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Chi Kung, o poder da energia

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“O caldeirão deve ter uma base larga e estar colocado em posição vertical. Adiciona-se mercúrio como ingrediente principal. A água que se coloca deve vir de uma fonte limpa. O fogo que aquece os ingredientes deve estar na temperatura correta. O chumbo, produto do desprezo, evapora-se. Os ingredientes ficam ao fogo durante 300 dias. Se tudo correr bem, os ingredientes purificam-se convertendo-se num verdadeiro ouro brilhante é que armazenado na parte inferior do caldeirão para uso posterior” (1).

Anônimo

O Chi Kung é um sistema de exercícios energéticos de origem chinesa. São inúmeras as versões que se conhecem deste sistema que, ao final, pode ser traduzido como uma forma de manejo da energia.

É difícil precisar sua origem por conta de sua grande variedade de estilos e usos, mas forma parte da mentalidade chinesa. Suas idéias primordiais são: o Yin Yang, os cinco movimentos, o Tao, os Três Tesouros, que serão abordados no decorrer desta matéria.

Percebe-se, sobretudo, a presença do Chi Kung na Medicina Chinesa, nas Artes Marciais, nas escolas do Taoísmo, Confucionismo e Budismo. Essas cinco áreas são as principais fontes onde se pode buscar suas características e origens.

Taoísmo

A escola taoísta adota o Chi Kung com o objetivo último de alcançar a imortalidade (Cheng-Shein) através da alquimia interna dos Três Tesouros, a fim de regressar a fonte.

Para alcançar este objetivo, segundo os adeptos do taoísmo, deve-se cultivar a saúde e a longevidade como fundamentos para práticas superiores. Para isso desenvolveram um sistema coordenado chamado de Yang Sheng (cultivar a vida) que inclui dieta, ervas, exercícios, massagem, assim como uma atenção cuidadosa e a harmonização das atividades humanas com os ritmos da Natureza.

Lao Tsé escreveu: esvazie o coração e encha o abdômen. Pode-se entender isso como esvaziar a mente e o coração e inspirar suave e profundamente para que se encha de energia o tan inferior. Esta é uma instrução taoísta básica para Chi Kung.

O clássico do elixir e o clássico da paz são os dois textos sobre Chi Kung taoísta. Na seqüência apresentaremos um resumo do clássico da paz: temos um corpo e este corpo é uma unidade, a unidade, a união do físico e do espiritual. A forma em si mesma está morta; é o espírito que dá a vida física. Quando há harmonia entre a parte física e a espiritual as condições são favoráveis; se não há substância física o espírito parte; se há substância o espírito florescerá. A harmonia constante une o físico e o espiritual. A enfermidade constante causa a separação do físico e do espírito.

Confucionismo

A escola confucionista utiliza o Chi Kung como uma forma de purificar e controlar a mente e as emoções, de tal forma que as pessoas se tornem pessoas melhores na sociedade.

Confúcio dizia: para cultivar o corpo, primeiro devemos purificar a mente, devemos antes eliminar o desejo e cultivar a energia pura da Natureza.

O Chi Kung se converte com os confucionistas em um método que permite ao individuo assumir seu lugar na sociedade, cultivando as virtudes do equilíbrio e a equanimidade.

Concebia-se a sociedade como um microcosmo de ordem universal e ao aprender a obedecer suas leis também se aprendia a obedecer as leis da sociedade. Um estado mental pacífico e ordenado se converte na base de uma sociedade pacífica e ordenada.

Budismo

A escola budista viveu uma profunda transformação com a chegada do monge Tamo (Bodhidharma) ao tempo de Shaolín, que logo se transformou no mais famoso centro de Artes Marciais e de Meditação, dando origem ao budismo Shang e ao Kung Fu. Deste modo, o Chi Kung se transformou na principal e mais importante prática de auto-desenvolvimento físico e espiritual.

A Tamo foram atribuídos dois sucintos livros, que foram mantidos em segredo pelos mestres das Artes Marciais. Estes dois livros se converteram nos pilares de todas as escolas seguidoras do estilo interno (nei chia) de Artes Marciais e provavelmente são os textos de maior influência em toda história do Chi Kung.

O primeiro livro chama-se Yi chin ching (Clássico da transformação dos tendões) e o segundo, mais esotérico, chama-se Hsi sui ching (Clássico da limpeza da medula). Estes dois volumes envolvem tudo que há de exercícios de alongamento e relaxamento básico que preparam o corpo para: a Meditação, a prática das Artes Marciais e as práticas mais avançadas de alquimia interna, que incluem técnicas para transformar a essência em vitalidade espiritual.

A escola budista não desanimava a prática de cuidar do poder pessoal através do trabalho da energia interna, pelo risco que existia de desviar-se do caminho. Cultivava-se a respiração como ponto de concentração no estilo de meditação samatha (quietude) e vipassan (penetração espiritual).

Estas restrições só eram aplicadas aos monges; os leigos observavam uma mistura sincrética com o Taoísmo.

Medicina

Os vestígios mostram que o Chi Kung evoluiu na China com uma forma preventiva e curativa de cuidar da saúde e é na metade do século XX que há um interesse repentino quanto ao Chi Kung nas aplicações médicas.

Esta escola destaca a importância do exercício físico como meio para manter o corpo fortalecido, equilibrado e para estimular o livre fluxo de sangue e energia através de todo sistema. Porém o tipo de exercício é muito diferente da máxima que diz: sem acelerar não há prêmio. O Chin Kung enfatiza os movimentos suaves, lentos e rítmicos, sincronizados com uma profunda respiração diafragmática.

A escola médica adotou numerosas formas de exercícios: o dao yin, o tai chi chuan, massagens de acupressão, etc. Sua particularidade é o pouco uso da mente e a visualização da forma, como fazem os taoistas nos exercícios, considerando a importância da tranqüilidade e do equilíbrio emocional.

No ano de 610 d.C, o imperial professor de Medicina Chao Yuan Fang editou o primeiro livro chinês especializado em patologia, em 50 volumes. Registra 1.270 diferentes tipos de enfermidades, explicando os sintomas, as causas e os princípios terapêuticos de cada uma. A característica extraordinária é que só prescreve como remédio a prática de 400 tipos de exercícios Chi Kung conforme seja a enfermidade. Outro médico sábio foi Sun Si Miao, famoso por ter exposto a terapia Chin Kung dos seis sons curativos.

Basicamente há dois tipos de medicina Chin Kung: preventiva e curativa. Nesta última também existe a modalidade de transmitir energia curativa do mestre curador ao paciente, conhecida em chinês como fa-shi. Atualmente esta técnica é estudada pelos cientistas chineses para tratar doenças terminais, severas e degenerativas.

Arte Marcial

Depois que Tamo ensinou os monges chineses a integrar o exercício físico em suas práticas de meditação, e aos artistas marciais como potencializar suas habilidades físicas pelo cuidado do espírito, as escolas marciais e de meditação do Chin Kung construíram suas práticas sobre a idéia do elixir interno (nei dan), da energia como pedra angular do poder físico e da lucidez espiritual.

Desde os tempos de Tamo, as artes marciais têm seguido o caminho da prática da energia interna, utilizando o espírito para manejar a energia e cuidar das habilidades marciais.

A Escola Marcial tomou emprestado, algumas técnicas da Escola Médica de Chin Kung, por exemplo, os meridianos e os pontos vitais do sistema de energia humana foram cuidadosamente estudados para se aprender como a energia se move pelo corpo. Assim, desenvolveram-se técnicas especificas de luta para incapacitar um rival com o simples fato de atingir-lhe em um ou mais pontos específicos, de forma que o corpo seja paralisado imediatamente.

