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A tragédia dos cátaros

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O povo simples chamava-os de “Os Homens Bons”.

Eles diziam de si mesmos que, distante da Igreja de Roma, eram os verdadeiros descendentes de Cristo e de seus apóstolos. Atualmente, nós os conhecemos como cátaros.

Antecedentes de uma cruzada

Estamos em Languedoc, a antiga terra de Oc. Durante séculos esta Região foi habitada por povos que deixaram sua pegada indelével nas suas tradições e lendas, na sua história mágica e nos seus indecifráveis enigmas.

Em que pese a existência do feudalismo próprio de terras francesas e do norte da Europa, em Languedoc, no século XII, havia uma sociedade mais aberta e plural, com uma burguesia economicamente mais poderosa e algumas cidades zelosas pela sua independência e por seus foros. Aquela foi a terra onde os trovadores exerceram sua arte e cantaram os ideais platônicos sobre o amor.

Por seus caminhos, viam-se, naquele tempo, alguns estranhos personagens que, sob a ótica do campesino comum, bem que podiam ser confundidos com os sacerdotes da Igreja Romana. Caminhavam sempre em duplas, homens ou mulheres indistintamente, e iam vestidos com um hábito negro apertado por um simples cordão à maneira dos franciscanos.

Podiam ser encontrados pregando nos mercados e nas praças públicas, ajudando os campesinos a ararem seus campos ou os artesãos a trabalharem no seu tear, enquanto lhes instruíam nas suas doutrinas. O povo simples chamava-os de “Os Homens Bons” e de “Os Perfeitos” e ante aqueles “Bons Homens” e “Boas Damas” dobravam o joelho em sinal de cumprimento cada vez que os encontravam pelos caminhos ou nas suas casas de retiro. Diziam de si mesmos que, longe da Igreja de Roma, a qual qualificavam como criação do Satã, eles eram os verdadeiros descendentes de Cristo e de seus apóstolos. A História os designou como “albigenses“, “patarinos” ou “tecelões”. Atualmente, nós os conhecemos como cátaros, palavra que alguns autores dizem derivar do grego, cujo significado seria “Os Puros”.

Pouco sabemos de suas doutrinas originais, dado o seu sectarismo e o desaparecimento de seus escritos, embora seja muito provável que provenham do Maniqueísmo vindo dos albanos e bogomilos.

Ensinavam sobre a existência de dois princípios universais e eternos. O primeiro era Deus, de onde provinha todo o bem, e o outro era Satanás, de onde provinha todo o mal. O universo era uma criação de Satã, por isso tudo o que existe nele não poderia ser bom. Esses dois princípios também existem no homem. Segundo suas crenças, um dia Satã invadiu o espaço divino e seduziu uma parte dos Anjos de Deus, arrastando-os à Terra para aprisioná-los em corpos de carne. Compadecido de seus Anjos, Deus enviou Jesus Cristo para indicar o caminho de libertação das almas, mas, ao contrário das doutrinas de Roma, eles sustentavam que Jesus Cristo, sendo obra de Deus, nem era igual a Ele nem poderia ter tido um corpo de carne, tendo sido uma espécie de corpo espectral que nem sofreu nem morreu na cruz. Longe de santificar o corpo, como defendiam as doutrinas do cristianismo romano, os cátaros ressaltavam sua corrupção e a necessidade de se libertar dele. Desse modo, negavam a ressurreição da carne. Rechaçavam o batismo de água, assim como os demais sacramentos instituídos pela Igreja de Roma. Asseguravam que o único batismo outorgado por Jesus Cristo era o “Batismo de Fogo”, cerimônia que eles denominavam “Consolament”. Apenas quem recebia o “Consolament” se convertia em “Perfeito”, ou seja, em membro da Igreja de Jesus Cristo, o que implicava assumir os votos de castidade, pobreza, abstinência de carne e uma vida de pregação e serviço absoluto a Deus. Os simples crentes apenas tinham a obrigação de ouvir o que pregavam os Perfeitos, embora, se na hora da morte pedissem o “Consolament” ou batismo de salvação a algum “Perfeito”, outorgavam-lhe.

A Igreja Cátara não se estabeleceu apenas nas classes humildes, mas também nas famílias nobres, nas quais teve uma grande adesão das mulheres, como a grande Esclarmonde Foix, irmã do próprio Conde de Foix, que foi uma das principais figuras femininas do Catarismo.

Mas Languedoc e o Catarismo tiveram inimigos difíceis, pois a Igreja de Roma, por causa disso, não somente perdia seguidores, mas também o que mais lhe doía: direitos e poder. Sendo assim, os Reis da França estavam sempre no aguardo de uma oportunidade para submeter a nobreza sempre livre e rebelde do País de Oc.

No ano de 1145, o ideólogo do “Temple”, Bernardo de Claraval, parte para Languedoc para pôr em prática sua idéia de que a fé é uma obra de persuasão, mas não de imposição. Mas nem sua privilegiada mente nem seu poderoso verbo conseguem fazer adeptos no país. Ao final, regressou ao seu mosteiro enviando uma livre sentença a Roma: “Nada há de repreensível na vida dessas pessoas”.

