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DO FUNDO DA HISTÓRIA – A cativa de Afrodisias

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Choro pela minha cidade. Por minha Afrodisias. Por minha terra livre, um dia subjugada pelo poder de Roma.

Fizeram-me escrava, como a tantos outros. Deixaram-me aqui, por séculos e séculos, amarrada a uma coluna, dela vejo passar o esquecimento dos costumes de meu povo, a decadência de meus deuses, a morte ou submissão de meus irmãos. Vejo como minha casa é derruba, como os túmulos de meus pais se fundem com o mato e ervas daninhas.

Vê-me de joelhos. Mas só meu corpo se ajoelha. Como muitos e muitos habitantes de povos vencidos, somos obrigados a nos inclinar, mas nosso espírito é livre. Nenhuma corrente pode sujeitar uma alma.
Vê-me chorando. Mas choram meus olhos, porque são meus olhos que veem a dor em minha volta. Meu espírito grita. Grita pela liberdade, pela ira do cativo, pelos cantos de guerra que não se pode escutar dos lábios de seus homens.

Hoje, meus seios são pedras secas, não há neles seiva de vida como um dia houve. Mas dóem como quando eram manancial nutritivo para meus filhos. Sei que um dia voltarão a sê-lo, não mais de leite, mas de força, de lembrança do que fomos, de amor a nossa pátria.

Vê junto a mim a perna de um homem. De um guerreiro. Agora quieto, sei também que um dia caminhará por nossas trilhas, livre de novo. Então deixarei de chorar, ficarei em pé com ele e caminharemos juntos.

Esta é minha pequena história, mil vezes repetida, por mil povos subjugados, vencidos, submetidos à escravidão, privados de suas raízes. Conheceis muitos em vosso tempo, em vosso momento. Há milhares como eu, chorando de desespero, com a alma gritando por liberdade, com os braços atados a uma coluna qualquer.

Rezo a meus deuses esquecidos para que ninguém, ninguém, chore de joelhos por sua pátria partida. Rezo por todas as terras ermas, por todos os escravos, por todos os templos de colunas caídas, por todas as bocas abertas em um grito.

Por todos os braços amarrados.