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CHISPAS CIENTÍFICAS – Do homem ao humano

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Em relação aos livros e filmes mitológicos, como “O Senhor dos Anéis”, convém relembrar as antigas concepções sobre a formação do homem e do mundo em que se baseiam, pois apesar de seu aspecto fantástico, encerram um conteúdo simbólico.

Na atualidade, estima-se que a Terra tem uma antiguidade de uns cinco bilhões de anos. Para um cientista como Hemholtz, o planeta foi resfriando-se de suas altas temperaturas iniciais (cerca de 2000 graus C) até 200 graus C, em pelo menos trezentos e cinqüenta milhões de anos. Embora concebamos que a Terra, em seus inícios, pudesse ser como uma bola incandescente, para ir resfriando-se gradualmente, deixando de ser um corpo plástico e gelatinoso para ter a forma de um corpo denso, custa-nos imaginar uma solução similar para os seres que a habitam. Desde aquele tempo, o entorno e o próprio homem têm mudado tanto que podemos dizer que os vegetais e os animais não eram nem remotamente parecidos com os atuais.

Segundo as antigas tradições indianas e tibetanas, o homem tem uma antiguidade insuspeitada pela mentalidade atual. Embora não habite a Terra desde seus inícios, o homem apareceu sobre a face do planeta quando este foi perdendo temperatura. Na primeira idade (na antiga era primária), assentou-se sobre o Pólo Norte, sendo apenas uma forma etérea, translúcida e filamentosa, mais vaporosa que a atual e, portanto, menos densa.

Posteriormente, em uma segunda idade, desenvolveu-se em um antigo continente situado no hemisfério norte, denominado Hiperbóreo, rodeado de emanações gasosas, de erupções vulcânicas e de uma atmosfera rarefeita. Naquelas épocas ancestrais, ainda não tinha a forma de um ser humano. Em tais circunstâncias, dificilmente poderia descobrir-se na atualidade restos de tamanha antiguidade, se levarmos em conta sua consistência mais plástica.

Tão somente há uns dezoito milhões de anos, na denominada terceira idade pelos textos esotéricos (na metade da era terciária), o homem começou a adquirir formalmente a aparência que reconhecemos, consolidou seu esqueleto e converteu-se em um ser sexuado, abandonando as formas de reprodução similares às dos animais unicelulares mais simples. Era de proporções gigantescas e por isso os textos mitológicos, talvez baseando-se em uma recordação coletiva ancestral, falam de cíclopes, minotauros e todo tipo de seres humanos imensos e estranhos.

À luz de citados textos, naquelas idades pretéritas, talvez imagine-se um homem menos consistente, mais etéreo e de maior envergadura, tal como eram de maior estatura a fauna e a flora daqueles tempos, a par com a natureza da terra. Uma atmosfera mais densa e com elevadas temperaturas propiciaria a aparição de vegetais, répteis e aves diferentes dos atuais, mais robustos, com grossas proteções epidérmicas e com sentidos mais incipientes, de formas rudes e pouco evoluídas. As emanações magmáticas, a opacidade da atmosfera, as frondes e os imensos bosques seriam relíquias protohistóricas hoje inimagináveis. O homem seria, então, também mais gigantesco, não somente por assim ser citado esse feito nos textos antigos, mas também por estar sendo corroborado pelos recentes achados de homens, crustáceos e mamíferos desmesurados, antediluvianos e quase deformes.

Os antigos continentes haviam se consolidado e deslocado durante milênios, sendo contornados, elevados e afundados, moldados e deteriorados de novo, uma e mil vezes. Na terceira idade, o homem se assentou sobre o continente Um, ao que os cientistas do século XIX chamaram continente Lemur, hoje desaparecido. Dito continente foi se desmembrando, quebrado pelo calor interno de seus vulcões e intensos terremotos. Abarcava as atuais ilhas polinésias do Pacífico, Indonésia, Ceilão, Madagascar e as áreas do sul da África, América e Antártida, incluindo a ilha de Páscoa.

Os seres elementais (elfos, ondinas, nereidas, tritões, gnomos e os terríveis trols e orcs) e outras tantas figuras de pesadelo, compartilhavam o cenário com o homem. As forças divergentes ainda não haviam se canalizado. Existiam seres esplêndidos, mágicos, junto a outros nos primeiros degraus do progresso. Existia a atenta e luminosa vigia dos mais sábios e certamente a vil intenção dos mais obscuros, porque desde que o mundo é mundo – e este queria sê-lo – as sombras são tão largas como as luzes que as projetam e definem.

