Bem vindo(a)! Você pode filtrar informações específicas da sede mais próxima de você, através da caixa à direita:

AMADO NERVO

Nova Acrópole / Artigos / AMADO NERVO
Categoria:

Dizem que sua vida eobra foram uma incessante busca do infinito, do eterno, um sonhar perpétuo do sobre-humano, uma incansável inquietude diante do misterioso e uma enorme aspiração à Beleza.
Amado Nervo nasceu em 27 de agosto de 1890, em Tepic, um povoado próximo da costa do Pacifico, no México. Filho de Dona Joana de Ordaz e Nunes, descendente de conquistadores, e de Dom Amado Ruiz de Nervo, era o primogênito de sete irmãos. De seu pai herdou nome e sobrenome. Muitos acreditavam que era um pseudônimo ou uma brincadeira do artista.
Nervo era muito jovem ainda quando compreendeu que Deus o fez poeta e que esta era sua missão na terra. Tinha 13 anos quando seu pai morreu. Dona Joana decidiu interná-lo no colégio de Jacona, povoado vizinho, onde receberia uma formação religiosa que deixaria nele suas marcas.
Estudou Ciências e Filosofia (e um ano de Direito). Polifacético, bom aluno, trabalhador e de espírito investigador, era um jovem inquieto, cheio de vitalidade, apaixonado pela vida, pelo amor e pela literatura. Admirava a solene tristeza da natureza no outono. Seus poemas de juventude pertencem a essa época e são dedicados ao amor, à Natureza e à busca de Deus.
Levado por esta veia religiosa iniciou os estudos de Teologia no Instituto de Zamora, mas ao perceber que ali seu ecletismo era limitado, decidiu buscar o conhecimento por outros caminhos mais amplos.
Trabalhava num escritório de advocacia e escrevia textos literários para o “Correio da Tarde” do povoado marinheiro de Mazatlá. Muitos de seus pequenos contos evidenciam um grande conhecimento da psicologia humana e um fino traço de humor, além de uma ampla seara de mil versos e prosas assinados com seu pseudônimo Pedro Romás.
Movido por sua inquietude artística e espírito de aventura, o lugar foi ficando pequeno e aos 24 anos decidiu mudar-se para a capital. Foram momentos difíceis, com a herança familiar acabada, assumiu a responsabilidade trabalhando de vendedor, mas graças ao seu dom e grande amabilidade, infiltrou-se no nascente movimento do Modernismo literário, entre nomes como Asunción Silva, Julián Casal ou Juan Tablada. Logo conheceu seu amado mestre Gutiérrez Nájera, poeta romântico depurado a quem dedicou o poema In Memorian, no primeiro aniversário de sua morte.
Não usava seu nome em seus artigos, mas os de Tricio, Rip-Rip, Triplex, personagens que tinham sua própria história narrada no testamento que lhes escreveu em sua morte. Publicou seu primeiro romance, O Bacharel, provavelmente biográfico e que foi motivo de escândalo por seu final trágico, e seus conhecidos livros de poemas Pérolas Negras e Místicas.
A PESSOA DE AMADO NERVO
Quando chegou à Cidade do México era um rapaz desajeitado, magro como um sarmento, de andar cansado, voz pausada e grave de pregador. Com ar boêmio apesar de seus trajes muito particulares, sua presença marcava o ambiente com franca distinção. Tinha um bigode mais para campesino do que citadino, uma cabeleira lisa e abundante, perfilava em seu rosto afilado uma barba prematura, ressaltando suas bochechas de cor de cidra e seu nariz de águia. Seus olhos eram únicos: grandes, profundíssimos e permanentemente abertos, como que cravados em algo invisível. Em seu olhar ardiam em enigmática mescla de gênio, a fina malícia, a cordialidade e a ternura.
Nas tertúlias, ficava em silêncio, com sua atitude distraída e, de repente, ao contrário, a fonte inesgotável de sua palavra e a declamação cálida de seus versos.
Otimista por natureza, transbordante de humanidade, sua palavra era consolo e esperança, seu sagaz sentido de humor enfeitiçava e provocava sorrisos até nos corações mais tristes. Daí sua férrea vontade de transmitir humor à literatura, apagar o fatalismo e apatia, que estavam na moda, e devolver a inocência e a saudável alegria à palavra mexicana.
Nervo não foi poupado das criticas. Havia quem dissesse que ele não era um grande escritor, pois fugia das fórmulas que poderiam levá-lo à opulência verbal. Sim, é verdade que sua prosa está dividida em uma imensa quantidade de textos breves e aparentemente é fragmentada e efêmera, mas por trás vislumbra-se uma trama arquitetônica. Sua obra alcança dimensões de solidez imprevisíveis, onde a palavra do escritor, do poeta, do critico, do ensaísta e do romancista era o espelho da evolução do filósofo e do místico.
