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A FILOSOFIA DO PENSAR NO FALAR, ESCREVER E DIALOGAR – O que há em comum?

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Maria Conceição da Silva – Ph.D. em Ciências Biológicas e Estudante de Filosofia da Nova Acrópole Salvador – Bahia
Vera Serra – Psicóloga e Especialista em Oratória

Pensar está para falar, assim como pensar está para escrever, formando uma equação com termos integrados entre si, uma vez que, eles nunca coexistirão um sem o outro – jamais existirão escritos sem que antecedam os pensamentos e, por outro lado, nunca existirão falas que não sejam precedidas de pensamentos.

A este propósito, toda fala e toda escrita é uma transformação e para poder transformar algo é necessário estar em contato com ele. O caminho para estar em contato com algo é a concentração. Em suma, consciência e/ou concentração, falando filosoficamente, é saber chegar e estar no centro.

O indivíduo consciente, como bem afirma Délia Guzmán (Diretora Internacional da Nova Acrópole), estudiosa dos filósofos de todos os tempos, proporciona a ele próprio uma vida interior mais rica, pois, como observa Guzmán, reforça o conhecimento, outorgando dessa forma, mais segurança. Esse estado leva o indivíduo a prestar mais atenção, não só ao seu interior como também ao seu entorno.

O pensar está para o falar, tanto quanto o pensar está para o escrever sim, evidenciando, dessa forma, que o conhecimento é muito importante para os dois aspectos. As palavras são substâncias expressas através da retórica, porém, extraídas do pensamento. As escritas são substâncias, também, extraídas do pensamento e expressas através dos alfabetos.

Uma das formas de enriquecer o pensamento é a observação, seja essa através da visão ou da audição, dentre outros sentidos. A leitura, por exemplo, é uma grande enriquecedora do pensamento. Quantas vezes, Anísio Teixeira, o patrono da educação brasileira, afirmou que a leitura, para o bom falar e o bom escrever, é indispensável. É frase dele: “Uma sociedade se constroe com homens e livros”.

A maior parte do conhecimento é obtida através da leitura, que possibilita o aprofundamento do saber em determinado campo cultural ou científico. Porém, é preciso ter cuidado, pois ler significa conhecer, interpretar, decifrar, eleger, ou seja, distinguir os elementos mais importantes daqueles que não o são. A leitura constitui-se em um dos fatores decisivos do conhecimento, é imprescindível em quaisquer tipos de investigação científica, favorecendo a obtenção de informações já existentes, bem como, ampliando o vocabulário.

Para que a leitura tenha um resultado satisfatório, é necessário, em primeiro lugar, que haja intenção, ou seja, o interesse de conseguir algum proveito através dela – porém outros aspectos devem ser levados em consideração, tais como:
Atenção – aplicação cuidadosa da mente em determinado objeto para haver entendimento do conteúdo básico encontrado no texto, ou seja, a essência do que o autor quer expressar.
Reflexão – consideração e ponderação do que se lê, observando todos os ângulos, tentando descobrir novos pontos de vista, novas perspectivas e relações, já que isto favorece a assimilação de idéias alheias e, por outro lado, o esclarecimento e aperfeiçoamento das próprias, além de ajudar a aprofundar o conhecimento já adquirido.
Espírito crítico – implica no julgamento comparação, aceitar ou refutar as colocações ou ponto de vista. Ler com espírito crítico significa ler com reflexão, não admitindo idéias sem analisar, comparar com outros autores da mesma linha de pensamento ou não, sem ponderar, nem acatar proposições sem discutir, nem aceitar raciocínio sem examinar e arguir para emitir juízo de valores. Finalmente, dentro de uma sequência lógica de pensamentos, fazer uma reconstituição dos aspectos essenciais do texto, a partir das partes decompostas, frutos da análise do mesmo.

Uma das formas de transmissão do conhecimento é a fala e, segundo reporta a filósofa Guzmán, o falar é uma linguagem verbal para ser sentida pelos outros. Guzmán, numa das suas palestras, cita que, falar também é o resultado do saber sentir, porque é o sentimento que impregna de substância o ouvir. Ou seja, para uma boa oralidade é preciso saber sentir. É o emocional e o energético permeando o psíquico e o físico do indivíduo para o bom desempenho da fala.