O Kung Fu contava com 72 artes especializadas, entre elas: sino de ouro, palma de ferro, correr sem pisar na grama, 18 monges, que incorporavam exercícios de Chi Kung em seus treinamentos.

Formas de Chi Kung

Há diversas formas de classificar estes exercícios: uma é a que acabamos de mencionar; outra é dividi-lo em: jing gung ou práticas estáticas, e dung gung ou práticas em movimentos, também como a forma yin yang do Chi Kung.

As formas em movimento são definidas como aquelas que implicam movimentos externos do corpo mediados por uma quietude interna da mente. Os princípios básicos são: rou, a flexibilidade; mou, a lentidão e ho, a suavidade. Seu propósito é manter as partes do corpo soltas, ativas e flexíveis com o propósito de estimular a circulação sanguínea e a energia através do sistema. Tudo está resumido na máxima buscar a quietude dentro do movimento.

As formas estáticas estão definidas pela quietude externa do corpo, combinada com o movimento interno da energia, ou com o buscar o movimento na quietude. O propósito é manter a mente totalmente sincronizada com a respiração.

Desde que Tamo reuniu as tradições marciais e meditativas do Chi Kung, o movimento e a quietude têm partilhado a mesma categoria de importância.

Equilíbrio no Chi Kung

Os sistemas de Chi Kung também podem ser classificados de acordo com a parte do sistema humano que contribui para o equilíbrio.

O equilíbrio do corpo (tiao chen)

Neste Chi Kung o equilíbrio é alcançado mediante exercícios e relaxamento. À medida que o corpo relaxa, o sistema nervoso autônomo ativa-se, equilibrando também o sistema endócrino e estimulando os mecanismos curativos do corpo.

O equilíbrio da respiração (shi de tiao)

Ao equilibrar a respiração por meio de movimentos rítmicos do diafragma, chamada respiração de compressão ou das fossas nasais alternadas, equilibra-se também o sistema energético, o emocional, harmoniza-se as 5 energias elementares dos órgãos, equilibra-se a polaridade yin yang, estimula-se a circulação da energia dos meridianos e sincroniza-se o campo energético do homem com o da Natureza.

O equilíbrio da mente (tiao shen)

Considera controlar as funções cerebrais pós-natais da mente humana adquirida, de forma que possam manifestar-se os poderes pré-natais do espírito primordial.

A chave para conduzir a tensão da mente é a faculdade do espírito primordial conhecida como yi (vontade). Ela é o agente que nos permite exercitar o controle volitivo sobre nosso corpo, respiração e mente.

Todas essas variedades de estilos, formas e escolas reduzem-se basicamente a três categorias de práticas do Chi Kung: Medicina, Meditação e Artes Marciais. O denominador comum é chi, a energia que, como diria Lao Tse, falta som, falta substância, não depende de nada, imutável, onipresente, implacável. Podemos pensar nela como a mãe de todas as coisas abaixo do céu.

O Chi Kung e os Três Tesouros

O Chi Kung está submerso nas concepções que convém à mentalidade chinesa. Uma dessas concepções é o San Bao, os Três Tesouros, que são: shen, chi e jiang (espírito primordial, energia e essência), como réplica microcósmica do universo macrocósmico formado pelos três poderes: tien, rem e ti (Céu, Humanidade e Terra).

O Céu é a fonte do espírito primordial e a consciência universal, essencialmente aberto e vazio, naturalmente radiante e claro. Brinda o espírito humano (Shen) a primordial virtude do Tao, que vigora a mente humana com a capacidade de criar a consciência primordial pura, conhecida como iluminação no Budismo e como imortalidade na tradição taoista.

O clássico da medicina do Imperador Amarelo afirma que o céu foi criado pela acumulação do yang.

A Terra relaciona-se ao mundo material, a fonte das forças naturais, as cinco energias elementares e o local em que ocorrem as transformações cíclicas.

A Terra expressa o poder da vida humana através dos instintos básicos de sobrevivência e dos impulsos primários de procriação e propagação das espécies conhecidas como jiang ou a essência.

A Humanidade ou rem é especificamente o sábio, o santo, o soberano, que diferente do homem comum sintetiza o melhor do céu e da terra, equilibrando e servindo de ponte e emissário da bondade de ambos.

Para alcançar isso, o homem deve fazer em si mesmo o que fará na Natureza, ou seja, harmonizar o Shen (espírito), correspondente ao céu, com o Jiang (essência), correspondente a terra, e o que relaciona a ambos, que é o Chi (respiração, energia), correspondente ao Rem-Humanidade quanto à função.

TIEN SHEN

REN CHI

TI JIANG

Assim chegamos aos Três Tesouros que são o laço triangular que conecta todos os seres humanos com o poder e a sabedoria infinita do Universo e abrange os componentes básicos da Escola do Chi Kung da alquimia interior, nei gung (trabalho interno).

No clássico de Wen Tse, de 2000 anos atrás ensina-se que o corpo é o templo da vida. A energia é à força da vida. O espírito é o governante da vida. Se um deles se desequilibra, os três conseqüentemente ficam danificados.

Antes do nascimento, os Três Tesouros estão agrupados em uma unidade sem fissuras, conhecido com seu aspecto pré-natal. Esta espécie da semente começa a nascer no mesmo instante da concepção diferenciando-se do resto do Universo como uma gota de água que se desprende de uma onda do oceano. Ao nascer, os Três Tesouros separam-se em três manifestações pós-natais, a essência do corpo, a energia da respiração e o espírito da mente, enquanto as raízes pré-natais se conservam como essência em uma profunda reserva, jiang; energia, chi e espírito primordial, Shen. Revisaremos a relação pré e pós-natal dos Três Tesouros:

Jiang ou essência pré-natal é a força primordial criadora do Universo, da qual o homem recebe uma porção a partir da fusão do esperma e do óvulo, que é armazenada nas glândulas sexuais e supra-renais.

Sua condição pós-natal é o corpo; como essência nutritiva e material dos alimentos, a água. Suas formas mais importantes são os fluídos corporais vitais, como: o sangue, os hormônios, os neurotransmissores, o fluído cérebro-espinhal etc. O lugar que corresponde à essência pós-natal é o tan tien inferior.

O chi em sua condição pré-natal é o poder primordial do Universo, sua natureza é a atividade constante e a transformação perpetua, e está estritamente associada à essência pré-natal.

A energia pós-natal se atribuem as cinco energias elementares dos sistemas dos órgãos vitais: a respiração, a fala, o movimento corporal e o metabolismo, além da energia emocional.

Esta energia está centrada no tan tien médio e pode-se controlar mediante métodos equilibrados de respiração Chi Kung.

O shen ou o Espírito primordial, em sua condição pré-natal, é a mente do Tao, que está presente em todo o Universo e dota todo ser sensível da luz original da consciência. Permanece profundamente escondido como uma pedra preciosa na concha temporal da mente humana, sua condição pós-natal.

É como um andarilho inquieto que vai de um lapso vital a outro, alojando-se neste corpo e depois movendo-se a outro sem que jamais o reconheçam seus passageiros anfitriões, até que um dia na vida do homem desperta a sutil presença do espírito primordial em sua mente terrena e o liberta das ilusões. Este aspecto da mente humana é sua condição pré-natal e imortal, e reconhecê-lo significa superar o medo da morte e encontrar a paz interior, último fim do Chi Kung espiritual. O espírito pós-natal reside no tan tien superior.

O objetivo espiritual do Chi Kung ou Alquimia interna (nei gung) é cuidar dos Três Tesouros, com os quais se obtêm saúde e longevidade, condições necessárias para alcançar a imortalidade.