Jamais pretendeu ser um erudito, se bem que repudiava a tendência da época em escrever pesados manuais. É preciso ter originalidade, mas que venha da sinceridade do coração, do fundo de nós mesmos. Sejamos como a Natureza. Já viu-se originalidade maior que a dela? Sempre diferente, porém sempre a mesma.
Pensava que tudo já estava escrito, aquele que pretendia dizer algo novo não havia parado para ler os clássicos. O que podemos fazer é dar nova vida às velhas idéias de sempre. Como afirmou em um de seus poemas:
(….) Falemos como os Deuses, que sempre falam o mesmo,
Mas ao dizer amor, dor, morte, digamos com verdade.
Com amor, dorers e com morte!
Em seu país, e nos anos em que os livros tinham pouca procura, Amado escreveu pequenos artigos, principalmente para jornais e revistas. Se o fez para garantir sua sobrevivência, uma vez que vivia do que escrevia, um motivo superior intelectual o levou a isso: o desejo de atingir a sobriedade, a síntese, à concreção.
Nunca insistiu no malabarismo da época, nem se vangloriou de um estilo deslumbrador, o segredo de sua escrita estava no outro extremo: o da discreta elegância, dizer o que devia ser dito, sem usar de palavras inúteis para comunicar o que é necessário, a palavra justa.
Utilizou sua pena, seu coração e sua obra no desenvolvimento da cultura de seu país e da América. Nossa cultura, filha iluminada da Grécia e de Roma, sempre venceu com cantos. O canto suaviza a alma e anima o esforço unânime.
Não se detinha tampouco na hora de criticar as falhas de sua sociedade, inimigo da demagogia, da hipocrisia e das classes acomodadas enquanto seu povo estava faminto de uma verdadeira cultura que lhes ensinasse a pensar por si mesmo, propunha uma formação filosófica, civil e moral, que ensinasse aos jovens que trabalhar arduamente para construir um país é como o óleo que aos pouco vai nos ungindo para a eternidade, nos faz flexíveis, maleáveis e fortes.
Um dos seus mais belos sonhos era que as montanhas e os vales do México se enchessem de “colméias”, ou seja, de escolas onde os índios da montanha estudassem e trabalhassem (e seu canto fosse como o zumbido das abelhas quando trabalham). Nervo sonhou essa escola da montanha como o berço de um México consciente, forte, bom, tranqüilo, altivo e feliz.
Poucos foram os escritores e poucos foram os poetas que tiveram a humildade e a coragem de dedicar sua obra às crianças e às pessoas ignorantes para ser entendido, diminuindo a distancia de suas idéias, fragmentando seu pensamento, sem deixar de ser um grande homem.
Para isso dedicou muitas de suas obras às crianças, entre elas os Cantos escolares, histórias infantis, escreveu vários artigos buscando estimular a literatura infantil, pois considerava a criança um órfão no campo das artes, ainda mais quando de sua educação dependia o futuro do mundo.
Nunca confiou nos sistemas e nem no governo, ele acreditava no homem e na responsabilidade histórica que obriga a cada um melhorar, ainda que seja um átomo, a herança cultural que recebemos do mundo, através do crescimento individual, por contágio, que se expande com o exemplo e bloqueia o egoísmo e a indiferença.
Cada homem tem sua função, é uma peça única e necessária para completar esse maravilhoso e divino enigma que é a humanidade divina e fraterna. Feliz o homem que durante sua breve estada na terra procurou cada dia de sua vida ser bom e melhor do que no dia anterior. Daí o poder de convicção e transmissão que possuía sua humana e sincera palavra, pois tamanho era seu entusiasmo e vivência que ia dos ossos até as estrelas, que continua tocando a alma de quem lê seus profundos versos e sua prosa, frutos de um pensamento claro e sincero.
NA EUROPA
Em 1900, reconhecido por suas inúmeras obras, seus Fogos fátuos, Semblantes Íntimos, crônicas de teatro e até mesmo uma ópera, recebeu a proposta para viajar a Paris em missão jornalística. Lá entra em contato com o coração de uma poderosa corrente de renovação: Goethe, Schiller, Swedenborg, Valle-Inclan, Rubén Darío… Seu amigo Rubén. Sua luta pela revitalização da cultura latina americana fez nascer uma admiração mútua entre eles e uma grande amizade.
