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O Reino da Alegria

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Lendo uns versos da ópera Tannhäuser de Wagner, encontrei uma frase que me chamou poderosamente a atenção: “Um raio de esplendor novo e inusitado ilumina minha alma. Oh, Alegria, te reconheço; és Ela!”

Perguntei-me, então: O que significa alegria? E por que os músicos mais famosos dedicam a ela suas melhores obras?
Busquei entre meus amigos livros que respondessem à minha pergunta: o que é a alegria?
Há vários anos, Sêneca dizia: “as pessoas utilizam a palavra alegria para expressar contento por situações triviais que terminam por ser o princípio de futuras tristezas, mas a verdadeira alegria só se pode sentir ao adquirir sabedoria. Apenas o sábio, sorridente, sereno e inabalável frente às circunstâncias, é o homem pleno de alegria; pois vive no mesmo nível que os deuses, já que a alegria só pode nascer da consciência das próprias virtudes”.
Geoffrey Hodson, escritor mais contemporâneo, ensinou que “o reino da alegria está em nós quando conseguimos que nossa parte humana esteja em harmonia com a nossa parte espiritual, que é possuidora das virtudes. Por esse caminho se conhece a sabedoria, que em essência, é o que unifica todas as coisas. E no reino da alegria a Unidade é a Lei fundamental”.
Neste reino governado pela alegria, moram os ideais universais, a essência que nos chega de Deus. E a partir do momento em que o homem aspira esse perfume, nasce um sistema filosófico, para que o mundo superior e espiritual possa se harmonizar com o inferior.
As almas sentem alegria ao saber que Deus está próximo delas, e o homem adquire a coragem necessária para seguir, a cada instante, com o heroísmo da vida cotidiana.
Foi através de Mario Roso de Luna que compreendi por que os maiores músicos dedicaram suas obras à alegria. Conta que Beethoven, depois de uma vida plena de amarguras, ingratidões, sofrimentos e solidão, conseguiu sobrepor-se a tudo e alcançou o céu da arte, onde tudo é felicidade e harmonia. Quando a surdez o isolou do mundo exterior, superou divinizado a “região das águias”, remontou ao mais alto e lançou do alto seu canto de amor à humanidade dos tempos futuros. O hino imortal à alegria transcendente, o mais belo resplendor dos deuses: a Nona Sinfonia.
Dizem os biógrafos que, depois de compô-la, estava transfigurado e rejuvenescido. Havia bebido, na taça dos deuses, o sagrado licor que dá a imortalidade!
Schiller, o poeta, depois de, tal qual Beethoven, conhecer as tristezas e alegrias, escreveu as estrofes imortais do seu Hino à Alegria, cujo verdadeiro título é A Voluptuosidade, no mais puro sentido da palavra e não no sentido degradado que hoje se aplica. E sobre este ponto, Roso de Luna nos esclarece que, ainda que hoje voluptuosidade signifique algo débil, brando, sensual, libidinoso e lascivo, na antiguidade era muito mais que a alegria ordinária, era a alegria transcendente e pura, aquela da qual os clássicos diziam que era personificada como uma deusa casta e pura, nascida do ósculo divino da alma humana, no seu ego superior, chispa da grande chama da divindade ou Logos.
Em tal sentido, único verdadeiro, equivale à emoção transcendente; mais que alegria singela, elevação sobre-humana da alma, deleite divino, êxtase, amor supra-sensível e místico, compenetração íntima da divindade que está latente em nós.
Beethoven e Schiller, como todos os grandes mestres, como todos que conheceram a Alegria, não nos dão outra mensagem que a da fraternidade universal.
Tannhäuser é a alma viajante que, prisioneira neste mundo, aspira a outro mundo superior, celeste, um mundo que conhece porque viveu e recordou sua estada no palácio de Vênus, a deusa do sublime amor.
Este palácio se habita espiritualmente e tem o mesmo significado que o Devachán dos hindus, o Amenti dos egípcios e o Céu dos cristãos.
A alma humana, quando se vê forçada pela cíclica lei natural a descer e deixar a região de Vênus, apresentando-se uma vez mais à “existência”, busca na terra sua projeção ideal.
Por isso, Tannhäuser, em uma de suas canções, nos diz: “Oh, pobres mortais, que nunca conhecestes o amor!”. De fato, apenas alguém que, como ele, gozou um tempo de delícias transcendentais do Palácio de Vênus pode compreender o quanto caímos no mundo material que habitamos.
Precisamos recordar, além disso, que o Amor (Eros) é esse gênio alado que acompanha sempre a Vênus porque nasceu no mesmo dia que ela e lhe serve de escudeiro e mensageiro. Vênus, por ser divina, não pode descer à terra, mas Eros, por ser ao mesmo tempo mortal e imortal, pode subir e descer. O amor é, então, o mediador entre os deuses e os homens. É o amor que une os opostos e faz com que nasça a harmonia e o equilíbrio.
É o amor a força universal de atração, produtora e regeneradora de todas as coisas, é o laço, a conexão, o mediador e o enlace que os antigos sábios gregos vinculavam à filosofia (amor à sabedoria), que tratava de abranger a pluralidade das coisas e fatos, para enquadrá-los e integrá-los em uma compreensão unificadora. Por estes atributos, compreende-se que Eros seja visto como patrocinador desse amor à sabedoria, desse desejo insaciável de relacionar todas as coisas e chegar a conhecê-las.
Só me cabe dizer que um sentimento de gratidão me embarga por todos os mestres da humanidade, que nos ensinam e nos fazem partícipes da beleza, e com sua música nos elevam até esse reino da alegria para compartilhar conosco a grande união das almas, a fraternidade universal.

 

Canção à Alegria
Poema: Friedrich Von Schiller

Ó amigos, não mais estes sons!
Deixem-nos cantar canções mais alegres
mais cheias de alegria!

Alegria, centelha luminosa da divindade,
Filha de Elêusis,
Fogo inspirador, nós pisamos
Teu santuário.
Tua força mágica reconcilia
Tudo que o hábito tem dividido,
Todos os homens tornam-se irmãos
Sobre o agitar de tuas asas gentis.

Entretanto, tens criado
Uma inabalável amizade,
Ou tens adquirido
Uma verdadeira e amável esposa,
Tudo a que pode enfim chamar uma alma
Junte-se em nossa canção de louvor;
Mas ninguém deverá rastejar-se lacrimoso
Fora do nosso círculo.

Todas as criatura, embriagadas de alegria,
No seio da natureza.
Justo ou injustamente
Sabor diferente de seu presente
Ela nos deu beijos e as frutas das vinhas,
Um amigo de confiança no final.
Até mesmo os seres inferiores
Podem sentir contentamento,
E os anjos pararem ante a Deus!

Agradecidas, semelhantes aos corpos celestes
Aos quais Ele atacou seus trajetos
Através do esplendor do firmamento;
Assim, irmãos, vocês devem correr nas suas corridas,
Como um herói indo para a conquista.

Vocês, aos milhões, eu abraço.
Este beijo é para todo mundo!
Irmãos, acima da estrelada cobertura
Deve residir um Pai amoroso.
Aos milhões, vocês caem em adoração?
Mundo, você sabe quem é seu Criador?
Procure Ele nos Céus!
Acima das estrelas Ele deve morar.