O trabalho da energia

Aqui também nos acompanha a polaridade wai gung, nei gung (trabalho interno e externo).

O trabalho externo abrange os movimentos rítmicos e as posturas equilibradas do corpo projetadas para dirigir e fortalecer a energia conduzida pelos meridianos ou canais.

O que não se vê, porém os participantes sentem, são os aspectos internos denominados com toda a propriedade Alquimia interior.

Na prática, somente o objetivo e a finalidade empregados nesta disciplina podem distinguir se o caminho é interno ou externo.

O Mestre taoista Chao Pin-Chen, escreveu: no campo de elixir inferior (tan tien inferior), por baixo do umbigo, é onde a força gerativa (essência) sublima-se em vitalidade (energia); o campo médio do elixir (tan tien médio), no plexo solar é onde se sublima a vitalidade em espírito; no campo superior do elixir (tan tien superior), no cérebro é onde o espírito sublima-se para elevar-se em direção ao espaço.

A força gerativa (essência) transforma-se em vitalidade (energia) quando o corpo está quieto; a vitalidade converte-se em espírito quando o coração está sereno, e o espírito volta ao vazio devido a mente ou a pensamento imutável.

Este é o fundamento do Chi Kung. Por meio da respiração, seu exercício e domínio, iniciamos o cuidado dos Três Tesouros, mas não podemos isolar ou excluir a totalidade. Além deste aspecto trino e da dualidade, a Unidade, o Todo coerente é muito importante.

A prática do Chi Kung envolve toda a personalidade, a postura, o corpo, a respiração, o ritmo energético; a atitude que se descreve com o sorriso interior, seu aspecto emocional e, com a concentração e visualização, a parte mental.

Há dois ciclos que originam a prática e são conhecidos como o ciclo da nutrição e do controle. O ciclo da nutrição é o ciclo yin (yin interior nutre o yang), e o ciclo do controle é o yang (yang superior controla o yin).

Através da respiração, a essência vital dos hormônios, em especial as secreções sexuais, transformam-se em energia. Esta energia é impulsionada até o tan tien superior, onde se transforma e se refina em energia espiritual. Mas para obtê-la é necessário conectar a mente e harmonizar a respiração. Ao conseguir isso se atinge um equilíbrio adequado da essência (hormonal, neurotransmissor etc) que sustentará à energia.

É tudo ao mesmo tempo, pois os ciclos da nutrição e do controle são contínuos, e são aumentados até atingir o requinte máximo, que é a condição para restabelecer a unidade primordial dos Três Poderes e devolvê-los à fonte universal, a imortalidade, como uma gota de água para um mar brilhante.

Estas anotações resumidas sobre o Chi Kung darão ao praticante os fundamentos da respiração e o contexto e alcance desses exercícios, que vão desde o fortalecimento físico, até o desenvolvimento dos níveis energéticos e sua relação com a meditação nas Artes Marciais.

Ficará para desenvolver em detalhes os aspectos fisiológicos, sobre os quais há muitos estudos, a dinâmica do Chi através dos meridianos, baseada na teoria da acupuntura e a relação com a concentração, visualização e meditação.

Significado dos termos do fragmento anônimo da introdução

Caldeirão Adepto/seguidor

Mercúrio Energia cósmica benéfica

Fonte Limpa Energia intrínseca dos rins

Fogo Energia intrínseca do coração

Temperatura correta Respiração suave e rítmica

Chumbo Energia indesejável que se elimina do corpo

A prática da respiração faz circular pelos meridianos a energia num fluxo continuo chamado circulação microcósmica e que se mantém durante 300 voltas.

A energia acumula-se no tan tien inferior e assim gerada, formará a pérola de ouro pronta para usar na prática da santidade.

Bibliografía

– Livro do Chi Kung, Daniel Reid.

– O Tao do bem-estar e da vida longa, Da Liu.

– Chi Kung, Camisa de Ferro, Mantak Chia.

– A Arte do Chi Kung, Wong Kiew Kit.

Daniel Salinas Larenas

Buscar a Arte – Venus e Adonis
Tiziano

Museu do Prado

A cena que Tiziano nos apresenta é numa primeira leitura, a

plasmação de um tema mitológico extraído das Metamorfoses de

Ovídio: o belo Adônis é amado por Perséfone e por Vênus; a deusa se vinga por seus desprezos, fazendo-lhe morrer numa caçada devido a feridas que lhe inflige um javali. No quadro ele vai partir a essa caçada, com seus cães, arrancando-se dos braços de Vênus.

Entretanto há uma outra interpretação, mais histórica e pior intencionada. O quadro é encomendado pelo então príncipe Felipe, filho de Carlos I da Espanha, em 1553, pelo motivo de sua boda com sua tia Maria Tudor, e o recebeu em Londres. Se compararmos fotos de Felipe II jovem, ainda sem barba, veremos a extraordinária semelhança que tem com o Adônis do quadro. Estaríamos, portanto, na presença de uma sutil e certeira zombaria política: o jovem príncipe perseguido pela sua incansável tia. Tudo isso sob os presságios do poderoso deus que desponta dos céus, isto é, do quase tão poderoso imperador Carlos.

Tecnicamente, o quadro se resume em uma diagonal formada pelos corpos dos protagonistas, cuja cor dá o tom geral da paleta. À direita fica a matéria, os cães, que se desentendem com os humanos porque o que representam, essa matéria, não vai por enquanto entrar em ação.

Na esquina da esquerda está Cupido. Mas, tal como a matéria, o amor tampouco tem algo a fazer. Dorme tranqüilo entre os galhos da árvore, e deixou o carcaj das suas flechas pendurado no alto, com o arco, porque não vai ter que usá-lo.

Felipe e Maria não têm que se apaixonar, como Apolo não se apaixonou por Vênus, porque não havia amor. É apenas um interesse político que deve ser resolvido.

Aos pés de Vênus, uma cratera inclinada: não há vinho para brindar, não há nada pelo que brindar. Não há ponto de fuga, a cena é de certo modo plana, não necessitamos ver a saída para nenhum lugar.

Estamos nela, imersos no drama do amor e do ódio, eterno leito emotivo do universo.

A paleta, fria, sem mais concessão que o vermelho escuro aos tons ocres e neutros. Até o azul do céu é apagado. Como apagado está o coração de Felipe, do Adônis que se encaminha à morte.

Guiomar

Humberstone. A febre do ouro branco
Esplendor e queda da mineração do nitrato no deserto do Chile

Camisa emprestada, gravata de humita e um magnífico traje negro feito a medida. Luvas brancas, chapéu de feltro, sapatos de verniz e um relógio de prata cuja corrente cruzava o peito sobre o elegante chale. Ainda olhando-se ao espelho de cima para baixo, Lautaro Baldesani no podia acreditar que aquele personagem com pinta de senhor da cabeça aos pés fosse o mesmo. Acabava de se incorporar a uma das companhias

salitreiras mais importantes do norte pampino, e logo depois de chegar, a mesma empresa lhe havia proporcionado aquele terno tão apropriado para a classe que deveria ocupar dentro da comunidade.

Lautaro olhou ao seu redor contemplando todas as comodidades de sua pequena dependência de empregado solteiro. Fechou a torneira de água corrente depois de umedecer com o pente o fixador de cabelo pela última vez, iniciando una rotina que se repetiria todas as tardes durante a maior parte de sua vida. Ao sair, girou o interruptor da luz elétrica e se sentiu contente ao comprovar que todas aquelas maravilhas podiam se fazer realidades no meio de condições tão duras.

