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HIPÁTIA DE ALEXANDRIA

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Pouco pôde ser resgatado sobre sua vida e obras, mas em meio às cinzas pode-se entrever a grandeza de quem manteve acessa a chama do saber e do mundo antigo.
Existem grandes personagens da história da humanidade que foram esquecidos durante muito tempo pela ciência oficial, ainda quando muitos deles desempenharam um papel relevante em seu momento histórico. Através do estudo de sua obra e pensamento, esses pilares fundamentais da história podem constituir exemplos de vida para o homem moderno. Hipátia de Alexandria é um desses personagens importantes, porém desconhecidos da maior parte das pessoas. Na realidade, não foi até a época do Iluminismo, século XVIII, quando foi despertado o interesse em conhecer sua vida. Sem dúvida, a escassez de fontes históricas e o desaparecimento de todas as obras de Hipátia, tornam difíceis obter uma clara exposição de sua biografia.
As incertezas em torno da vida desta grande mulher começam em quando datar seu nascimento. A opinião mais propagada é que nasceu na famosa cidade de Alexandria, em torno de 370-375. Filha do matemático e filósofo Teón, recebeu uma excelente educação desde tenra juventude. Com o tempo, Hipátia se converteu na colaboradora mais direta de seu pai. Começou a dar aulas de filosofia, matemática e astronomia e dizem que chegou a superar Teón em conhecimentos. Conta-se que Hipátia vestia-se com a capa de filósofo, que ensinava sobre Platão, Aristóteles e Plotino e chegou a ser diretora da escola neoplatônica de Alexandria. A esse respeito, Sócrates Escolástico assinala: “alcançou tais alturas de erudição que superou a todos os filósofos da época, continuou a escola platônica derivada de Plotino e lecinou sobre todos os ramos de filosofia a quem desejasse escutá-la”.
Apesar de não se conservarem títulos das obras filosóficas de Hipátia, sobreviveu informação sobre seus escritos matemáticos e astronômicos. Segundo a enciclopédia Suda, Hipátia foi autora de um comentário da Aritmética de Diofanto, um Cânone Astronômico (comentário a Almagesto de Tolomeu) e um comentário sobre as Teorias Cônicas de Apolônio de Pérgamo, matemático grego do século III que realizou numerosas teorias sobre as cônicas. Os trabalhos de Hipátia referem-se principalmente ao problema de médias superfícies cônicas, técnica imprescindível no campo da astronomia. Também atribui-se à Hipátia a construção, junto com seu discípulo Sinésio, de um astrolábio (utilizado na observação de corpos celestes) e de um hidroscópio, instrumento que poderia servir para medir os pesos de líquidos, embora seja desconhecida sua verdadeira natureza.
Além de sábia, diz-se que Hipátia era uma mulher extremamente bela, que sempre se comportava com moderação, praticava o ascetismo na vida cotidiana e mantinha compostura e decência em todas as situações.
Nos tempos de Hipátia, a cidade de Alexandria, admirada universalmente e terceira cidade do império por seu número de habitantes, começava a perder seu antigo esplendor. O Museu de Alexandria, que chegou a constituir o maior centro de estudos da antiguidade, havia perdido sua preeminência e a cidade contava com escolas diferentes para cristão, pagãos e judeus.
A crescente Igreja cristã estava consolidando seu poder e tentando extirpar a influência e cultura pagã. No século IV o episcopado de Alexandria havia chegado a ser baluarte do cristianismo graças ao bispo Atanásio, e seu sucessor Teófilo.
O patriarca Teófilo fui autorizado pelo imperador Teodósio a demolir os templos pagãos da cidade. Em 391/392, Teófilo em companhia de uma multidão fanática, de monges e ex-legionários conhecidos como parabolanos, derrubaram um dos templos mais importantes do culto pagão de então, o Templo de Serafis.
Nesse lugar funcionava o Museu e o que havia sobrado da biblioteca de Alexandria. A raiz da queda de Serapeu, filósofos e professores do Museu abandonaram a cidade. Teón, o pai de Hipátia, morreu pouco tempo depois, talvez por desgosto.
Apesar das circunstâncias, Hipátia seguiu ensinando filosofia e ciências. Reunia-se em casa com seus alunos e parece que seus ensinamentos atraíam um considerável número de discípulos.
A fonte mais importante a este respeito é a correspondência de um de seus discípulos, Sinésio de Cirene, que chegaria a ser bispo de Tolemaida. Sinério deve ter estudado na escola de Hipátia de 390-393 até 395-396.
