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O Mistério dos Nomes no Antigo Egito

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A essência das coisas ou dos seres é sua raiz misteriosa, sua identidade, seu verdadeiro nome.

Fernando Schwarz

O mistério do Ser: Nome e Potência

Helena Blavatsky resgatou do Oriente um ensinamento chamado teoria do impacto. Esta teoria parte da idéia que a consciência não pode chegar a existir senão através do cruzamento de pelo menos duas dimensões ou planos diferentes da existência. Em uma só dimensão não há contraste, não existe a relação sujeito-objeto e a consciência humana, que é dual, não conseguiria se expressar. Compreendemos a luz por meio da obscuridade, o calor por meio do frio, etc.

Portanto, a consciência humana nasce do impacto entre dois planos da realidade. É no coração desse impacto onde surge e vive a consciência. Em um só plano ou dimensão não se podem estabelecer as relações de sujeito e objeto que ela necessita para compreender e ser. Graças aos múltiplos impactos que se produzem em seu movimento, a consciência se transforma. O nível de consciência dependerá dos planos que se cruzem.

Se um plano é de cor amarela e o outro vermelho, surgirá uma consciência de cor laranja que inclui uma e outra cor, criando uma síntese que reflete indiretamente a realidade dos dois planos. A consciência humana não consegue captar a realidade em si. É impossível para a consciência chegar como tal a unidade, que consiste na fusão ou reintegração a Origem, onde desaparece a dualidade sujeito-objeto.

Os egípcios pensavam que a Alma humana, uma vez purificada e justificada no Juízo do coração, na Balança de Maat, devia conquistar sua divinização, ou seja, renascer como um Akh, ou Alma espiritual. Com isso representavam a liberação da condição humana do defunto, que passa a formar parte dos seguidores de Rá, o dispensador de Luz, o pai da Alma. A última prova ou transformação, a da fusão, a reintegração da luz divina da Alma na Luz original de Atum-Rá, é então possível. A alma renasce como Sahu.

A combinação de Sa e de Hou (Sahu) permite atuar magicamente: que a palavra se transforme em poder, que o nomeado se transforme em ato. Sahu é o máximo poder das transformações. Sua atualização na alma humana permite a fusão, e no Demiurgo, a criação e sua conservação, que é a obra de Rá.

Hou (Hu) e Sa (Sia) são duas personificações indispensáveis das potências divinas. Sa é a inteligência, o piloto da proa da barca de Rá, o que assinala a direção. Hu é o piloto da popa, aquele que tem o timão, o que transmite à tripulação as indicações de Sa, a substância, a essência da palavra ou a potência do verbo. Hu coloca em ação o pensamento através da substância, transmite e manifesta a inteligência criadora e a vontade do piloto, que sem o Verbo não pode atuar.

Estes dois componentes, que indicam a bipolaridade da alma, formam a denominação do aspecto mais sutil ou espiritual dos componentes da constituição humana, o Sa-Hu. Seu hieróglifo é o nó que fixa o homem à sua natureza divina. É o fluido magnético que integra todos os componentes da personalidade humana e ao mesmo tempo dá vida à barca de Rá. Sem seus dois pilotos, a barca não se move e não pode atuar com inteligência, nem navegar livremente no fluxo da vida.

A Teoria do Impacto

Os egípcios teriam utilizado a teoria do impacto ao explicar os diferentes renascimentos e o itinerário da ascensão da alma até sua origem. No Livro dos Mortos, o defunto atravessa os diferentes planos do Universo. Cada vez que consegue cruzar um deles, renasce em uma nova consciência que aparece como um novo veículo. Os impactos que recebe a Alma ao cruzar estes planos são as transformações ou renascimentos, personificados pelos diferentes egos ou veículos de consciência.

A consciência, para o egípcio, corresponde ao elemento que está se transformando (Kheper). É o Misterioso de muitas formas, que nunca é conhecido totalmente, e que na medida em que se aperfeiçoa, envolve-se em novas vestimentas ou formas. O defunto representa a própria identidade do ser, que corresponde à Mônada, a Unidade que atravessa matéria e espírito. Modificando-se constantemente e se identificando com as duas qualidades do Ser, que são o Nome e a Potência, Ren e Sekhem.

O peregrino que evolui é o chamado defunto. Porém com esta denominação não se nomeia simplesmente o personagem terrestre que morreu, mas aquele que guarda, por um lado, o Mistério do seu Nome, e por outro, a potência dos seus múltiplos renascimentos possíveis, tanto na Terra como no Céu. O defunto tem dois aspectos que refletem sua dualidade primordial e que atuam conjuntamente: o nome, Ren e a potência, Sekhem. É o que os orientais chamam Atma e Budhi. Não se trata de dois planos separados, mas justamente do impacto que se produz entre os dois. E esta é, segundo a tradição egípcia e hindu, a raiz do Ser.