No exterior, o sol começava a se esconder atrás do horizonte, banhando-o todo de uma cor alaranjada que apenas se pode contemplar no deserto e, os trabalhadores voltavam às suas casas depois de ter cumprido com a quota de caliche que tinham assinalado. Durante todo o dia brandiram maças de aço de doze quilos sob um sol de justiça, e agora reporiam forças na cantina onde lhes proporcionariam três pratos servidos até a borda, nos quais não faltariam guisado de vacuno, os legumes e os assados, coroados por um jarro de ossos com milho e uma grande xícara de café. O esforço daqueles homens construía a prosperidade da pátria, extraindo das entranhas o salgado el caliche que “A Máquina” transformaria depois em valioso nitrato de sódio. O nitrato era símbolo da riqueza e do poder do Chile, um patrimônio exclusivo que desde quase um século era transportado diariamente até o porto de Iquique para ser exportado e garantir assim os campos do mundo inteiro. Vendo-nos passar com suas carretas de mulas, suas picaretas e suas maças, Lautaro pensou na dureza da vida desses homens que, como ele, chegavam ao norte de todos os lados buscando riqueza, e se alegrou intimamente de ter alcançado sua recém estreada posição social: empregado de escritório.

Na realidade não seria mais do que um simples funcionário num escritório da Administração, mas esse por si só já era um posto invejável, e além do mais não tinha que ser sempre assim. Talvez com os anos prosperasse ainda mais, e chegasse a ganhar o suficiente para aspirar casar com uma moça de boa família. Enquanto desfrutava das vantagens que a sua situação lhe proporcionava, uma delas: jantar todas as noites no salão do hotel na companhia do administrador, um privilégio restrito aos chefes, autoridades medianas e empregados de escritório como ele, mesmo que a sua condição de recém chegado o deixasse no canto mais longe da mesa. Antes do jantar, conviveria com o melhor daquela próspera comunidade. Jogaria bilhar com os rapazes, leria os jornais de Iquique no bar bebendo cerveja gelada, ou se sentaria para conversar na borda da piscina fumando cigarros ingleses, enquanto desde la pérgola se filtrariam os acordes da música do baile, enchendo de vida e diversão a vasta solidão daquele deserto interminável.

Lautaro andou pela rua deixando para atrás os cômodos dos empregados solteiros e a escola, enquanto sonhava com um futuro promissor. Seguro de seu porte elegante, passou diante da igreja e do mercado de abastecimento, e cruzou altivo praça florida e iluminada de luminárias elétricas daquela pequena cidade artificial tão ativa e agitada.

Enquanto seus filhos brincavam nos balanços e calesitas especialmente instalados para eles, os habitantes de Humberstone passeavam pelos suportes da pulpería com curiosidade pelos postos de informações de rotas, ostentando suas melhores roupas e desfrutando do ar fresco de cada tarde. Ou se informavam no teatro sobre quais famosas estrelas chagariam de Santiago ou até mesmo da Europa até aquele canto perdido do mundo para deleitá-los.

Ao entrar no salão do hotel, com a sua música e sua alegria, Lautaro não pode reprimir um gesto de admiração diante do que parecia um milagre no meio daquela terra, a mais seca e árida do planeta, e pensou que o engenho e a ciência do homem podem converter em realidade os sonhos mais duvidosos.

Lautaro estava muito longe de imaginar que a quinze mil quilômetros de distância a Grande Guerra da Europa e o engenho e a ciência dos físicos alemães destruíram para sempre o mundo de ensoñaciones.

A febre do nitrato de Chile

Quando começou a exploração do salitre em 1810, o imenso deserto de Atacama que abarca as províncias de Arica, Iquique e Antofagasta, aind anão formava parte do norte do Chile como é atualmente. Naqueles tempos, estas províncias praticamente desabitadas eram parte da Bolívia e Peru, a extração de salitre não tinha outro destino do que a fabricação de pólvora.

Não passados nem vinte anos depois, foi realizado emIquique o primeiro embarque de nitrato de sódio à Europa e Estados Unidos com finalidades agrícolas. Então começou um acelerado processo de crescimento dessa indústria que a levaria desde as setenta e três mil toneladas métricas de extração em 1840, a milhões de toneladas no começo do século, e à máxima produção de três milhões em 1917, chegando a gerar cinqüenta e um por cento das exportações do Chile.

Terrenos de salitre existem em todo o deserto de Atacama, desde Zapiga ao norte até Altamira ao sul, findando com a III Região. Os salitrais se formam pela evaporação das águas subterrâneas filtradas desde a cordilheira andina, que vão depositando sua salinidade na superfície do terreno na forma de uma capa acinzentada, grossa e dura chamada caliche, que contém grandes concentrações de nitrato de sódio. Os salitrales não são paños contínuos, mas áreas específicas próximas aos serros, que durante a sua exploração se designaram com o nome de cantões. Cada cantão tinhas várias oficinas salitreiras que combinavam, num mesmo espaço, as instalações industriais para o processamento do caliche e as casas dos empregados, com todos os recursos necessários para satisfazer suas necessidades e das suas famílias. Humberstone, Santa Laura, Carmen Alto, Peña Chica, Baquedano, Keryma, Mapocho, Edwards, Anita, Araucana, Curicó, Abra, Concepción, e um número muito grande de oficinas que seria impossível enumerar, algumas das quais, as mais importantes, chegaram a derivar, com o decorrer dos anos, em autênticas cidades. Cidades localizadas no meio do nada, e onde todos os seus habitantes estavam direta ou indiretamente dedicados à exploração do caliche.

No início, caliche era moído a batidas para dissolver na água que esquentada por fogo direto e que depois era exposta ao sol em bateas de ristalización. Este sistema rudimentar apenas servia para processar o caliche de alta qualidade com um cinqüenta ou sessenta por cento de concentração de nitrato. E quando o caliche dessa qualidade acabava, a oficina e os caldeirões se trasladavam para outra parada para iniciar novamente o processo. As oficinas estáveis surgiram apartir de 1853, quando o sistema de exploração evoluiu consideravelmente graças a Pedro Gamboni, um engenhoso trabalhador nascido en Valparaíso que nesta data patenteou um sistema de dissolução do salitre a fogo indireto en bateas esquentadas por vapor. A oficina Sebastopol é a primeira em aplicar este invento que permite usar caliches com qualidade de até trinta por cento de salitre. A instalação de moinhos e de feitorias complexas para o processamento facilitou a criação de oficinas estáveis em torno das quais começaram a se instalar os operários com as suas famílias. Também deu origem a uma das características mais emblemáticas de una oficina salitreira: as tortas de ripio, ou seja, os gigantescos escombros nos quais se acumularam durante anos os resíduos da produção de nitrato. Chegou-se a dizer que, de fato, uma oficina era tão importante quanto o tamanho de sua torta.

Essa não foi a única criação de Pedro Gamboni. Após dez anos de ensaios, patenteou em 1866 o sistema de extração de iodo de das águas mães do caliche e, obteve dos governos do Peru e da Bolívia uma concessão exclusiva por dez anos de extração que o converteram em um multimilionário, tornando realidade o sonho de fama e fortuna que encorajava os que se aventuravam nas terras do ouro branco.