Darío era um dos poucos que conhecia a situação de miséria que Nervo vivia em Paris. Não tinha como acender o fogo no cubículo onde vivia, para viver traduzia livros em francês durante noites inteiras. Mesmo quando estava doente, nunca perdeu o ânimo e o espírito de luta. Continuava redigindo inúmeros artigos para os meios de comunicação do México, Buenos Aires, Cuba… Quantas tarde passou percorrendo livrarias em buscas de matérias inacessíveis em seu país para enviar a seus companheiros recomendando a leitura. Sempre acessível, respondia todas as cartas que recebia de escritores novatos solicitando um conselho, uma critica, a tudo respondia com uma palavra de encorajamento, uma recomendação a algum editor, uma crítica que os incentivasse a desenvolver sua criatividade literária. Assim dividia seu tempo entre a literatura e a investigação.
Um homem forte e saudável espiritualmente será forte e saudável diante de qualquer circunstância que a vida lhe presente. Assim, usando o exemplo sua amiga a aranha, pequena protagonista de seu livro autobiográfico Os Balcões, tenaz, esforçada, serena e persistente, foi esclarecendo seu pensamento para evocá-lo ao mundo.
RETORNO AO MÉXICO
Sua situação em Paris foi se agravando, já não recebia nenhum tipo de subsídio do México para continuar o trabalho iniciado. Diante da proposta de voltar ao seu país deixando o trabalho pela metade, decidiu cumprir sua palavra ainda que tivesse que se agarrar ao inacessível. Quem sabe repetiu a si mesmo essas palavras com tanta força que a gravou em nossos corações.
Não te resignes antes da perda definitiva, irrevogavelmente a batalha que travas. Lute erguido (…)
(…) sabes se o instante em que já fatigado desesperas não é justamente aquele que antecede a realização de teu ideal?
Uma fé vencedora de todas as adversidades, na sabedoria da natureza, foi a roca que fiou seu próprio destino.
Jamais exclames: Injustiças da sorte! Deus não tem porque intervir nas sanções dos atos. Cada atitude trás em si o germe do prêmio e do castigo, como em cada semente está a planta. O que acontece é o que deve acontecer, o Universo não esmaga sem motivo uma pequena formigas. A vida, como a terra, nunca fica com nada de ninguém!
Com isso nos faz lembrar do íntimo e belíssimo livro dedicado a sua Amada Imóvel. Numa noite de agosto, em que o tédio parecia encher o ar abafado do seu quartinho, sai caminhando por seus queridos jardins parisienses e conhece Ana Cecília, o grande amor de sua vida.
Regressando ao México em 1902, Nervo criticou duramente, mas propôs alternativas construtivas, a praga do utilitarismo que havia varrido a bruma azul dos sonhos e se apoderado das atitudes e aspirações dos homens, adormecendo os grandes ideais da História. Sua maior preocupação era o individuo, o órfão triste e melancólico mergulhado na ignorância e na busca do efêmero, não chegará nunca a nada.
As teorias políticas levam ilusões, as velhas religiões haviam perdido o dom de universalizar, tinha que buscar o profundo, a alma do ser. Todas as coisas têm uma alma, mas para ouvi-la temos que aproximar o ouvido no imenso peito da terra, ouviremos centenas de milhares de pulsações de centenas de milhares de corações. O Universo inteiro está vivo!
A batalha do Modernismo literário foi descobrir novas palavras, novas idéias que permitissem decifrar o pulsar da alma universal, sua música, ritmo e cor. Esses anos no México foram de grandes criações artísticas. A Lira Heróica, O Êxodo, As Flores do caminho e seu mais precioso livro dedicado a Soror Juana de Asbaje.
Juntamente com Jesus Valenzuela realizou um velho sonho: dirigir A Revista Moderna do México, onde pode impulsionar sua criatividade literária. Obteve a cátedra de espanhol na Escola Nacional Preparatória e foi nomeado Inspetor de Educação Literária, cargo que lhe possibilitou influenciar na educação de seu país e na defesa da pureza da Língua Espanhola.
Em 1905 foi convidado pela Diplomacia para exercer o cargo de 2º Secretário da Missão Diplomática do México, na Espanha.
EM MADRI
Era o diplomata perfeito, sério e íntegro nas rotinas administrativas, profundamente social e imbuído da discrição com a indumentária oficial.
De Madri viajou por toda a Europa encantando-se com cada cidade, seu povo, suas paisagens e arte. Daí suas belíssimas crônicas de viagens.
Foi um assíduo visitante do Ateneu madrileno, onde assomou sua brilhante capacidade oratória em conferências, cujos temas causavam admiração quer no campo de astronomia ou da vida em outros planetas.