Onde não vale a persuasão, prevalece a rédea curta

Essa foi a lúgubre e triste frase pronunciada por Domingo de Guzmán, monge espanhol fundador da Ordem dos “Domini Cane“, os monges dominicos, e que já predizia as negras nuvens de fogo e de horror que se cingiriam sobre Languedoc e os cátaros.

Em 1198, Inocêncio III é eleito Papa, condena a heresia dos cátaros e se propõe a castigá-los. Escreve ao Rei da França para que intervenha contra Raimond VI, Conde de Tolosa, que era considerado o principal defensor dessa heresia, mas, como o Rei Felipe Augusto estava ocupado com outros assuntos, não tomou nenhuma atitude. Em 1205 é enviado a Languedoc o legado papal Pierre de Castelnau, cuja primeira ação é excomungar o Conde de Tolosa e incitar seus súditos à rebelião. O Conde, talvez tentando evitar a tormenta que se aproximava de seu povo, teve que aceitar as duras condições impostas por Roma: foi obrigado a passear quase nu pelas ruas de Tolosa com um círio de penitência. Além disso, na igreja, é açoitado publicamente antes de ser perdoado. Mas, em 1208, um estranho cavaleiro atravessa com sua lança o emissário Pierre de Castelnau enquanto cruzava o Ródano. Roma já tem sua “Casus Belli“!: é convocada uma Cruzada contra os hereges cátaros e quem os apóie.

O Pároco de Citeaux, Arnaud Amalric, lança os Monges de Císter nos caminhos de Languedoc e ele mesmo se dispõe a dirigir a cruzada militar que, num primeiro momento, encaminha-se em direção a Tolosa, mas o Conde Raimond VI atua rápido e pede para professar os votos religiosos e com isso os cruzados ficam sem objetivo para o ataque. Mas, quando um animal faminto de sangue morde uma presa, é difícil que a solte. As armas se dirigem agora contra Raimond Roger de Trencavel, Visconde de Carcasona e Beziers, que se nega a entregar aos cruzados qualquer um de seus cidadãos que figuravam na lista de mais de 200 “hereges”.

Os cruzados cercam Beziers, e a população é massacrada. A multidão enlouquecida se refugia em templos e igrejas. Conta-se que os cruzados ajudam Arnaud de Amalric, informando-lhe que os “hereges” se misturaram com o resto da população e não sabem como distingui-los. O Pároco lhes dá a ordem: “Matar todos, Deus reconhecerá os seus”. Foram mortos entre 17.000 e 20.000 em Beziers, sem se levar em consideração se eram homens, mulheres, crianças ou idosos.

As tropas cercam Carcasona, que começa a ser atacada. O Visconde Raimond Roger de Trencavel, jovem de 24 anos e vassalo do Conde de Tolosa e do Rei de Aragón, sozinho e sem os esperados reforços de Tolosa, cujo Conde se encontra agora no campo dos cruzados, entrega-se, junto com cem de seus cavaleiros, com a condição de que se respeite a vida de seus cidadãos. Contra todas as regras da guerra e da honra, Raimond Roger de Trencavel é aprisionado com grilhões nos calabouços de seu próprio castelo, onde morreria, três meses depois, envenenado. Com ele morreu a honra e a beleza da terra dos trovadores.

Simón de Monfort

Arnaud de Amalric distribui como pilhagem de guerra os títulos do Visconde falecido, mas nem o Conde de Nevers nem o de Borgonha querem aceitá-los. Dizem que, com lágrimas nos olhos, o Conde de Tolosa abandona o campo dos cruzados. Apenas um nobre francês, Simón de Monfort, aceita os títulos e com isso fica encarregado da cruzada.

O Papa excomunga novamente o Conde de Tolosa e Simón de Monfort parte contra ele. Lá, para ajudarem o Conde Raimond VI, o Conde de Foix e Pedro II, Rei de Aragón, defendem também Tolosa com mil de seus cavaleiros e milhares de infantes. Conhecendo o que os romanos chamavam de “Devotio Ibérica“, Simón de Monfort determina que matem o Rei. Procuram-no e, quando lhe encontram, matam-no sem piedade, não só ele, mas também os melhores da casa de Aragón. O exército do Rei é destruído. As milícias tolosanas, quando cruzam, fugindo de Garona, deixam para trás 20.000 mortos. O Conde Raimond VI e seu filho são mandados para o exílio. Em 1213, o Concílio Ecumênico de Letrán declara Simón de Monfort herói e defensor da cristandade e lhe outorga o título de Conde de Tolosa.

Simón de Monfort não perde tempo para assegurar seus domínios arrasando seus novos territórios a sangue e fogo. A Fortaleza de Lavaur é destruída e sua valorosa castelhana Giralde, ardente defensora dos cátaros, é arremessada nua e viva num poço e é apedrejada até parar de gritar. Seu irmão Amery de Montreal e os seus sessenta cavaleiros são dependurados e degolados.