Em 1875 chega em Pisagua outro dos grandes personagens do caliche: Santiago Humberstone. Nascido em Dover em 1850, engenheiro químico formado na Inglaterra, desenvolve as bases de um novo processo de dissolução do salitre denominado Sistema Shanks, que instala na oficina de Água Santa em 1878. Através deste procedimento, consegue aproveitar caliches com quantidade de ouro ou prata de até treze por cento, evitando enormes perdas em ripios. O Sistema Shanks e suas sucessivas melhoras foi logo muito utilizado por todos os industriais do salitre, e esteve em plena vigência até o desmantelamento das oficinas em 1945. Considerado por todos “o pai do salitre”, Santiago Humberstone morreu em junho de 1939 com oitenta e nove anos, dos quais sessenta e quatro foram dedicados à produção de nitrato de sódio. Em 1934 a Companhia Salitreira de Tarapacá rebatizou com o seu nome uma de suas oficinas mais importantes, a até então conhecida oficina La Palma, que desde este momento passaria a se chamar em sua homenagem de oficina Humberstone.

Em 1879, o Chile declara guerra ao Peru. Pouco antes, tropas chilenas haviam recuperado todo o território até o rio Loa, ocupado cinqüenta anos atrás pela Bolívia. Havia iniciado a guerra do Pacífico. Na ocasião a indústria calichera já era um gigantesco empório que mantinha milhares de trabalhadores, com toda uma infra-estrutura de oficinas, feitorias e redes de ferrovias privadas que substituíram as carretas no transporte do nitrato até os portos de Iquique e Piságua, convertidas já em duas importantes cidades costeiras.

Então, aparece em cena o conhecido como “o rei do nitrato”. Trata-se de John T. North, um inglês muito esperto que chegou ao Chile em 1866 contratado como técnico mecânico para preparar uma equipe ferroviária em Carrizal Bajo e logo depois em Caldera. Alguns anos mais tarde enriqueceu nos negócios, fundando em Iquique a Companhia de Água, com barcos cisterna que atraiam a água desde Arica um condensador de água do mar. Porém foi durante a guerra do Pacífico que se aproveitou para enriquecer ainda mais. Em 1875 o governo do Peru expropriou as salitreiras de Tarapacá pagando com Certificados Salitreiros. Em plena guerra, esses Certificados caem a dez por cento do seu valor, e John T. North aproveita essa chance para adquiri-los por um baixo preço e com dinheiro emprestado pelo Banco de Valparaíso, contribuindo ativamente com as sociedades formadas em Londres. Chile saiu vitorioso na guerra que terminou em 1880, e anexa as ricas províncias salitreiras até a cidade de Arica, última a ser tomada pelo exército. Após discussão, o governo chileno devolve as salitreiras expropriadas aos proprietários de Certificados, mas para North isso se fez com as oficinas Primitiva, Peruana, Ramírez, Bom Retiro, Jazpampa e Virginia. Em 1882 volta à Londres, onde cria um império econômico gigantesco que controla direta ou indiretamente quinze companhias salitreiras, quatro empresas ferroviárias, a Companhia de Água de Iquique que fornece água de Iquique até Pica, o Banco de Tarapacá e a empresa de distribuição de alimentos e importações de Tarapacá e Antofagasta. No final do século, as companhias inglesas controlam sessenta por cento da indústria de salitre no Chile.

A decadência começou com a Primeira Guerra Mundial. A falta de fretes dificultou a exportação, que em 1914 sofre uma violenta baixa. Mais tarde, o incremento da demanda com fins bélicos incentivou os laboratórios europeus a investigar a fabricação de nitrato sintético sobre a base de sulfato de amônio, empreendimento em que obtiveram êxito. Em 1917, foram os investigadores alemães que começaram a comercializar este produto. O fim da indústria chilena estava próximo.

Deslocada pelo êxito da investigação européia, a produção chilena, que em 1910 representava sessenta e cinco por cento do consumo de abonos nitrogenados no mundo, caiu precipitadamente até chegar a representar apenas dez por cento em 1930 e tão só três por cento em 1950.

As oficinas salitreiras foram fechando uma a uma, devolvendo ao deserto sua vasta solidão de milhares de anos. As cidades foram abandonadas, apesar dos esforços por evitar que a indústria desaparecesse. Algumas, como Humberstone, agüentaram até o seu fechamento definitivo em 1960, e na atualidade apenas uma, a oficina Maria Elena, continua a sua atividade. Através da aplicação de uma tecnologia de grande mineração desenvolvida em 1924 e conhecida como Sistema Guggenheim, a oficina Maria Elena move um gigantesco volume de caliche que lhe permite funcionar de forma rentável. O alto perco alcançado pelo iodo e a revalorização dos fertilizantes de origem natural, prevêem um novo auge na indústria salitreira chilena, mesmo que jamais se iguale à daqueles anos. Os anos de esplendor do ouro branco.

Humberstone. Uma reflexão sobre o passado
Recorrer ao deserto do Atacama na atualidade é cruzar com a história do salitre. Feitorias desmanteladas, cidades abandonadas, paisagens de terras removidas e gigantescas tortas de ripio se levantando no horizonte estão espalhadas pela paisagem, e em cada cidade importante encontra-se um museu ou coleção de antiguidades dedicados ao mundo do caliche. Entretanto, quando chegamos aos arredores de Humberstone, durante nossa primeira viagem pelas terras do norte do Chile, algo me disse que aquela seria uma experiência muito especial. Eu já tinha visitado anteriormente outras oficinas abandonadas com os seus edifícios em ruínas, na sua marioria desmantelados de todo o utilizável durante os anos da Segunda Guerra Mundial. Mas Humberstone tinha um ar distinto. Seu abandono tardio em 1960 permitiu que suas ruínas sobrevivessem até os nossos dias num estado de conservação excelente. Convertido num autêntico povo fantasma no meio do deserto, suas ruas e suas casas pareciam recém abandonadas pelos seus habitantes, como se um perigo iminente estivesse se aproximando do lugar, obrigando-os a fugir precipitadamente. Aquela solidão e aquele silêncio sobressaltado dão à cidade um ambiente de novela de ficção científica.

Caminhamos pelas ruas desertas que ainda conservam as placas com os nomes, na sua maioria dedicados a personagens e feitos heróicos da Guerra do Pacífico: Manuel Blanco Encalada, Eleuterio Ramírez, Manuel Baquedano, Corbeta Esmeralda, Arturo Prat, Tarapacá, Independencia… Deixamos para trás o hospital e a escola pública, e chegamos até a praça principal em torno da qual se concentram os edifícios mais importantes da cidade. À entrada está a igreja, construída em madeira com autêntico pinheiro de Oregón, e a guardería infantil San Mauricio, que foi a primeira a se instalar na província de Iquique. Continuando, encontra-se o magnífico mercado de abastecimento com seu ponto de venda de carne, verduras e peixe, além de muitas lojas pequenas que ofereciam artigos dos mais variados.

O hotel continua dominando o principal lugar da praça com a sua fachada branca. Ainda se pode observar os restos do esplendor do antigo clube social da elite umberstoniana. Entramos no edifício e cruzamos o antigo salão de bilhar e os grandes refeitórios, até chegar às dependências da cozinha, presididas ainda por um enorme mole de ferro fundido com seus grandes fogos, seus fornos e sua chaminé. Dentro está a pérgola com sua pista de baile na qual tocava uma orquestra todos os fins de semana e nos dias de festa. Os restos do teto de talo de cana equatoriana ainda se penduram desvencilhados da sua estrutura de arame.

O bar, as habitações dos hóspedes e as dependências de serviço completavam as instalações do hotel, que tinham a sua principal atração na elegante piscina, um imponente complexo desportivo que surpreendia os que chegavam a esse lugar queimados pelo sol. Considerada no seu tempo uma das melhores piscinas de todo o Chile, está construída com chapas de ferro unidas por remendos, e tem um trampolim de três níveis que ainda se conserva em boas condições. A água era obtida do subsolo graças a duas poderosas bombas instaladas debaixo dos graderíos, que a extraíam de uma profundidade de quarenta e um metros.

