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O MUNDO VISIGODO

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Entre romanos e árabes, os grandes conhecidos, existe na Espanha um povo, uma civilização praticamente ignorada, fora do âmbito dos estudiosos da história: os visigodos. Salvo dois ou três feitos chave, poucos poderiam falar dessa cultura, sem dúvida fundamental.
Podemos destacar a origem do povo godo em Scândia, a atual Gotaland na Suécia. Depois, é localizado em Elblag, na Polônia, e logo no vale médio de Vístula. Dali se ramificam por toda a Europa. A partir do século IV, ficam divididos fundamentalmente em visigodos e ostrogodos, ocidentais e orientais. Constantino lhes concede o status de federados. Seu sucessor, Valente, trata-os pior, motivo pelo qual é assassinado, e suas tropas, derrotadas em Adrianópolis; Teodósio, depois disso, renova-lhes o status. No ano 410, em união com os escravos bárbaros, que viviam em Roma, saqueiam-na e põem fim à sua hegemonia. Um ano antes estavam estabelecidos em Gallaecia de Hispânia, e anteriormente nunca faltaram as tentativas de estabelecer alianças, inclusive matrimoniais, como no caso de Ataulfo com Gala Placídia, filha de Teodósio e irmã de Honório, na ocasião sua refém.
Convertidos os francos ao catolicismo em 496, as lutas contra os visigodos arianos são contínuas. Em batalha perto de Poitiers, os visigodos são derrotados e morre Alarico II, com que se vêem obrigados a abandonar a Aquitânia e fugir para o sul, através dos Pirineus, até a Hispânia.
Teudis, eleito rei, deseja criar um reino na Península, e faz a capital em Barcino; após sua morte, seu sucessor Átila a transporta a Hispalis, Sevilha, não sem contínuas rebeliões dos hispano-romanos. E depois e definitivamente, a Toletum.
É preciso omitir o longo desfile de reis, subidas ao trono, destituições e mortes; a crônica de Fredegário nos fala de Morbus Gothorum, a doença dos godos: uma espécie de monomania, de poder que esse povo tem de ir abrindo espaço até o trono, matando o que houvesse no caminho; filhos, pais, irmãos e primos caíam como galhos derrubados. Só grandes reis souberam perdurar. Os sucessivos concílios trataram de estabelecer uma firme hierarquia hereditária, mas as intrigas dos nobres não deixaram isso ser possível; e com isso chega a possibilidade de uma invasão muçulmana da península. O penúltimo rei godo, Witiza, nomeia sucessor seu filho Áquila, mas uma grande parte da nobreza proclama um dos seus, Rodrigo. Os partidários do herdeiro chamam para ajudá-los os bereberes africanos, enquanto Rodrigo está ao norte da Espanha. Há uma pequena resistência: em 711, no rio Guadalete, o mundo visigodo termina.
Fortemente romanizada, a legislação visigoda foi uma conservação da romana, constituída de dez sistemas legislativos magistrais:
O Código Teodosiano, legislação romana tardia, unificando todas as leis existentes; as Novellae, adicionadas às anteriores; o Codex Eurici, que passa do direito ordinário alemão à lei escrita; o Breviarum Alarici, que percorre e amplia o Codex Theodosianus, a Lex Theudi Regis, leis processuais; a Lex Visigothorum, obra definitiva da legislação visigoda. O resto são atas conciliares, fórmulas de direito, etc.
A sucessão ao trono é um problema constante; ainda que geralmente se elegesse dentro de uma única linhagem, o novo rei devia ser aceito pela aristocracia goda. Por meio de pactos com os romanos, confirmam sua suprema autoridade entre seu povo. A regulação da linha sucessora se estabelece no Concílio de Toledo, em 633, sacralizando o poder. O Salão Real se integra por uma série de nobres a serviço do rei: maiores palatii, seniori, optimati e primi, com cargos, e os homens da nobreza, só militares. O resto da corte era composta pelos viris ilustres, os comitês e o dux. Os comitês, transformados na Idade Média em condes, têm diferentes funções: O comes thesauriorum para a tesouraria, o comes patrimonii para a administração, o comes spatariorum para a guarda pessoal, etc. O dux provinciae chegou ao máximo mando militar, unido à administração de sua província. Muitos nobres romanos ascenderam a esse cargo. Abaixo do dux está o comes civitatis, administrador da justiça.
Na estrutura do exército também se pode ver como o mundo visigodo assimilou o romano. A unidade fundamental era a thiufa, no comando do thiufado. Constitui-se como força defensiva da monarquia, com exércitos privados que compõem o real com suas tropas mercenárias.
