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Ciranda, Brasil! A Cultura da Brincadeira a Serviço da Paz

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“Ciranda cirandinha, vamos todos cirandar, vamos dar a meia volta, volta e meia vamos dar”.

Esta musiquinha que, para os adultos de hoje é tão familiar, para muitas crianças é completamente desconhecida. Isto quem percebeu foi a pesquisadora e Assistente Social Nair Spinelli Lauria, a Nairzinha.

Em sua pesquisa com 513 crianças, Nairzinha observou que, na sua grande maioria, as crianças de hoje estão “erotizadas”, impregnadas pela sociedade de consumo, e sentem-se inadequadas de acordo com os padrões da mídia globalizada. Elas perderam o contato com o corpo e com a natureza, só brincam com aparelhos eletrônicos, vivem presas em apartamentos e são alvo de violência sexual e social. Com o incentivo à solidão dos brinquedos eletrônicos, perdeu-se o sentimento de grupo, o significado da brincadeira, da cantiga e da cultura popular.

O principal motivo de as crianças terem perdido o contato com a brincadeira e com a cantiga é simplesmente a falta de acesso. As crianças não conhecem brincadeiras e cantigas porque ninguém ensinou a elas. O excesso de trabalho, devido à constante criação de falsas necessidades pelo sistema capitalista, que obriga as pessoas a buscarem sempre ganhar mais dinheiro, resultou no afastamento dos pais de seus filhos. Assim, Nairzinha concluiu que “as crianças são as mesmas, nós adultos é que mudamos a maneira de lidar com elas”.

Segundo Nairzinha, “o ser humano é um ser brincante e a brincadeira é a reprodução da vida e dos modelos sociais”. Por isso, Nairzinha criou o Projeto Cirandando Brasil para resgatar a cultura da brincadeira, as cantigas de roda e a identidade cultural do povo brasileiro. Ela rearranjou as cantigas em formatos mais modernos e não teve dificuldade em reunir mil crianças em cada bairro, nos quatro cantos da cidade de Salvador, na Bahia. Lançou CDs e partiu para a capacitação de professores para chegar às crianças mais facilmente.

Nas escolas onde o projeto foi implantado, a violência no recreio diminuiu, as crianças reaprenderam a brincar e, com as brincadeiras coletivas e a competição sadia, reconquistaram a auto-estima.

O projeto envolve artes cênicas, histórias recontadas em forma de peça, literatura oral com histórias da carochinha portuguesa, lendas indígenas e contos africanos, além de muita brincadeira coletiva. O trabalho traz a integração da identidade cultural brasileira, tudo passado pela cultura da brincadeira com o objetivo de que as crianças sejam as porta-vozes no futuro.

O principal objetivo do Cirandando Brasil é contribuir para que a sociedade brasileira não perca a identidade cultural de Povo Brasileiro, a cultura que está adormecida pelo modelo moderno de uma sociedade séria, complexa de competição e solidão. Para Nairzinha, “nós impomos às crianças um modelo que é nosso, mas a criança é naturalmente simples, curiosa e gosta de coisas simples; por isso o projeto é uma grande brincadeira com a sociedade”.