Já fora do hotel se pode ver, fechando a praça, a biblioteca, a pulpería e o magnífico edifício do teatro, construído na década de trinta, que ainda conserva o cenário, a platéia, o fozo da orquestra e a sala repleta de poltronas, como se o tempo não tivesse passado. Por aqui desfilaram os principais artistas nacionais e estrangeiros. Da Europa chegavam as companhias de óperas e opereta, e não faltaram as pampinas, que colocavam em cena as obras de Salvador Rojas, relatos costumeiros sobre a vida do trabalhador calichero. As projeções cinematográficas também foram freqüentes desde as mesmas épocas do cinema mudo.

Caminhando por fora pudemos visitar primeiro a quadra de basquete, e depois cruzar pelas diversas casas dos trabalhadores, agrupadas por categorias e diferenciadas entre empregados, solteiros e casados, para chegar até o campo de futebol, diante do qual se encontra o quiosque da orquestra, que amenizava as tardes de competição entre as equipes das diferentes oficinas. Um pouco além se encontram a Caixa Nacional Econômica e a administração, um edifício de cor branca rodeado de um longo corredor com balaustrada, onde residia o dono da oficina e seu representante, era daí onde se dirigia a produção e toda a vida da comunidade.

Dali pode ver de longe a grande torta de ripio, e à sua esquerda as ruínas do que foi “A Máquina”, ou seja, a processadora de onde o caliche era transformado em nitrato de sódio.

Todos os anos, em meados de novembro, é celebrado o dia do Salitre, e os pampinos regressam a Humberstone e colocam em marcha “A Máquina”, cuja chaminé volta por algumas horas a jogar fumaça como fazia em tempos passados. Desejosos de recuperar seu passado histórico, essas pessoas do Norte fundaram o chamado Museu Arqueológico Industrial Salitreiras Nebraska, que conta com um Conselho Assessor Cultural, decidido a recuperar as ruínas de Humberstone, Santa Laura, Peña Chica y Keryma, numa tentativa de fazer conhecer o mundo inteiro o modo de vida do trabalhador calichero e sua família durante os anos de auge do ouro branco nesta região.

Quando saímos de Humberstone, um sentimento de tristeza nos acompanhava. Paramos o motor do Nissan Patrol com o qual viajávamos e voltamos a olhar para desfrutar pela última vez do embriagador romantismo que emanava daquelas velhas ruínas industriais abandonadas sob um sol abrasador e, nos dissemos que efetivamente eram o testemunho da tradição e da história de um povo e, que mereciam ser conservadas para o conhecimento das gerações futuras.

FICHAS DE SALÁRIOS
Nos primeiros tempos, as empresas calicheras utilizavan um abusivo sistema de remuneração que consistia em pagar não com dinheiro, mas com fichas da mesma empresa, que eram o circulante obrigatório. Cada oficina editava suas próprias fichas que apenas podiam ser trocadas por comida, roupa e outros utensílios dentro da própria oficina e, careciam de poder aquisitivo fora de seus limites. Assim, a empresa se beneficiava por ambas as frentes, controlando a venda do abastecimento, já que os trabalhadores estavam obrigados a comprar deles os artigos de uso diário e às vezes a preços realmente abusivos.

Esse sistema impiedoso de exploração derivou nos primeiros conflitos sociais, que por sua vez desencadearam atrozes medidas de repressão, como as matanças de trabalhadores nas oficinas Ramírez e La Coruña, ou a tristemente famosa matança na escola de Santa María de Iquique, na qual duas mil pessoas, homens, mulheres e crianças, foram mortos pelo exército em 21 de dezembro de 1907.

O número de fichas que se produziram é incalculável, e na atualidade são peças raras que originaram no Chile um grande interesse por colecionar. Uma das melhores e mais completas coleções, formada por duas mil peças, encontra-se no Museu de Salitre da cidade de Iquique.

O MERCADO DE ABASTECIMENTO
O mercado de abastecimento oferecia aos humbertonianos todo o tipo de artigos e utensílios. Entre suas lojas se encontravam a oficina de fotografia de Paulo, que posteriormente se converteu em farmácia, a sapataria do Sr. Humberto Diomedi, a loja de quinquilharias de Dona Victoria Bustamante, conhecida por todos como Dona Toya, a sorveteria Saavedra, a loja da Sra. Blanca Varas, a livraria de Armando Duarte, a oficina de costura, a chapelaria, e o salão de beleza japonês de Manuel Etisidaki.

No interior do edifício está o pátio onde se encontravam os departamentos de alimentação: as verduras, a peixaria, o açougue, ou o posto de carvão. Dentre todos eles destacava-se o armazém de Juan Chang, apelidado de Chino Chalupa, a quem todos conheciam pela sua modalidade de venda “por peso”, na qual usava as suas mãos como balança e nunca se enganava.

No centro do pátio existe uma pia que servia para lavar as frutas e verduras, e duas grandes prateleiras utilizadas pelos clientes para apoiar a bolsa da compra. O edifício tem no seu topo uma torre de madeira que há tempos alojou um relógio e um equipamento de alto-falantes que entretinha com música as pessoas que passeavam na praça.

Juan Adrada

A vocação nossa de cada dia (IV) –

SOBRE O ÊXITO

Continuaremos tratando da Vocação, este tema já comentado nos artigos dos números anteriores da nossa revista Esfinge. Do ponto de vista da vocação, o êxito não é uma questão aleatória, o que pode ser demonstrado através de algumas premissas básicas:

1ª.) O êxito não depende de que tenhamos recebido inteligência ou dons especiais, também não depende de uma educação esmerada ou de uma posição social, de ter trabalhado duro, e menos ainda da sorte.

2ª.) A diferença entre êxito e fracasso não é tão grande quanto parece.

3ª.) O êxito é questão de compreender e praticar religiosamente certos hábitos específicos e simples, ditados pelo senso comum. E entender que para alcançá-lo devemos dar uma série de passos que paulatinamente nos conduzirão até ele.

Uma vida de êxito é a soma de muitos anos de êxito, os anos de êxito são a soma de meses de êxito, de semanas, de dias, de horas, enfim, de momentos de êxito. O que vale não é uma vitória ocasional, mas os pequenos triunfos consecutivos, o que em definitivo nos levará a desfrutar de uma vida de êxito.

Todos obtemos resultados, mas o importante é que sejam positivos.

Existem dez hábitos, muito fáceis, mas importantes, que necessariamente se devem adquirir e cultivar para alcançar êxito na vida:

1. O hábito da realidade: devemos aprender nos posicionar de acordo com aquilo que é e com aquilo somos, não com o que gostaríamos que fosse nem com o que gostaríamos ser.

2. O hábito da atitude mental positiva: devemos saber o que queremos e ter uma fé inquebrantável na vitória final. Para isso, devemos saber que existem quatro realidades básicas:

¨ Os problemas são parte da vida. Eles correspondem aos passos que devemos dar para desenvolver o nosso cominho, que nos permite triunfar.

¨ Lei de equilíbrio. Cada fracasso espalha as sementes de um triunfo equivalente. Tudo leva consigo seu contrário, que o equilibra e harmoniza.

¨ Lei das porcentagens. Para que apareça a compensação é só questão de tempo. Na acumulação de intentos está o segredo para finalmente chegar ao triunfo. Portanto, deve-se saber esperar, pois mais cedo ou mais tarde chegará o percentual de possibilidades que nos pertencem para conseguir o que procuramos.

