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Do fundo da História – Animais de pedra de Ávila

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Pertenço à tribo vetona dos abulenses, e nasci na Idade do Ferro. Tenho muitos irmãos, em Salmántica, Toletum e Pacis, vigiando os campos, cuidando das pastagens.

Alguns de nós guardam os templos nos seus alicerces, outorgando-lhes sua força.

Eu tenho a imensa honra de entregar minha força à base de uma torre das muralhas de Abula. Já não me lembro, depois de tantos anos, se nasci aqui, se estas pedras são as primeiras que meus olhos viram. Talvez não. Talvez me deram vida em outro lugar e depois me trouxeram aqui para desempenhar o meu propósito. Acredito que não foi assim, acredito que nasci na muralha, que me talharam na mesma pedra da que ela está feita, que tenho o mesmo destino da eterna fortaleza. A ela me entrego: afundo meu rochedo em seu seio duro e maternal, e durmo. E sonho.

Sonho com correr pelos campos vetones, com sentir a sua terra embaixo dos meus cascos e comer seus frutos. Que sou carne, não pedra, e tenho olhos que podem contemplar as pastagens e a meus irmãos. Meus irmãos, os porcos e os touros, que de ambos tenho traços, como vês pelos meus chifres, porque assim queria o simbolismo dos deuses vetones. Sonho que elevo à Lua minhas defesas e me banho na luz noturna de minha terra.

Depois, séculos depois, os homens edificaram sobre mim, e no meu entorno. As ruas medievais, as muralhas medievais. Elas me ocultaram a todos e me sumi na obscuridade. E sonho.

Sonho-me guardião de torres, de fortalezas. Sonho com a passagem das legiões romanas, com suas batalhas com meus vetones. Os contemplo, minhas patas cravadas na pedra, sem poder correr atrás deles, testemunho impávido da derrota dos meus criadores.

Foi então quando virei a cabeça e fundi na rocha da muralha, para não ver o sangue dos guerreiros, para que meus próprios gemidos de dor não se escutassem fora.

Não me fica, daquilo, mais que o cumprimento do meu dever. Seguirei sustentando a torre, enquanto seus blocos permanecem unidos, enquanto Abula tem muralhas, trocando nossas forças, sendo umas no outro, pedra na pedra, alma na alma, mineral no mineral.

Desde a Idade do Ferro.

Mª Ángeles Fernández