Não seria diferente para o escrever, tanto que nesse sentido, concordo plenamente com a filósofa Guzmán, uma vez que fica evidente que teses desse gênero são ferramentas que o indivíduo necessita também para o escrever.

Para escrever é necessário sentir, tanto quanto para o falar. Logicamente, é necessário estar com o corpo emocional, energético e físico altamente integrados com o seu corpo mental, isto significa estar no centro. E para tornar inequívoco, vale dizer que o centro, aqui referido, é o ponto de equilíbrio do indivíduo mais próximo da “chispa divina” contida nele próprio.

Surpreendentemente, há pessoas altamente desintegradas querendo escrever algo, muito comum nos trabalhos de conclusão de cursos: as famosas monografias (dissertações e teses) onde, na maioria das vezes, não se propõe querer pensar, muito menos sentir.

Finalmente, para sentir e pensar é preciso saber querer o que Guzmán define assim: saber querer é diferenciar as emoções superficiais das profundas e duradouras, ou seja, as que afetam somente a personalidade e as que tocam a alma, asseverando ainda que: principalmente, pensar é analisar o que se quer para querê-lo com mais inteligência e mais energia, uma vez escolhidos os sentimentos pelos quais vamos nos inclinar.

Todos esses argumentos levam ao entendimento de que quando o querer está claro, inteligente e forte, e os sentimentos evidentes, significa que o pensamento, o grande e indispensável aspecto necessário, tanto para escrever, como para falar, aparece.

A referida filósofa argumenta ainda que, pensar com sabedoria é colocar a mente para por ordem nela mesma. Essa tamanha clareza de expressão de Guzmán lembra que consciência ou concentração é sabedoria e sabedoria é amor.

Pode-se arguir, corroborando mais uma vez com essa autora, que para construir juízo de valores e relacioná-los uns com outros, de maneira coerente e com fluxo lógico, é necessário ter argumentos inteligíveis.

É a partir de idéias luminosas, evidentes, vibrantes, inequívocas e fortes que se evidencia o pensar, que tanto para o falar como para o escrever, estabelecem-se relações, analogias e diferenças que levam ao raciocínio, à análise e à compreensão de todos.

E, por falar em compreensão, é bem próprio discorrer algo de suma importância para o compreender, que é o saber ouvir. Bem apropriado o dito pela filósofa Délia Guzmán, na sua fala, citada no início deste artigo, que, quem sabe entender seus próprios pensamentos, está centrado em si mesmo, sabe estar no centro, logo, sabe ouvir o que os outros expõem, condição essencial para a convivência harmoniosa entre os seres humanos.

Voltando ao discurso de Guzmán: ela cita ainda que, saber ouvir é saber raciocinar no ritmo do outro – entrar no movimento da sua mente e do seu coração. Isto significa o domínio de si mesmo, respeitando a capacidade de convivência amorosa entre os seres humanos, uma vez que sabedoria é amor.

Bem oportuno lembrar Plutarco, filósofo e biógrafo grego, que ano 100 d.C., em um pequeno ensaio, escreveu sobre a retórica do ouvir, arguindo que o indivíduo ao ouvir aprende mais a pensar do que a falar, referindo-se que a audição é feita da própria substância das palavras, sendo a retórica apenas uma função reguladora do exterior.

E, para concluir, vale lembrar Sócrates, filósofo de todos o tempos, quando um jovem perguntou-lhe como poderia alcançar a sabedoria. Sócrates pediu que o acompanhasse e levou-o até um rio, onde mergulhou a cabeça do jovem na água e assim o manteve até que ele se agitasse para respirar, soltando-o então. Quando o jovem se recuperou, Sócrates perguntou-lhe: “O que você mais queria quando estava com a cabeça dentro da água”? “Eu queria respirar”, disse o jovem.

E Sócrates declarou: “quando você quiser sabedoria, tanto quanto queria respirar quando estava mergulhado na água, então a receberá”.