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MERGULHO NA HISTÓRIA – CINZAS

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Surjo do fundo de uma tumba etrusca, da tumba de uma mulher. Sou pequena, mas suficiente para conter suas cinzas.
Nada vos direi dela, de quem foi quando vivia na cidade de Bolsena. Não importa. Era poderosa, ou do contrário, não estaria instalada num túmulo para sua vida eterna. Era rica, porque a fizeram de prata. Deve ter sido charmosa; amada por quem dispôs suas honras fúnebres…
Não sei nada sobre ela, mas guardo suas cinzas até que eu mesma seja destruída pelo tempo, ou pela fúria das guerras, ou pela apatia dos homens. Entretanto, dormem em mim.
Tenho sempre pensado nelas. Nas relíquias. No mistério que englobam. Como, em tão leves, sutis restos, guarda-se a grandeza de um corpo humano. Que esta areia escura fora uma mente que pensava, um coração que amava, olhos que viam, uma boca que sorria.
Só cinzas agora. Em tão pequeno espaço.
Cinzas, sim, mas do ser amado. Como disse um grande poeta:
… pó serei, mas pó apaixonado.
São suas cinzas. O que fica dela e dele. Diante de nós, as urnas cinerárias, de barro, de ouro, vós, humanos, rezam e choram os vossos mortos. Honrai-nos. Colocai flores e perfumes. Pensai que são mais bonitas as cinzas dos que os tristes ossos, tão explícitos…
Sim: esse é o segredo. O que nós guardamos não tem aspecto de morte, e vós, humanos, a temeis. A pálida dama. Vossas histórias de mortos estão cheias de ameaçadores esqueletos, nunca de cinzas.
As cinzas não são morte: são purificação. E assim, puros, quase imateriais, vossos seres amados dormem perto de vós, em maravilhosos recipientes, talvez perto dos lugares que mais amaram.
Ou talvez tenham sido devolvidos ao mar, que em vida navegaram e sejam agora parte das ondas. Ou ao vento dos campos que caminharam, e sejam raízes de árvores centenárias.
Minha dama da Etrúria, não. Ela dorme em meu pequeno espaço de prata. Ela cruza, leve, os milênios. Quem sabe, se abrirem minha tampa e houver vento, escape para o Sol, para buscar sua alma e unir-se de novo com ela no infinito.