Naquela época remota, o homem não apareceu sobre a face da Terra como um ser pronto física e psiquicamente (a mente ainda dormia o sono dos justos). Com o decorrer dos tempos, os sentidos do homem se desenvolveram gradualmente, pois uns sentidos são mais antigos que outros, segundo a tradição, e cada vez em maior medida usou de sua incipiente razão para prever as coisas, para antecipar-se, para valer-se do ardil e lutar de igual para igual com os grandes animais. No aspecto psicológico, havia que se pensar neste protótipo de homem como um ser rude, grosseiro, preocupado em dar cumprimento à sua natureza instintiva. Era semelhante a um animal, capaz de confundir-se com eles, de grunhir, de enfurecer-se, de apaixonar-se e talvez até de comportar-se como eles. Textos como “As Estâncias de Dzyan” relatam inclusive que o homem chegou a cruzar com os animais, dando lugar a “seres intermédios”, metade homens, metade animais.

Essa foi uma etapa sombria, adormecida como estava ainda a verdadeira razão. Mas a razão surge quando as diminutas chispas da mente são um rescaldo certo, que não se consegue senão com milhares ou milhões de anos de evolução. Por isso, mais tarde, quando a evolução individual fez divergir as espécies bem como crescer a semente interior do pensamento, os homens que principiaram a ser humanos e os animais se separaram, e não só o fizeram geneticamente nem por mera especialização evolutiva, mas porque o homem começou a plasmar seu próprio potencial.

Essa era a etapa do animal que ainda dormia no interior de uma carapaça formalmente humana. As formas externas estavam dadas, mas ainda não respondiam às necessidades evolutivas do estado humano. Mas pouco a pouco, a fala e o uso das mãos para fabricar ferramentas foram despertando junto com os primeiros esforços da mente para compreender e querer expressar o percebido. Os vislumbres da razão, ainda que não fossem reais pensamentos, começaram a engatinhar e o homem entrou – conforme a tradição – na quarta idade.

Nela desenvolveu uma poderosa civilização, em um continente denominado Atlântida. Naquele tempo, somente uns poucos haviam despertado a consciência, pois há um consenso nos textos que assinalam as dificuldades do processo do verdadeiro nascimento do ser humano. Eram os denominados pela tradição como nagas ou serpentes, aqueles que possuíam uma mente desperta e vigilante, ou também como sábios, magos, verdadeiros reis assumidos e respeitados por todos em virtude de seu conhecimento. Esses poucos conduziram a outros em uma época dourada, fraterna, criando focos civilizatórios importantes. Desenvolveram as artes e as ciências, o acordo de suas leis uniram múltiplos povos do extenso arquipélago sob a harmonia e o sentido fraterno. Sua razão foi poderosa, porém usada indevidamente. Com o passar dos milênios, criou armas psíquicas, artefatos voadores, cidadelas e muralha, as rivalidades dizimaram esse povo. Novamente, um súbito afundamento, ou talvez a elevação do nível das águas, ocasionou grandes cataclismos sucessivos que sepultaram aquela arcádia feliz, o jardim das Hespérides, há uns oitocentos e cinqüenta mil anos.

Aqueles que sabem, os que em toda época preservaram o alimento do caldeirão mágico, os velhos reis nagas, conduziram o restante daquele povo para as ribeiras ocidentais da Eurásia e as orientais da América, e novamente, sob diretrizes semelhantes, surgiram novas culturas, novos amanheceres. Antigos povos guardam raízes comuns além dos mares e de sua natural divergência. Guardam similares cultos aos mortos, aos animais, aos astros eregem menires e dólmens de modo semelhante e têm idéias que se repetem ciclicamente de um dilúvio universal.

Assim surgiu um primeiro homem, que melhor dizendo era uma estirpe, uma nova linhagem evolutiva, antes que o primeiro homem em sentido literal desse passo àquele que hoje reconhecemos como nosso semelhante.

Algum dia, um homem que não se parecia com um homem começou a evoluir… Um homem longevo, capaz de viver talvez novecentos anos, após milhares ou milhões de anos deu lugar a um fugaz mortal… Um homem assexuado, com o correr das eras geológicas, converteu-se em homem e mulher… Um homem sem mente e sem fala, começou a raciocinar, e assim posteriormente aglutinou monossílabos e finalmente manejou palavras e conceitos. Algumas vezes avançava e outras vezes retrocedia. Algumas vezes, o conhecimento, denominado na antiguidade como “magna ciência” (a verdadeira magia), assentou civilizações e culturas excelsas, outras tantas essas deram passo à superstição e ao medo, à maldade e ignorância. No centro sempre o homem, enfrentando seu destino e sua evolução, situado além das visões contrárias, além da própria era do homem para alcançar sua dimensão humana.