Bem vindo(a)! Você pode filtrar informações específicas da sede mais próxima de você, através da caixa à direita:

ÁRIES

Categoria:

Áries é a primeira constelação zodiacal, mas, apesar de sua relevância mitológica, esta figura, situada a oeste de Touro, não se distingue muito bem, com exceção de um grupo de três estrelas muito próximas que formam a cabeça do carneiro.
Áries teve um status muito elevado no período formativo da astronomia grega, porque marcava o ponto equinocial de março, 2000 anos atrás. O poeta romano Manílio (século I d.C) a proclamou “príncipe de todos os signos”. O povo assírio sacrificava um carneiro em honra ao equinócio, conhecia a constelação com o nome de “altar” e “sacrifício”. Arato disse o seguinte:
Ali estão também os vertiginosos caminhos do Carneiro, que, lançando-se através de círculos enormes, não corre mais lento que a Ursa Menor. É tênue e escura ao olhá-la com a lua, mas, apesar disso, poderia descobri-la graças à cintura de Andrômeda; pois está fixa um pouco abaixo dela e pisa na metade do céu imenso, precisamente onde giram as pontas das Pinças e o Cinturão de Órion (1).
A referência à velocidade com que corre a constelação é devida a que tanto a Ursa Menor como Áries percorrem toda a abóbada celeste em 24 horas, mas o recorrer dessa última é mais externo e, portanto, maior. Arato não menciona nenhum mito associado a esta constelação, feito que pode revelar que sua origem não é grega, e sim, da mesopotâmia. A primeira referência ao mito clássico dessa constelação aparece com Eratóstenes:
Foi o Carneiro que transportou Frixo e Hele. Tratava-se de um animal Imortal, presenteado às crianças por sua mãe, Néfele. Segundo narram tanto Hesíodo como Ferécides, sua lã era de ouro. Quando os levava pelos ares, deixou cair Hele sobre a zona mais estreita do mar, que recebeu dela o nome de Helesponto, no momento em que caiu um de seus chifres. O deus Poseidon salvou a jovem e se uniu a ela, e teve um filho chamado Peon. O carneiro, por sua vez, transportou a salvo Frixo até o Ponto Euxino, a casa de Aetes, a quem presenteou o velo de ouro como recordação. O carneiro ascendeu assim ao céu, e por isso é uma constelação de brilho tênue (2).
Eratóstenes relaciona esta constelação com o mito do velo de ouro. Segundo a narração de poetas como Píndaro, Eurípides ou Apolônio de Rodas, Frixo (Frixoz) era filho de Atamante e de Néfele. A segunda esposa de Atamante, Ino, quis sacrificar Frixo e Hele (Ellh) em honra de Zeus e tramou um plano malvado para causar a morte de Frixo. Foi, sem que ninguém a percebesse, aos depósitos de grãos de trigo para a semeadura de primavera, e os queimou. A colheita seguinte foi ruim, e, para encontrar remédio para a situação, enviou um mensageiro para consultar o oráculo de Delfos, que foi subornado por Ino, e voltou dizendo que o oráculo requeria o sacrifício do jovem príncipe para que o grão voltasse a crescer. Frixo já estava convenientemente preparado para o sacrifício, mas Hermes, ouvindo os pedidos desesperados de Néfele, interveio e enviou um carneiro maravilhoso com um velo de ouro para levar as crianças do altar. Quando o animal cruzava o estreito que separa a Europa da Ásia, Hele caiu no mar. Desde então este estreito recebe o nome de Helesponto (“o mar de Hele”), em sua memória.
Como dizíamos, o carneiro levou Frixo ao país fabuloso da Cólquida, “a leste do sol e da lua”, ou situado no Mar Negro, segundo outras versões. Ali reinava Aetes (Aihthz), filho do Sol e da Oceânide Perse, irmão de Circe, Pasifae e Perses. Estava casado com a Oceânide Idía. Após chegar Frixo no carneiro do velo de ouro, Aetes o casou com sua filha, Calcíope. Como mostra de gratidão, Frixo sacrificou o carneiro em honra a Zeus e presenteou o velo de ouro ao rei Aetes. Aetes guardou o velo dentro de uma caverna sagrada do deus Ares, custodiada por um dragão filho de Tifon. Sua valiosíssima pele foi considerada uma garantia de prosperidade e poder. A partir daqui se relaciona a história de Frixo e Aetes com a dos Argonautas, os quais, com Jasão à frente, chegaram à Cólquida em busca do tão fabuloso tesouro. Aetes prometeu entregar o velo a Jasão se superasse as provas. Uma vez superadas, o rei se negou a cumprir sua palavra, assim decidiu levá-lo com a ajuda da filha de Aetes, Medéia. Uma vez na Grécia, Jasão traiu Medéia, com quem tinha se casado, e ela se vingou, matando os filhos de ambos.
Segundo outros autores, a origem dessa constelação poderia ser egípcia. Em torno de 1500 a.C., na XVIII Dinastia, um deus conhecido como Imn (“o oculto”), é representado como um ganso, ainda que seu animal totêmico fosse o carneiro. Desta forma se confunde com o deus Amon Ra, representado com cabeça de carneiro, que alcança a maior importância nesta época, no inicio do ano (o equinócio de primavera), em que esta constelação aparece ao nascer do sol.
Na Mesopotâmia era conhecida como Lú-hun-ga, o Lavrador, representando o deus Dumuzi. Dumuzi (Tammuz para os semitas) era o deus sumério da fertilidade e vegetação, esposo de Inanna (Ishtar). Este deus é protagonista de uma das epopéias sumérias mais famosas: a descida de Inanna aos Infernos, onde se narra como esta deusa desce ao inframundo para resgatar seu amado que havia morrido nas garras de sua irmã Ereshkigal. Finalmente, se consegue um acordo em que o deus permanece, seis meses no mundo dos vivos e seis com os mortos, tempo durante o qual é substituído no inferno pela irmã do deus, Geshtinanna, deusa outonal e do vinho. Esta volta a vida é uma alegoria do renascimento da vegetação. Este mito daria lugar à figura de Adonis na mitologia grega. Como se transformou um agregado em um carneiro é um mistério. Alguns autores sugerem que se deve ao feito incerto de que o deus Dumuzi estava associado a um carneiro, associação esta de origem provavelmente lingüística, pois talvez se trate de uma confusão entre Lú (“nome”) e Lu (“carneiro”)
Simbolicamente, Áries representa o ardor criador do espírito, por ser o início da roda do zodíaco. No símbolo hindu representa Parabrahman, o todo não diferenciado, o raio ou causa inicial que surge do Akasha de Peixes, o reino das águas primordiais. Também se relaciona com a aurora, a primavera, o começo de qualquer ciclo, processo ou criação.
Nota: Não queremos prescindir do estudo completo realizado pelo autor, mas, por razões de espaço, publicaremos cada mês a análise da constelação zodiacal a que corresponda.
Juan Carlos del Río Álvarez
Notas
1. Fenômenos, 224-233. A Ursa Cinosura é a constelação que hoje conhecemos como a constelação da Ursa Menor.
2. Catasterismo 19. (Em espanhol, a transformação de um animal em constelação. Nota do revisor).