Logo regressou à Alexandria em várias ocasiões e seus contatos com Hipátia nunca cessaram mantendo sempre o respeito e admiração por ela. Em suas cartas, Sinésio se refere a ela como mãe, irmã, mestra e benfeitora em tudo. Hipátia irradia conhecimentos e prudência derivados do divino Platão e de Plotino, seu sucessor.
Seus discípulos se consideram prediletos da Fortuna, e jubilosos a rodeiam, como membros de um coro rodeando seu diretor. Em uma carta dirigida ao seu irmão Euoptio, que também era discípulo e Hipátia, Sinésio pede que transmita suas saudações ao “afortunado coro que desfruta de suas palavras oraculares” ou mais precisamente “com sua voz divinamente doce”. “A filósofa mais venerável, Hipátia, amada dos deuses”.
Os discípulos de Hipátia referem-se uns aos outros pelo termo hetaroi que quer dizer, companheiros. Muitos deles eram cristãos, o que demonstra o caráter eclético de seus ensinamentos, que não confrontavam o cristianismo. De fato, a maior parte de seus discípulos chegou a desempenhar cargos importantes imperais ou eclesiásticos. Todo aquele que desejava estudar filosofia acudia a Hipátia, de qualquer parte, e isso demonstra a diversidade de lugares de origem de seus discípulos (Cirene, Síria, Tebaída, Alexandria e a capital do Império). Um de seus ouvintes era Orestes, o prefeito imperial de Alexandria, governador do Egito.
Os problemas de Hipátia começaram com a morte de Teófilo e a eleição de seu sobrinho Cirilo, como seu sucessor, em 412. Embora atualmente, seja conhecido como São Cirilo, seus contemporâneos afirmaram que era um homem impetuoso e ávido de poder.
O novo bispo começou com uma batalha pela pureza da fé: expulsou os judeus da cidade. Assim mesmo, sua eleição trouxe consigo uma ampliação do poder episcopal nos assuntos públicos, o que deu lugar a numerosos enfretamentos com o governador Orestes.
Hipátia estava no epicentro de lutas pelo poder entre a autoridade imperial e o poder eclesiástico. Sua influência e amizade com funcionários imperiais e hierarquias da igreja se estendia até Constantinopla, Síria e Cirene, o que preocupava Cirilo e seus seguidores.
Começou a se difundir um rumor que Hipátia era o principal obstáculo para a reconciliação entre o bispo e o prefeito. A célebre filósofa era na realidade uma mensageira abominável do inferno “consagrada em todo momento à magia, aos astrolábios e aos instrumentos musicais” e seduzia muitas pessoas mediante suas artes satânicas. Como conseqüência de seu encantamento, Orestes havia deixado de ir à missa, animava os crentes a visitar Hipátia e ele mesmo recebia os não crentes em sua casa.
Esta série de rumores caluniosos culminou com o assassinato de Hipátia pelas mãos de uma multidão formada de cristãos fanáticos e parabolanos, em março de 415. Sócrates Escolástico descreve o ocorrido do seguinte modo: “Alguns deles, cujo cabeça era um mestre chamado Pedro, correram com toda pressa impelidos por um ardor selvagem e fanático, a tomaram quando voltava de casa, tiraram-na de seu carro e a levaram para a igreja chamada de Cesarion, onde a despiram completamente e a mataram com pedaços de telhas. Depois de esquartejar seu corpo levaram os pedaços ao Cenarion e ali o queimaram.
Orestes comunicou o assassinato e solicitou a Roma que se iniciasse uma investigação. Mas esta se adiou repetidas vezes por falta de testemunhas. Depois disso, provavelmente Orestes foi destituído ou renunciou a seu cargo, em todo caso não se voltou a ter notícias suas. Enquanto Cirilo, não se sabe com certeza se chegou a ordenar diretamente o assassinato de Hipátia, mas sem dúvida criou o clima político que tornou possível tantos feitos atrozes.
Em virtude do acontecido, não é de surpreender a escassez de fontes históricas que façam referência à vida de Hipátia. A partir do século IV, os historiadores cristãos alcançaram a supremacia e encobriram durante muito tempo delitos cometidos pela igreja e seu credo, como o assassinato de Hipátia.
Apesar do grave perigo que corria em um mundo onde a ignorância começava a ser vista como virtude, Hipátia continuou ensinando a doutrina de grandes filósofos da antiguidade e os avanços que a ciência alexandrina havia conseguido até aquele momento. Assim, a história, mais uma vez, nos dá uma grande escolha através da vida e da morte de Hipátia de Alexandria. De sua vida, nos dá um exemplo de beleza, virtude e sabedoria, e de sua morte, a necessidade de sair da ignorância para não cometermos os mesmos erros mais uma vez.