¨ O poder da mente. Para triunfar, temos que nos imaginar triunfantes. Triunfante não é quem sempre vence, mas quem tem sempre mentalidade positiva. A mente é um paradigma expansivo, e quando a usamos de forma correta ela nos traz todas as ferramentas que colaboraram sem dúvida para encontrar as soluções dos problemas.

3. O hábito da perspectiva: é a capacidade para contemplar as coisas em seu relativo nível de importância, ou seja, ficar um pouco acima, olhar os problemas de uma certa distância. Este hábito inclui um método para resolução de conflitos:

¨ não fugir jamais de um problema;

¨ reconhecer o problema;

¨ aceitá-lo;

¨ integrá-lo a nossa vida;

¨ desenvolver uma tática para a solução;

¨ solucioná-lo de forma global.

4. O hábito de viver o presente: é a capacidade de ter objetivos imediatos, cotidianos. Temos de ser capazes de ver o conjunto da nossa vida, o que é importante, o que realmente queremos fazer, e ser capazes de trazê-lo ao nosso dia-a-dia.

5. O hábito de viver o que cremos: ser morais, coerentes entre o nosso comportamento e aquilo em que acreditamos. Ser capazes de sonhar e lutar para conquistar nossos sonhos.

6. O hábito de nos relacionar com os demais: o importante neste ponto é conseguir a cooperação de todos, e para isso existem regras:

¨ dar sempre mais do que esperamos receber;

¨ merecer o respeito dos demais sem procurá-lo;

¨ ser muito claros em nossas comunicações;

¨ não falar dos nossos problemas com os demais;

¨ cumprir todos os nossos compromissos

¨ agir com tato;

¨ reconhecer quem faz algo bom.

7. O hábito da simplicidade: de todos os caminhos que encontrarmos para solucionar um problema, devemos escolher o mais acessível, o mais simples de se fazer.

8. O hábito de procurar pessoas adequadas: é fundamental selecionar bem as pessoas com quem trabalhamos e não aceitar trabalhar com pessoas que tiram tempo, energia, paz ou dinheiro.

9. O hábito da autodisciplina: é a capacidade de nos concentrarmos na hora de fazer um trabalho, ou seja, não divagar nem ter em mente outros assuntos, ou o que faremos depois. Enfim, sermos em todo momento os donos de nós mesmos e controlar o nosso próprio destino.

10. O hábito da ação: deixei este hábito por último porque é o mais importante de todos. O conhecimento é inútil sem ação. Isso parece óbvio, porém estamos limitados por uma série de barreiras que dificultam agir e que nos freiam. Essas barreiras são basicamente:

¨ resistência a mudanças;

¨ tendência de esperar que aconteça alguma coisa que nos resolva o problema;

¨ sentirmo-nos abalados;

¨ esperar ter tudo na mão antes de começar qualquer empreendimento;

¨ a dúvida;

¨ a adversidade que não desejamos.

Finalmente, para alcançar o êxito, é importante nos convencermos de que deixar de agir constitui o maior de todos os perigos. Se não tomarmos a iniciativa, os acontecimentos controlar-nos-ão. Devemos escolher nossa forma de vida. Não podemos esquecer que a lei natural de equilíbrio diz que quanto mais tempo se trabalha para conseguir algo, maior significado representa a sua conquista, e que cada fracasso, num processo de eliminação, nos aproxima mais um passo do êxito.

O conhecimento como uma forma de combater o excesso de informação
Por Leonardo Santelices A

A busca e o armazenamento da informação

No transcurso da história sempre se procurou contar com suficiente informação para o desempenho de todo tipo de atividade. A engenhosidade do homem tem criado diferentes formas de recopilar e compartilhar as informações como parte fundamental do acervo cultural humano. Nesse tema a linguagem escrita tem sido um protagonista principal.

Em muitas culturas encontramos inscrições em pedra com símbolos ou sinais que expressam uma linguagem, no entanto também se procuraram sistemas que permitissem uma difusão mais rápida e eficiente da linguagem escrita.

Na Mesopotâmia se escrevia com símbolos em forma de cunhas, logo foi chamada de escrita cuneiforme, eles a escreviam principalmente em placas de barro que uma vez cozidas num forno se transformavam em documentos perduráveis, as vezes gravando um cilindro com a escritura que podia ser reproduzida em muitas placas.

A fabricação de papel começou muito cedo na China e foi feito com diversos materiais. Famosas são essas formas especiais de material para escrever que os egípcios possuíam a partir da polpa do papiro da qual tomaram esse nome. O couro de ovelha, terneiros e cabras sem curtir, era utilizado desde 1.500 a.C. no mundo greco-romano, onde a cidade de Pérgamo fabricava um de excepcional qualidade, dando origem ao nome pergaminho.

Na América Central era utilizado um papel feito de fibras vegetais como o amate e o maguey, também em lenços de algodão e em peles curtidas de cervo e jaguar.

A mentalidade que levou a dirigir a capacidade engenhosa e os recursos a mecanização e que vai desembocar na assim chamada revolução industrial, também alcançou a escrita.

Em 1714 o engenheiro inglês Henry Mill patenteou a primeira máquina de escrever com a descrição: “método artificial destinado a impressão ou transcrição de letras, de maneira individual ou progressiva, uma depois da outra, como a escrita manual…tão nítida e exata que não se diferencia da letra de uma impressora”. A primeira máquina produzida industrialmente foi fabricada em 1873 por Remington & Sons em Llion, Nova York.

O salto tecnológico do Século XX

O grande salto aconteceu no Século XX, onde desde 1925 começaram a se utilizar as máquinas de escrever elétricas. Ao mesmo tempo iniciou-se o desenvolvimento de outra tecnologia, a eletrônica, que mudou completamente o panorama do armazenamento e difusão da informação.

No começo do Século XX apareceram os tubos de vácuo, primeiros avanços na eletrônica. Em 1948, John Bardeen, William Shockley e Walter Brattain inventaram um novo dispositivo que tinha como propriedade mudar a resistência com a passagem da corrente elétrica entre o emissor e o receptor; era um transferidor e resistor, conhecido pela sua contração transistor.

Em 1959 um engenheiro da Texas Instruments, Jack St. Clair Kilby desenvolveu o primeiro circuito integrado ao juntar 6 transistores em uma mesma base semicondutora. No ano 2000, ele recebeu o prêmio Nobel de Física devido à sua grande contribuição à tecnologia da informação. Destes SSI (Small Scale Integration) chegamos até os ULSI (Ultra Large Scale Integration) que contém mais de 100.000 componentes.

Os circuitos integrados deram origem aos microprocessadores que constituem a Unidade Central de Processo, mais conhecido pela sua sigla em inglês CPU dos computadores.

Esses avanços tecnológicos produziram um incremento exponencial da capacidade de armazenar e processar a informação.

Assim como a mentalidade de mecanização acabou provocando a Revolução Industrial, na década de 60 começou a surgir a idéia de trabalhar em rede. Em 1962, J.C.R. Licklider propôs o conceito de uma rede interconectada globalmente através da qual cada um pudesse acessar desde qualquer lugar dados e programas. Desta idéia, que a princípio foi aplicada na DARPA (Defence Advanced Research Projects Agency), vai surgir a internet que nos anos 90 provocará uma nova revolução que disponibilizará aos usuários do mundo inteiro quantidades cada vez maiores de informações, alcançando níveis nunca antes vistos nem mesmo nos grandes centros de documentação, além de uma velocidade de busca igualmente imensa.

Quantidade nem sempre é qualidade

Um problema nesse excesso de informação é que contar com uma quantidade imensa de informação não garante que essa informação seja confiável.

