas do mundo. Eu sou parte do segundo grupo de artistas. Vejo também problemas, não quero fechar os olhos, acredito ser importante que o artista desperte a sociedade, mas penso que o artista também tem uma responsabilidade política e moral, mas não o direito de mostrar somente o feio, os problemas. Talvez com sua arte, não tenha a solução para os problemas, mas pode, ao menos, mostrar outros aspectos da vida que sejam uma motivação para sair desses problemas.

Esfinge: É possível traçar um paralelo do que foi a arte em Creta, no Egito, em Elêusis, com a nossa arte hoje?

WG: O estudo comparativo é um dos elementos básicos e fundamentais em Nova Acrópole como uma escola de Filosofia à Maneira Clássica. Assim como do Instituto Tristan, porque tem em seus objetivos estudar comparativamente as artes e a filosofia das artes à maneira clássica. Estudar como os egípicos, como os cretenses é algo que pode ser muito interessante. Vamos descobrir que há aspectos das artes que existem somente em uma época e outros que sempre resistem, não em suas formas, mas em perspectivas de como se pode ver o mundo. E isso é interessante. Poder extrair das antigas culturas, as culturas mestras nas artes, aqueles elementos que nos dão uma visão do mundo.

Esfinge: Esses povos promoveram catarse com a sua arte?

WG: Promoveram um aspecto da catarse. A catarse é um elemento muito alto e não foram todas as pessoas dessas sociedades que a viveram. Nem todas as pessoas buscam uma purificação. Grande parte da população nem sequer sabe o que é uma catarse e quando sabe não a quer. A maioria das pessoas em uma sociedade quer que a arte lhe dê alento ou esperança. Percebem que a vida é cheia de problemas e querem que as artes lhes dêem o sonho de um mundo melhor, um sonho que dê alegria, e que com isso elas possam sair de seus problemas cotidianos. Na Grécia antiga, buscar a purificação significava aceitar que há sentimentos muito fortes como o medo, a desesperança, o isolamento. Significava passar por um sentimento muito duro e encontrar a força de renascer. Isso é a catarse, um processo de purificação que significa passar pelos mais duros sentimentos e não fugir, tocar o ponto mais profundo da solidão, tristeza, angústia e renascer. Isso está muito perdido em nosso momento histórico, porque um bom artista agora sabe mostrar muito bem os problemas, mas não uma saída para eles.

Esfinge: A arte sacra promoveria isso melhor?

W.G.: Sim, veja, por exemplo, o teatro mistérico na Grécia. Essa não era uma arte para agradar, para que as pessoas aplaudissem no final do espetáculo. Havia um outro conceito de arte, um conceito de arte sagrada no qual não existia a separação público/ator. Todos vivenciavam uma experiência que promovia a transcendência das emoções pessoais e a percepção de sentimentos muito elevados, como o de pertencer a um todo, a percepção de que Deus está em mim e eu estou em Deus, sentimentos não pessoais. A arte, naquela época, não tinha a concepção de algo belo ou de distração, de um momento de sonhar com algo bonito para acrescentar à minha vida cotidiana um pouco de beleza. As artes eram como pequenos mecanismos que tinham a finalidade de transcender o homem do cotidiano, do profano.

Esfinge: Para finalizar, o senhor gostaria de deixar uma mensagem para os leitores da revista Esfinge?

W: Sim, eu me inspiro no nome Esfinge, porque implica que há perguntas na vida que são atemporais, perguntas sobre o sentido da nossa vida. O mito grego conta-nos que um príncipe, futuro rei Edipo, chegou até a Esfinge e recebeu a famosa pergunta: “Quem marcha em quatro pernas pela manhã, em duas pernas ao meio-dia e com três pernas pela tarde?” Edipo sabia a resposta: O homem. Como bebê usa “quatro pernas”, como adulto, “duas” e como idoso usa uma bengala, ou seja “três pernas”.
Bom, talvez todas as perguntas da nossa vida girem sobre nós mesmos, como seres humanos. Penso que é uma verdadeira arte tornar-se cada vez mais Seres Humanos, mais nobres e autênticos. Através das artes, podemos compreender mais sobre nós mesmos, os demais seres humanos, o mundo, o destino e o sentido da vida. Através das artes, podemos despertar o potencial dentro da nossa alma e contribuir com algo válido para o mundo, que tanto sofre. Por isso, as artes são, além de culturais e educativas, uma trilha filosófico-espiritual para aprender a “Arte de Viver”, para estar em paz consigo mesmo e com o entorno, e para atuar com o coração cheio de felicidade e de amor.

Walter Gutdeutsch
Nasceu em 1958, na Alemanha. Cursou estudos musicais de piano, órgão, música sacra, composição, direção e pedagogia musical na Escola Superior de Música de Viena, Áustria. Durante vários anos desenvolveu uma intensa atividade artística como solista em grupos de câmara e orquestras. Trabalhou como músico eclesiástico, organista, diretor de coro e com grupos de música infantil por 20 anos. Em seu trabalho pedagógico compos várias obras para uso escolar, entre elas 11 óperas infantis com instrumentação Orff. Entre 2000 e 2004 foi diretor do Conservatório de música de Pullach, em Munique, Alemanha. Atualmente é professor de piano, de educação musical pré-escolar e de grupos de música infantil, além de Regente de coros infantis no ensino fundamental e médio. Há 18 anos visita regularmente países da América Latina. Realiza seminários e conferências na Alemanha, Áustria, França e Espanha. É membro regular do júri do Concurso Internacional de Piano da Nova Acrópole de Madri, Espanha.