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Os direitos humanos

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Não foi porque celebraram o 57º aniversário em dezembro passado que se enfraqueceram os ecos dos direitos humanos e sua decidida importância para o desenvolvimento da convivência.

Mas, uma vez mais, devemos enfrentar as incoerências da vida diária. Quanto mais se tenta focar os direitos – e os deveres – que todos temos, parecem surgir novas fórmulas que tendem a esmagá-los. Refiro-me neste caso à difamação.

Nos últimos tempos é habitual comprovar que, em todos os níveis, se emprega a difamação, mais ou menos sutil, para manchar a imagem de personagens de destaque. Com isso não pretendo converter em santos àqueles que não são, porém o mal é que, se continuarmos por essa via, ninguém será, não somente santo, mas nem sequer bons, e muito menos aceitáveis.

No plano político internacional os exemplos são tão abundantes, enchem tantas páginas de jornal, revistas, livros, ocupam tantas horas no rádio, no cinema e na televisão, que não vale à pena deter-se neles. Em poucas palavras: ninguém mais vale nada, sobretudo quando é um enfrentamento com um adversário em termos de idéias e posições políticas.

Assombrou-me ver que a crítica destrutiva não somente afeta as estrelas do cinema e do teatro, cujas existências estão nas mãos e nas bocas de todos, mas também salpicam naqueles artistas que fazem somente trilhas sonoras ou músicas que enchem nossos raros momentos de tranqüilidade. A conhecidíssima violoncelista, já falecida, entrou novamente em cena, não por uma gravação desconhecida, mas por um livro no qual são contados seus vícios ocultos, suas paixões, enfim, sua má reputação indigna da fama merecida na arte. Um escritor que triunfa verá tão logo como sua imagem será destruída em alguma biografia recompilada por lá se sabe quem. Assim, o velho historiador que fez as delícias de nossas horas de investigação se torna um sátiro indomável.

O filósofo quem admiramos desde nossa juventude e que viveu há vários séculos aparece hoje ante os olhos da informação exaustiva como um depravado que somente visava ao seu próprio prestígio e benefício. O pintor que enche as melhores pinacotecas do mundo é um degenerado incorrigível. E o pior é que esses mesmos vícios são aplaudidos em outras pessoas que não pintam, não escrevem, não fazem música, nem brilham nas telas dos cinemas…

Creio que deveríamos dar lugar ao direito à inocência, ou ao menos à presunção de inocência, a tudo que se possa demonstrar – e não em um artigo ou um livro montado, baseado em recortes e cópias requentadas – o contrário. Estes tempos querem passar à história como os mais liberais, os de maior informação, os de máxima valorização da vida humana e de respeito pela natureza, só que o resultado de tudo isso é uma liberdade que está nas mãos da desinformação, que macula a Terra diariamente e faz a humanidade passar por um período de atrocidades que deixariam horrorizados os maiores tiranos míticos e reais. A medida que prevalece parece ser: quem se destaca um milímetro na sociedade, algo de mau há de ter. Precisamente nos interessa dar cabida ao direito oposto, o de pensar que todo mundo tem de ter algo de bom, sendo uma figura destacada, ou não, e, sobretudo, que se destaca por seu próprio mérito. Se não somos capazes de pôr uma gota de benevolência em nossos julgamentos, será muito difícil celebrar com dignidade um novo aniversário desses direitos tão necessários e tão escassos – e deveres – humanos.

Delia Steinberg Guzmán