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Do fundo da história – A nave da rocha

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por Mª Ángeles Fernández

mangelesfdez@yahoo.es

Tantos séculos ancorada na montanha, sem poder navegar…

Tantos séculos com minha proa apontada para um vão por onde poderia escapar ao mar aberto, sem poder ir até ele…

Sou um trirreme grego, da ilha de Lindos.

Há quase dois mil anos quiseram que Poseidon se sentisse dono das costas, que bendissesse os escarpados que beijam o Helesponto.

E mandaram os sacerdotes que alguns artistas me talhassem grande, muito grande, de cinco metros de comprimento. Como se realmente pudesse navegar.

A meu lado, uns degraus levam a um pequeno templo ao deus do mar.

Mas os escultores não se deram conta de que, ao esculpir-me, ao dar-me a vida que têm as obras saídas das mãos do homem, me deram também um sopro de vida.

E a vida de um barco é navegar.

Não sentir sua quilha aprisionada pela rocha, e sim beijada pelas ondas.

Não roçar a pedra com a curva de sua proa, e sim cortar o vento em seu percurso.

Não viver imóvel, e sim dançar na maré. Não estar seguro, e sim navegar na tormenta.

Não devem roçar-me as patas dos animais da terra, e sim as asas das gaivotas.

Eu sei que produz tristeza a minha visão. A tristeza que produz todo ser acorrentado, todo destino quebrado, todo sonho não cumprido. Eu sei que os caminhantes que se aproximam de mim roçam meu casco com seus dedos, admirados de minha beleza; talvez espantem alguma aranha que tenha feito ninho em minhas frestas.

Mas não quero sua admiração, nem sua compaixão. Quero que Netuno se apiede de mim e um dia faça chegar suas águas ao meu costado. Que me arranque da montanha e me permita navegar, uma vez ao menos, ainda que breve, como pedra que sou, me afunde para sempre no mar. Este seria um nobre destino: a tumba de um navio que nunca pode navegar.

Por favor, Netuno… estou há quase dois mil anos prisioneiro…