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Hamlet O HOMEM EM SUA ENCRUZILHADA

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“Oh alma minha, presa como um
pássaro no visgo, quanto mais
luta por livrar-te mais te perdes!
O corpo está com o rei, porém o
rei não está com o corpo.
O rei é uma coisa…
porém os mistérios da
eternidade não são para ouvidos
de carne e sangue…”
Hamlet, de William Shakespeare

Talvez ninguém como Shakespeare tenha expressado o drama do homem na encruzilhada da existência, condenado a oscilar entre o céu e a terra, atormentado pela dúvida, com um conhecimento que nasce nele, porém sem a coragem suficiente para impor-se diante de sua natureza animal.
Em sua obra Hamlet, Príncipe da Dinamarca, expõe de forma trágica a necessidade de escolha e ação, assim como de assumir o papel teatral que a nossa alma reivindica, para cumprir uma série de experiências, de purificações e de aprendizagens.
As obras teatrais de Shakespeare estão escritas como se fossem obras de música, porém uma música de idéias, uma música que só a alma ouve. Assim como, quando escutamos uma sinfonia há um tom musical que é a chave harmônica de toda a peça, nas obras de Shakespeare há um acorde de conceitos, uma idéia Fundamental, que a obra desenvolve, segundo esquemas musicais. A análise e a síntese são atividades de nossa mente, inferior e superior, porém a música das idéias é uma linguagem que fala diretamente para nossa intuição. Por isso, nas obras de Shakespeare, como em todas as grandes obras artísticas, é mais importante o que fica no fundo de nossa consciência do que aquilo que apreendemos com a razão.
Pois bem, em Hamlet, Príncipe da Dinamarca, a chave que justifica e dá sentido a toda obra é a idéia do homem como encruzilhada.
“Que obra prima é o homem! Quão nobre por sua razão! Quão cheio de faculdades em sua forma e movimento! Quão expressivo e maravilhoso em suas ações! Quão parecido a um anjo em sua inteligência! Quão parecido a um deus! Maravilha do mundo e modelo dos animais!”
Em geral, as obras de Shakespeare têm mais de uma leitura. Além da histórica, que narra poeticamente uma série de acontecimentos, há uma leitura alegórica que se refere aos mistérios relacionados com a alma.
Hamlet é o equivalente do Bhagavad Gita hindu. Em ambas as obras, um falso rei usurpou o trono, prostituiu a rainha e converteu o reino em escombros. Em ambas há um filho que, à maneira do Hórus egípcio, deve vingar o assassinato de seu pai (o Rei Natural), restituir a dignidade de sua mãe e ocupar o trono. Nos dois relatos, e de forma alegórica, narra-se a luta da consciência humana para recuperar sua condição divina e natural.
Hamlet encontra-se diante d o dilema da ação ou da inação. Do ser ou não ser, de sofrer os devires da insultante Fortuna, ou fazer frente, armado, a um mar de dificuldades e acabar com elas. Ele, assim como o Arjuna do Bhagavad Gita, também está num campo de batalha (Ato III, cena IV, precisamente no meio da obra), estreito como se fosse uma ponte entre as ribeiras, um pedaço de terra que não oferece espaço aos combatentes para sustentar a luta, nem espaço suficiente para enterrar seus mortos.
Hamlet é uma moderna versão dos Mistérios do Hórus vingador, do Deus Falcão que vence o deserto, símbolo das circunstâncias adversas:
“Como me acusam por todos os fatos e como incitam minha torpe vingança! Não compreendo porque ainda vivo para dizer: isto ainda será feito, pois tenho motivo, vontade, força e meios para levá-lo a cabo.”
O objetivo da vontade e da consciência deve ser abrir os grilhões que aprisionaram a alma em seu cárcere, desfazer as ataduras de carne, sem identificar-se e perder-se neste mundo que é como um jogo de espelhos. Como diz Hamlet:
“Oh! Que esta sólida, excessivamente sólida carne pudesse derreter-se, desfazer-se e dissolver-se no orvalho…
Que tediosas, rançosas, vãs e inúteis me parecem todas as práticas deste mundo! Que vergonha disso! Ah, vergonha! Em um jardim de ervas daninhas sem colheita, que cresce para semente; somente produtos de natureza grosseira e amarga o ocupam… Como se chegou a isso!”
A alma deve lutar por sua libertação, porém, ao mesmo tempo, submergir em sua própria natureza, em seu próprio silêncio, pois o silêncio é divino e está cheio de férteis criações. Hamlet, a consciência, diz a si mesmo: “Quisera que houvesse chegado a noite… Até então, silêncio, oh alma minha!”
Outro tema tratado em Hamlet, e que está enraizado com o que é o homem, é a relação com o próximo. Shakespeare expõe em Hamlet, como no restante de suas obras, as regras de ouro de uma cortesia de almas. Suas obras são, sem dúvidas, mais que um manual, a perfeita enciclopédia da cortesia, de uma cortesia essencial, que não muda com os modismos de nosso tempo. A atitude diante do outro é saber que nosso destino final é o mesmo, que ambos somos irmãos, filhos do Céu e da Terra. Que nossa peregrinação é a mesma, separadas ou não, nosso Ideal é o mesmo, pois se a natureza humana é uma, uma é a sua senda e uma a sua estrela. O fundamento da cortesia está em reconhecer, como faz Hamlet com Laertes, que na imagem da minha causa vejo o retrato da sua.
A chave para conhecer o próximo é conhecer a si mesmo. Entender e saber escutar os demais ajuda a entender a nós mesmos.
Conhecer bem um homem seria conhecer-se a si mesmo.
A desgraça dos homens, o que impede que mostremos o que alenta nossa alma é que sabemos o que somos, mas não sabemos o que podemos chegar a ser. Não devemos nos compadecer de nós mesmos, mas sim, deixar que as lágrimas ardentes caiam sobre o coração e que nele permaneçam sem secar, até que se desvaneça a causa que as gerou. Estar atentos ao ensinamento que a dor nos traz:
“não te compadeças de mim! Somente preste atenção ao que vou revelar-te.”
Shakespeare, em Hamlet, apresenta a vida como um cenário de teatro, ao qual chegamos com uma nova personalidade: cada ator chegou montado em seu burrinho. Também o drama da vida, o teatro da existência é o anel onde nossa Alma, o rei que vive em nós, fica presa e deslumbrada:
“O drama é o laço com o qual prenderei a consciência do rei.”
O problema de Hamlet é o atraso na ação quando a escolha já está feita.
“O mundo está fora do eixo! Oh sorte maldita… Que tenha eu nascido para colocá-lo em ordem!”
Esta é a afirmação que todos nós deveríamos fazer, pois de certo modo, cada homem é o centro do mundo, o eixo de seu próprio universo. Todos deveríamos, como Hamlet, reconhecer a força que pode erguer nossas almas, direcionar nossos rumos e proclamar com ele: Meu destino me chama aos gritos e torna a fibra mais tenra de meu corpo tão robusta como os nervos do Leão de Nemea.
Só assim (parafraseando Shakespeare) poderemos tocar nossa alma, conhecer todos os seus registros, arrancar-lhe o mais íntimo dos segredos, examiná-la, fazendo-a emitir desde a nota mais grave até a mais aguda; havendo nela tanta abundância de música e tão excelente voz.

Nota: Todas as citações são de Hamlet, de William Shakespeare.