Mas as milícias de Narbona se negam a servir Monfort. O povo de Tolosa se revolta e o Conde de Foix lhe ataca. O Conde Raimond VI e seu filho Raimond VII iniciam a reconquista de seus territórios. Simón de Monfort morre em Tolosa com a cabeça amassada por um projétil de pedra. O povo de Tolosa clama pela entrada de Raimond VI e de seu filho. O filho de Simón de Monfort, Amaury de Monfort, sozinho e arruinado, foge e vende ao Rei da França o título herdado de seu pai.

Com a morte de Raimond VI, em 1222, Luis VIII, aconselhado por sua esposa, Blanca de Castilla, reclama seus direitos sobre o Condado de Tolosa ao jovem Conde Raimond VII e começa a última fase da guerra contra Languedoc, uma guerra na qual os exércitos franceses se limitaram a destruir cultivos e gados, além do pouco que restava de uma terra já arrasada pelos longos anos de luta, tendo sido fácil rendê-la pela fome. Em 1229, Raimond VII se rende sem lutar e com isso termina a última página da terra livre de Oc. A Igreja de Roma recupera todos os seus direitos e patrimônios perdidos e fica com as mãos livres para exterminar definitivamente a heresia cátara. Calcula-se que, durante a Cruzada, mais de 1.500 cátaros foram queimados vivos em fogueiras coletivas.

Montsegur, o longo caminho de fogo

No ano 1230, a Igreja de Roma cria uma nova instituição destinada a perseguir e a castigar definitivamente a heresia em Languedoc: a Inquisição, alimentada inicialmente por dominicos e franciscanos, começa uma sangrenta perseguição que dizima rapidamente a Igreja Cátara, fazendo com que os perfeitos se refugiassem em cabanas e grutas dos profundos bosques e montanhas de Languedoc. Em 1252, é introduzida a tortura nos interrogatórios, mas como derramar sangue era delito canônico, limitavam-se a afogá-los e a quebrarem seus ossos.

Eram longos meses de solidão na prisão, interrogatórios e torturas e logo o medo, a loucura e as delações. Ninguém estava seguro naquele reinado de terror tão grande como o ódio que despertavam os inquisidores, pois, no final, todos os culpados que não se retratavam eram condenados à fogueira. Até os mortos eram tirados de suas tumbas para serem queimados se fossem declarados culpados. Os últimos perfeitos refugiados nos bosques e nas montanhas continuavam saindo para pregar ou para atender os moribundos. Já não vestiam seu hábito negro, mas um simples cordão de lã por cima da camisa. A Igreja dos Cátaros parece estar próxima do seu fim.

Em 1204, foram os cátaros que pediram para Ramón de Perella, Senhor de Montsegur, que reedificasse o velho castelo situado numa inexpugnável colina do Condado de Mirepoix, na qual a Igreja Cátara conseguiu se manter e se organizar nos últimos anos.

Esta imponente fortaleza foi desde os tempos imemoráveis um lugar habitado e as suas tradições atribuem a sua construção ao gigante Gerión que lutou com Hércules. Desde lá os cátaros enviavam pessoas a todos os lugares da comarca e continuamente recebiam e formavam novos perfeitos.

No ano 1242, chegam à Avignotet onze inquisidores procedentes de Lavaur, onde tinham queimado várias pessoas, mas Pierre Roger de Mirepoix, comandante da Praça de Montsegur, com uma pequena tropa, dirige-se à Avignotet e mata os inquisidores. Essa foi a chispa que incendiou a última fogueira. Os franceses, dispostos já a dar cabo daquele assunto, ordenam ao senescal Huges Desarcis cercar e acabar com os defensores do castelo e com os hereges que o defendiam.

Em Montsegur se refugiavam uns 200 perfeitos e perfeitas cátaras, junto com uma pequena tropa sob o comando de Pierre Roger de Mirepoix e o Senhor da Fortaleza, Ramón de Perella. Auxiliados pelos provincianos, puderam resistir ao cerco durante nove meses, mas, em abril de 1244, negociam sua rendição.

Contrariamente ao que se esperaria, os franceses, talvez já cansados daquele assunto, aceitaram todas as condições dos sitiados, inclusive permitiram que eles regressassem para casa com suas armas, para isso apenas teriam que se apresentar ante o inquisidor e declarar a renúncia das suas crenças.

A última noite de Montsegur foi de despedidas e de lágrimas: alguns defensores pediram o ingresso na Igreja dos Bons Homens e se dispuseram a morrer com eles. Inclusive a jovem filha de Ramón de Perella aceitou o martírio.

Na noite de 16 de maio, depois que os defensores abandonaram a Fortaleza, as 215 pessoas que não tinham renunciado a sua fé foram brutalmente empurradas para a base do monte onde a fogueira já lhes estava esperando, no ainda chamado Campo dos Queimados.

Conta uma lenda que, quando a jovem Esclarmonde, filha de Ramón de Perella, morria queimada, sua alma se converteu numa pomba branca que ainda pode ser vista, por vezes, voando pelas solitárias ruínas do castelo.

José Alberto García