Sem a noite, o homem nada pensaria nada saberia. Durante o dia vemos o nosso pai Sol, mas a noite nos mostra os milhares de sóis que iluminam os milhares de mundos. É triste que esse enxame de brilhantes gire sobre nossa testa sem que nos elevemos para ele. Daí vem todos os males, pois não olhamos as estrelas!
Agora seus versos carecem de procedimentos, os constrói quase sem vida, enfeitados com sutis semelhanças de sons, querendo inclusive fugir da rima.
Não há música… mas algo melhor do que o antigo sortilégio:
o amor, o amor por tudo, por todos.
Por ver se há uma dor, uma negritude que possa iluminar com a luz das estrelas.
Com a morte de sua amada recebeu o mais duro golpe de sua vida. O esoterismo e a filosofia oriental influenciaram seu pensamento e sua obra: carma, reencarnação, unidade universal, em versos profundos, belos, impregnados de vontade de encravar-se no mais fundo de nosso ser.
A dor é uma divina alquimista, sim, nos sacode com suas garras, sem exceção nos eleva e quando nos solta já não vemos o pequeno, mas grande.
Em 1914 o México corta vínculos externos devido à Revolução e novamente a caneta é seu único meio de sobrevivência. A corte espanhola lhe concede uma pensão anual, por sua precária situação econômica, ele amavelmente, recusa-se a aceitar.
Mais uma vez a situação no México se estabiliza, a Diplomacia volta a procurá-lo e aos 48 anos, com a saúde bastante debilitada, acostumado a uma vida mais reclusa retorna para a América depois de 13 anos. Começa uma vida agitada, celebrações em sua honra, festas beneficentes e conferências.
Na primavera de 1919 despede-se de seus amigos mais próximos e parte para Montevidéu em missão diplomática. Em 24 de maio desse mesmo ano faleceu, em novembro, partiu do Uruguai uma fragata transladando os restos mortais do poeta para o México, a ela foram unindo-se fragatas de todos os países cujos mares cruzavam: Brasil, Venezuela, Argentina, Cuba, e entre um coro de trezentas mil almas o levaram à Rotonda de Los Hombres Ilustres.
Todos os países trouxeram suas bandeiras, suas armadas navais e da terra suas marchas triunfais renderam homenagem de despedida a Amado Nervo, na Universidade do México.

PENSAMENTO ESTÓICO
A afinidade com o Estoicismo romano marcou determinantemente seu estilo de vida: austero, às vezes, porque se via obrigado a isso e outras por opção, sob um firme e esforçado propósito de superação. Temos que Viver, não passar pela Vida. Viver é olhar, observar tudo de dentro para fora, sobretudo internamente, e descobrir a natureza de nossa alma.
A vida é lançar a pedra, o buraco, a besta, o homem, que nos detêm o passo, e se algo nos vence e caímos, cair mil vezes, levantar-se mil vezes e continuar andando, é a coisa mais linda que regozija o Universo (…), encanta a alma com alegria de vencer a cada instante e de sentir-se dono de si mesmo.
A MULHER
A mulher carrega, ainda que não saiba, o amor que une e nutre, a beleza que suaviza e enaltece a vida, a sabedoria que orienta e dá sentido a tudo o que fazemos.
O provérbio persa diz: Não batas na mulher nem com uma pétala de rosa.
Eu te digo mais: Não batas nela nem com pensamento.
A MORTE
Não temas a morte, a morte não existe, é uma ilusão, a última ilusão desta vida. Nada do que é natural pode amedrontar-nos, pois tudo o que vive em pleno contato com a Natureza morre numa aprazível serenidade.
O medo da morte não é natural, é imposto por um aparato de falsos castigos subseqüentes, de dor eterna e escuridão infinita, mas é mentira, pois quem sabe já não a teme.
Rodeado por seus amigos íntimos, esperando a morte, pediu com sua cortesia habitual que lhe abrissem a janela para ver o sol, depois agradeceu a todos e morreu em paz com a vida e com a morte.

Bibliografia
Amado Nervo. Obras completas. Edições de Francisco González Guerrero e Alonso Méndez Plancarte.
Tránsito de Amado Nervo. Alfonso Reyes 1914-1929. México.
Amado Nervo. Homenaje a la memoria del poeta organizado por la Universidad Nacional 1919. México.
Rubén Darío y la búsqueda romántica de la unidad. Longins Frade, Catty. Fondo Cultura Económica.
Elevación. Amado Nervo. Introducción de Calixto Oyuela. Ed. Espasa Calpe, 1973.