A tecnologia tem caminhado com passos acelerados e seu impacto tem sido tremendo na sociedade, no entanto as pessoas não modificaram sua mentalidade com a mesma velocidade como para se adaptar a essa nova realidade.

Vejamos alguns exemplos que servem como amostras deste problema.

A televisão exerce um poder de autoridade sobre as pessoas e, mesmo quando se tratam de pessoas regularmente bem informadas, que sabem que tudo o que aparece na televisão passa por um trabalho de edição e montagem, mesmo em se tratando de transmissões ao vivo, mesmo assim, acredita-se que aquilo que aparece na TV é verdadeiro. “Apareceu na TV” torna as coisas mais reais do que aquelas que simplesmente não apareceram na TV, porque foram assistidas por um maior número de pessoas. No fim já não interessa se é ou não verdade, o importante é que apareceu na TV, e isto é sabido e utilizado por todos os manipuladores.

Na desmedida quantidade de informação disponível na internet, não sabemos se verdadeira ou não, aquilo que antes era fofoca ou mexerico de uns poucos imorais, hoje está disponível para todos nesse imenso mar da Rede.

Hoje se considera um dos grandes avanços sociais viver numa sociedade livre e democrática onde a voz e opinião dos cidadãos têm peso, na medida em que é canalizada através de sistemas de participação cidadã. No entanto, no que se baseia a opinião desses cidadãos? Principalmente na informação que tem recebido, que é o que vai compondo sua visão do mundo. Antes a principal fonte de informação era aquela recebida em escolas, colégios e em casa. Hoje a maior parte da informação chega através dos meios de comunicação. Portanto a chave está em controlar os meios de informação e isso também tem sido compreendido por aqueles que manipulam a sociedade.

A fonte de informação política e social mais utilizada na atualidade são os telejornais onde supõe-se que em uns poucos minutos, o telespectador ficará informado daquilo que acontece no mundo. São difundidas em grande velocidade imagens selecionadas, acompanhadas por leituras feitas por apresentadores que recém chegaram à redação.

Esta é uma técnica de manipulação conhecida há muitas décadas, a maior velocidade no áudio e no vídeo impede que o espectador possa pensar e assim torna-se mais facilmente manipulado. Muitas imagens, muitos temas tratados superficial e desordenadamente, conseguem que o espectador fique farto de informações, emocionalmente chocado e, no entanto, na melhor das hipóteses, com uma compreensão muito básica do que está acontecendo de fato.

O excesso de informação, uma nova forma de contaminação

O neurologista russo Levon Badalian (929-1994), que se dedicou principalmente à neurologia infantil, avisava sobre o dano que o excesso de informação provoca no desenvolvimento neurológico e cerebral das crianças, sendo esta a causa de muitos problemas de aprendizado.

O psicólogo britânico Davis Lewis criou o termo Information Fatigue Syndrome (IFS) – síndrome da fadiga por excesso de informação. Este termo é utilizado para caracterizar o elevado nível de stress daqueles que tentam, a qualquer custo, assimilar a torrente de informação que chega até eles através da televisão, telefones celulares, jornais, livros, fax e acima de tudo, pela internet. O IFS caracteriza-se por um estado psicológico de hiperexcitação e ansiedade quando a pessoa se vê diante de um amplo mar de informações, contando com literalmente milhões de páginas. Ao mesmo tempo, isso provoca medo e insegurança pelo fato de não se poder administrar essa imensa quantidade de informações. Em muitos casos isso leva a uma parada da capacidade analítica, podendo levar o sujeito a tomar decisões imprudentes e conclusões distorcidas.

Essa nova forma de intoxicação tem sido chamada de infoxicação.

A infoxicação é o que uma pessoa tem quando a informação que a rodeia – ou aquilo que deveria saber, supera sua capacidade de assimilação.

Ainda que nem todos tenham acesso a todos os meios disponíveis, todos têm experimentado um crescimento em forma geométrica da quantidade de dados em relação ao que possuíam há alguns anos. Mas a pergunta fundamental diante dessa avalanche é se com todo esse crescimento de dados tem crescido também o nosso conhecimento?

O fato de contar com mais dados, ter informação diária, estar conectado em forma permanente, não significa necessariamente que se conhece mais ou que se compreende mais aquilo que acontece.

Dados, informação e inteligência

É preciso assinalar que os dados são a matéria prima da informação, são as cifras, a quantidade, a anedota, o acontecido. Mas em nome de uma busca pela objetividade temos nos abarrotado de dados, o que hoje se escuta como notícias são geralmente dados, aconteceu isto ou aquilo, e se supõe que, se nos são mostradas imagens, fotografias ou filmes, estamos vendo a realidade E nos esquecemos de que a câmera não capta tudo, mas sim apenas aquilo que quem a usa quer captar (e ainda por cima essas breves tomadas são editadas). Dados são datas, lugares, nomes. O que temos na realidade não é um excesso de informação, mas sim um excesso de dados.

Informação é a capacidade de responder perguntas que expliquem os dados, porquê aconteceu aquilo, qual o motivo das cifras subirem ou descerem… a informação requer, necessariamente, o exercício do pensamento. Uma seqüência rápida de imagens, sons e locução, podem resultar impressionantes para persuadir um consumidor ou leitor, como já advertia Vance Packard no fim dos anos 50, mas não permite produzir o processo reflexivo que leva a compreender o porquê dos acontecimentos. Os dados dizem o que estão dizendo, mas a informação é compreender o que acontece.

A inteligência consiste principalmente na capacidade de discernir, saber o que é uma coisa e o que é outra (e a diferença entre as duas). Isto pode parecer simples quando se tratam de objetos, mas conhecimento não é saber que uma xícara é diferente de uma árvore, conhecimento é aquilo que nos permite atuar, fazer e ser. E para conseguir esse conhecimento precisamos do discernimento, saber o que é, por exemplo, o correto e saber diferenciá-lo daquilo que não é. Isto significa princípios e critérios.

Os dados são a matéria-prima para que em base a um processo pensante consigamos obter informação e saber o que está acontecendo, mas é a inteligência que produz conhecimento.

O oceano de dados que recebemos diariamente, e que temos acesso, só pode ser útil na medida em que possamos processar como informação. Não basta saber que algo aconteceu, é necessário saber por que aconteceu, em que ambiente e contexto aconteceu, só então estaremos informados, antes disso estaremos apenas chocados e às vezes saturados de tantos impactos.

Para que a informação seja algo útil, é necessário transformá-la em conhecimento, aplicar o discernimento, avaliar de acordo a um bom critério, contrastá-la com princípios fundamentais para saber sua validade.

O excesso de dados se transforma em uma intoxicação quando não pode ser digerido. Para lograr esta assimilação é preciso pensar sobre esses dados, compreender os processos e não ficarmos a mercê apenas do impacto causado.

É importante compreender o que acontece, mas isso só não basta. É preciso saber como atuar, compreender não apenas o que está acontecendo, mas também em que direção se dirigem esses processos e encontrar a criatividade necessária para resolver os desafios ao final. O conhecimento verdadeiramente estratégico é um produto da inteligência,

Utilizar os dados para obter deles informação é responder às naturais perguntas; obter um conhecimento de prospecção que permita adiantar-se aos fatos; compreender o sentido das coisas; desenvolver a criatividade; tudo isso é questionar-se, é fazer filosofia.

Fazer filosofia é descobrir o filósofo que todos temos no nosso interior, é desenvolver nossas potencialidades latentes, é nos surpreender diante da vida e do mundo, é procurar a sabedoria sem sectarismos. Isto é filosofia à maneira clássica, que é o melhor remédio para sair da intoxicação pelo excesso de dados e evita cair nas garras da manipulação.