Quase conjuntamente com o exército, a Igreja teve um papel decisivo na Hispânia dos séculos VI e VII, sobretudo a partir do III Concílio de Toledo, em que Recaredo realiza a unificação religiosa. Aos Concílios termina por trasladar-se grande parte da atividade legislativa. Como é prerrogativa do rei nomear bispos, a conformação como assembléia política se configura cada vez mais. À medida que isso cresce, a relação com Roma vai se esfriando. A isso se conjuga o enorme poder econômico que tem, ao possuir extensas e ricas terras, propriedades inalienáveis com status de feudo.
Desde os primeiros momentos houve fatores que marcaram as diferenças entre os dois povos que conviviam na Espanha, godos e hispano-romanos, mas logo foram se apagando. O principal foi o religioso: catolicismo contra arianismo. Na chegada dos bárbaros, a religião oficial na Espanha era a católica, com influências pagãs e um certo número de judeus. Os povos bárbaros, exceto os povos pagãos, eram arianos, que negam a Tríade. Nos primeiros momentos houve clara oposição entre ambos os grupos. Depois, Leovigildo tentou a unificação, coisa que Recaredo conquista.
Outro problema foi a repartição de terras: aos godos se outorgaram dois terços, e um terço ficou para os hispano-romanos, segundo o chamado Contrato de Hospitalidade, que não afetou a aristocracia nem as pequenas propriedades.
Manteve-se sempre a particularidade do povo basco, ao norte. Sempre foi muito pouco receptivo aos romanos. Desse povo tem-se a conservação de sua língua e a continuidade das práticas de sua própria e ancestral religião. Permaneceu independente ao longo de todo o reino visigodo, exceto Victoriacum, fundada por Leovigildo, talvez a atual Vitória. Os bascos mantiveram lutas freqüentes, mas em nenhum momento foram subjugados. Ao contrário, suas ásperas montanhas foram refúgio de rebeldes. Supõe-se que formaram os maiores grupos bagaudas e bandidos de estradas, sempre em ataques aos destacamentos visigodos.
A cidade se fecha cada vez mais em si mesma, em um espaço intramuros; aos edifícios administrativos e públicos se acrescentam as igrejas e seus anexos, após a chegada do cristianismo. Aparecem também tumbas perto delas, apesar da proibição de sepultar em núcleos urbanos, costume que na Idade Média cobrar-se-á cada vez mais. Crescem também as áreas martiriais, dedicadas ao culto dos santos mártires.
A principal das cidades é, naturalmente, a capital, Toletum. Situa-se em um ponto defensivo natural sobre uma colina rochosa que banha o Tajo, e cujas várzeas são excelentes zonas de caças, horticultura e pastoreio. Durante o século VI, com a presença da Corte, sofre importantes remodelações, sobretudo quanto à criação de centros de culto. Deve ter existido um povoamento romano, com um circo, templos e povoados, mas deles temos poucos testemunhos, sobretudo devido ao povo seguinte, muçulmano, que reestruturou por completo os espaços urbanos.
Sobre esses espaços podemos falar das construções arquitetônicas. Em primeiro lugar, encontramos os de tradição paleocristã, que perdurará até o século VII. Em segundo lugar, a hispanovisigoda, que a partir desse século aportará uma série de inovações: diversos planejamentos e ornamentação por esculturas, sobretudo na área de influência das oficinas de Toledo. A escultura parece corresponder aos séculos VI e VII, com centros artesanais em Bética, Lusitânia, Mérida e Toledo. Mas um comentário sobre isso seria muito amplo, e disto pouparemos o leitor.
Sabemos também que a medicina estava bastante avançada, conforme podemos ler nas Etimologias do sábio São Isidoro de Sevilha, gigante da sabedoria visigoda. Diz que os médicos aprendiam gramática para poder compreender o que se lê, dialética para poder discutir suas idéias, geometria, música e astronomia. Ordena-se que médicos percorram a cidade, ajudem qualquer doente que encontrem e levem-nos aos hospitais (chamados de xenodocium), ponham-nos em leitos e preparem remédios apropriados.
As escavações em cemitérios proporcionam o dado de que a população sofria de insuficiências alimentícias: cáries, piorréia, cálculo, falta de flúor, osteoporose e osteopatias em geral, o que indica uma educação alimentar muito deficiente. O índice de mortalidade, sobretudo infantil, era muito alto, e poucos superavam os 50 anos.
Oferecemos um percurso sobre uma parte do mundo de nossos ancestrais visigodos, talvez um tanto desconhecidos entre os próprios espanhóis, esmagados entre romanos e árabes, com seus apenas duzentos anos de existência. Mas estiveram aí, deixaram uma pegada indelével, e dela quis oferecer-lhes tão somente um passo em seu caminhar.

Breve cronologia da Espanha visigoda
* 415 Os visigodos penetram na Hispânia; instalacão de Ataúlfo em Barcino.