O nome secreto

Tomemos o exemplo do impacto do grão com a terra. Quando se produz o impacto ou inter-relação entre a terra e a semente, nasce a planta, que não é semente nem terra. Ela representa a consciência que nasce do impacto entre a terra e a semente. A essência da semente, em contato com a substância da terra, produz uma nova potência, que é a planta. Graças ao impacto com a terra, a semente libera seu poder, que por sua vez a transforma e a faz renascer como planta.

A essência da semente é a raiz misteriosa, sua Identidade, seu verdadeiro Nome, que será sempre um mistério, porque a planta é somente a expressão ou personificação do seu poder, do seu Sekhem, uma forma. Uma vez terminado o ciclo de maturação, voltará a renascer produzindo novas sementes, multiplicando sua essência e seu mistério. O poder vai multiplicá-la como faz a espiga de trigo. Isto é o que se simbolizava no Egito com o rito da germinação no corpo da múmia das sementes de trigo celeste, na festa de Kohiak.

Ren (RN), o Nome, está constituído por dois hieróglifos: R (ro), que é a boca, o verbo, sobre N, hieróglifo do Noun, a água ondulada. O verbo faz surgir ou nascer a primeira vibração do Noun. A verdadeira identidade de Ren é o Verbo sobre as Águas, a boca de Rá sobre Noun, o instante que prepara a manifestação visível. O momento misterioso do qual nascem todas as coisas é o verdadeiro Nome.

Por extensão, Ren, o Nome, gerador de todo o poder, é também um estado vibratório. Conhecer o nome de um Deus ou de um homem é conhecer seu mistério. No Egito existia a noção sobre o Nome secreto ou interno, que somente era conhecido do Deus ou do Sahu que o envolve com seu laço. Quando se conquista o estado de Sahu, todos os componentes da personalidade humana se tornam uma unidade ativa que reflete o poder, Sekhem.

O Nome expressa a qualidade do que é cada coisa. Para as plantas e animais, uma qualidade genérica ou coletiva (a espécie). Para o homem, uma qualidade individual, o ser como indivíduo que se diferencia da espécie. Para os deuses, uma qualidade múltipla. Por isso os deuses podem estar simultaneamente em todos os lugares do Universo.

Cada vez que se recebe um nome, se passa previamente por um batismo, por uma purificação, seja na vida ao nascer ou na morte, através da passagem pelas diferentes fontes dos elementos. Estas purificações representam a capacidade do defunto de superar as provas dos elementos da existência. Na Terra, por exemplo, quando se unge o Faraó, ele é proclamado sob cinco novos Nomes.

O hieróglifo de Sekhem designa um cetro de mando, que pode estar associado ao remo ou timão, e outras vezes à clava que utiliza o Faraó para vencer as forças hostis que ameaçam a Unidade. O cetro Sekhem representa a coesão, a capacidade de expressar a unidade, a potência como unidade. Tem a capacidade de unir e tornar coesos diferentes componentes autônomos. É um agente que relaciona as coisas, que produz efetivamente as inter-relações.

A forma feminina de Sekhem é Sekhmet, a deusa leoa. A raiz da palavra é S-Kem, que significa o verbo queimar ou fazer queimar. Sekhmet é o fogo celeste, a esposa de Ptah, o fogo da Terra. Sua função é extrair o fogo subterrâneo das trevas para que se una à luz solar.

Todos os Neter (deuses) são forças sekhem: Re é uma força sekhem no Céu.

Sekhem não é só um poder do Nome, mas o lugar onde o Nome tem poder.

Sekhem é também, aparentemente, uma região no Céu. A finalidade da alma é chegar a um lugar que é sinônimo da potência incorpórea que é Sekhem. É ali onde vive Hórus. Os chefes de Sekhem são Hórus e Toth. Sekhem é o Lugar da Cerimônia dos Mistérios. Em Sekhem, Hórus toma posse da sua herança. Sekhem é o lugar do renascimento dos deuses.

No papiro de Nebseni, em Sekhem se produz a iluminação do mundo, pela luz irradiada do sarcófago de Osíris. A luz do sol se eleva do sarcófago como a alma que renasce no horizonte oriental, depois de todas as purificações. Entro em Sekhem e saio como um espírito puro. (Livro dos Mortos, LXIV, 29)

Bibliografia

– Livre dês morts. Traduzido ao francês por Paul Pierret. Ed. Ernest Leru, Paris, 1882.

– El Livro de los Muertos, Ed. José Llanes. Barcelona, 1953.