* 416 Valia assina com Honório um tratado foederati pelo qual se compromete a liberar a Hispânia dos germanos, que a haviam invadido em 409.
* Iniciam-se campanhas sistemáticas contra vândalos silingos, álanos y suevos.
* 418 Valia assina um novo tratado com Roma, pelo qual os visigodos podem se estabelecer como federados em Aquitânia, instalando sua capital em Tolosa.
* 466-484 Reinado de Eurico, que de Tolosa afiança as conquistas visigodas, incorporando de fato a Tarraconense a seus domínios para aproveitar o afundamento definitivo do Império do Ocidente.
* 497-507 Pressão de francos e borgonheses sobre o reino de Tolosa.
* 507 Batalha de Vouillé, que supõe o afundamento do reino tolosano, após o qual ficam reduzidos os visigodos a seus domínios na península ibérica e no reino de Arles (Septimânia, etc.).
* 531 Inicia-se, de fato, o reino visigodo de Espanha, ao trasladar a capital do reino de Arles e Narbona a Barcelona.
* 561 Atanagildo traslada a capital para Toledo.
* Começa a ocupacão pelos bizantinos do litoral mediterrâneo y atlântico, desde Alicante até Algarve, junto com as Baleares. Inicia-se o reinado de Leovigildo.
Cronologia dos monarcas germanos em Hispania até a unificacão de Leovigildo
Reino Visigodo
Ataúlfo = 410-415
Sigérico = 415
Valia = 415-418
Teodoredo =418-451
Turismundo = 451-453
Teodorico I = 453-466
Eurico = 466-484
Alarico II = 484-507
Gesaleico = 507-510
Teodorico II = 511-526
Amalarico = (511) 526-531
Teudis = 531-548
Teudiselo = 548-549
Ágila = 549-554
Atanagildo = 554-567
Liuva I = 567? ó 568?-m. 572
Leovigildo = 568? ó 569?-586
Reino suevo
Hermerico = 409-441
Rekhila = 441-448
Rekhiario = 448-457
Maldras = 457-460
Remismundo = 460-469
Karriarico = Alrededor de 550
Teodomiro = 559-570
Miro = 570-583
Eborico = 583-584
Andeca = 584-585
Os grupos raciais na época dos visigodos
As distinções raciais da Hispânia visigoda podem resumir-se nos seguintes grupos:
1.Povoação hispano-romana. Núcleo fundamental, majoritário numericamente e estendido por toda a península.
2.Núcleo germânico. Minoria não fundida com os nativos, mas mesclada com eles e de fato dividida em dois grupos principais:
a) No noroeste peninsular, os suevos (com pequenos núcleos de vândalos e álanos).
b) Na maior parte da península, os visigodos, disseminados por quase todos os territórios peninsulares (com exceção, até Leovigildo, da zona anteriormente mencionada e, assim mesmo, de Vascônia e – parece – da região de difícil localizacão conhecida como Oróspeda).
3. Núcleo hebreu. Os grupos judeus constituíam minorias ativas (com freqüência discriminadas), instaladas fundamentalmente nas cidades.
4. Outros núcleos minoritários orientais e africanos. Em especial, a partir do expansionismo imperialista justiniano (coincidindo, portanto, com o período de instalacão política bizantina em determinadas zonas peninsulares) se instalaram diversos núcleos de sírios, africanos e súditos bizantinos no sudeste peninsular.

Notas sobre a demografia da Hispânia na época visigoda
Não é possível efetuar um cálculo da povoação da península ibérica durante a época de predomínio visigodo. De acordo com avaliações aproximadas, pode-se inferir que em meados do século V as realidades demográficas, ao consolidar-se a instalacão visigoda, seriam as seguintes:
7.000.000 de hispano-romanos.
200.000 visigodos e assemelhados.
É presumível que o povo da península aumentou ao longo dos três séculos de predomínio visigodo, devido a uma série de fatores de relativa estabilidade, que podiam ajudar a tal fenomenologia. Não obstante, o crescimento dessa população deve ter sido relativamente reduzido.
Ao estabelecer-se nas Gálias, os visigodos eram aproximadamente 100.000, duplicando-se posteriormente (ao longo do século V) seu número, não só pelo aumento lógico de seus próprios efetivos, senão pela incorporação de outros núcleos de germanos, especialmente ostrogodos.
Carecemos, por outro lado, de cifras exatas relativas aos efetivos da população representada pelos suevos (núcleos de maior persistência na península) e os restantes invasores germanos. Como referência aproximada a respeito da importância dos ditos contingentes, tem-se calculado que os vândalos e álanos (que emigraram para a África após uma breve permanência na península) eram uns 80.000.