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REFLEXÕES SOBRE O SENHOR DOS ANÉIS OU A FORÇA DO MITO

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É necessária uma advertência prévia: estes comentários sobre O Senhor dos Anéis não devem ser considerados como afirmações absolutas. São impressões pessoais, coisas que o filme sugere e, em alguns casos, podem ser as possíveis fontes de inspiração do autor. Porém, não temos a pretensão de ser a única interpretação da obra.
Tolkien dizia que não pretendia escrever uma alegoria. Sua história, personagens e situações não são símbolos que tenham significados ocultos. Não falou dos nazistas, nem da bomba atômica, nem de algo moderno concreto. Sua intenção era que os leitores pudessem encontrar mensagens para suas próprias vidas, chamamos isso de adaptabilidade da história: a capacidade de encontrar mensagens precisas naquilo que lemos, fruto da própria experiência e vivência de cada um; dependendo da cosmovisão, cada pessoa poderá encontrar na obra símbolos e ensinamentos diferentes, como ocorre, muitas vezes, com textos carregados de idéias místicas e morais sugestivas.
Alguns confundem adaptabilidade com alegoria, porém, a primeira refere-se à liberdade do leitor, a segunda à intenção do autor. Aqui está a chave para que diferentes gerações encontrem uma mensagem para cada uma delas. Cada leitor ou espectador entende a história relatada no seu próprio idioma, de acordo com sua cultura, cosmovisão, crenças e vivências.
Tolkien foi muito pluralista em O Senhor dos Anéis. É um livro multicultural e multirracial. Em oposição a esse pluralismo está Mordor, o Anel Único. Um anel para governar todos.
A história é atemporal, o que a torna acessível para todo tipo de leitor e acredito que o fenômeno da popularidade de O Senhor dos Anéis deve-se ao tema: a existência humana. Por isso agrada aos leitores de todos os tempos e lugares.
O grau de credibilidade da história é tão elevado que nos perguntamos se, talvez, Tolkien não tenha encontrado um papel antigo que contasse uma história real. Esta credibilidade não ocorre somente pelos detalhes com que a história é contada, mas o quanto repercute no interior de cada leitor, fazendo-o reviver sua experiência pessoal. Nosso coração reconhece a história.
Precisamente, essa é a força do mito, uma história que não relata apenas algo que já ocorreu no passado, mas aquilo que sempre está acontecendo. Diferente da história, que conta o que passou, o mito relata o que aconteceu, acontece e acontecerá, mesmo ocorrendo em determinada época com diferentes costumes de acordo com a cultura que o gerou.
Tolkien foi um leitor apaixonado por mitos e sentia falta da existência de um genuinamente anglo-saxão. O mito do Rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda (no qual Tokien era especialista) são de origem francesa em boa parte. Assim, ele decidiu escrever sobre um mito inglês, embora esse tipo de história não seja escrito por uma única pessoa, mas tendem a ter por autor um povo inteiro.
Tolkien se dispôs a escrever O Senhor dos Anéis sem um planejamento prévio, nem esquema, nem sinopse. Um dos estudiosos de sua obra examinou os primeiros esboços, que ainda existem, e chegou à conclusão que, evidentemente, o livro foi escrito às cegas. Nunca de antemão pretendeu que fosse assim. Adquiria forma paulatinamente, algo assim como uma melodia que vai surgindo logo que se começa a compor.
Não resistimos e vamos citar aqui um revolucionário arquiteto americano chamado Cristopher Alexander. Sua contribuição à arquitetura moderna foi baseada em algo tão surpreendente como seu estudo sobre os tapetes turcos. Alexander ficou encantado ao contemplar os desenhos dos tapetes feitos por alguns mulçumanos místicos, os sufis. Eles não riscavam os desenhos nos tapetes, nem tinham um pensamento prévio sobre o que queriam desenhar. O desenho ia surgindo conforme iam tecendo os tapetes. Uma parte do desenho levava a próxima sem que o artista seguisse, conscientemente, um plano. Quando teciam, os sufis deixavam-se levar mais por uma corrente espiritual que racional, esforçando-se para tecer à maneira de Deus. Segundo seu pensamento assim se constrói, ou melhor, assim está Deus construindo o mundo.
Mas isso não quer dizer que improvisasse. Um sufi estaria meditando e rezando muito tempo antes de estar maduro o suficiente para começar seu tapete. Uma história convincente como esta deve ser contada com detalhes e durante décadas foi gestada no coração do autor.
Uma das lições que reflete o livro é o sentido tolkieniano da coragem. Autêntica demonstração é a coragem que impulsiona o pequeno para enfrentar o grande. Ninguém teria visto São Jorge como um cavaleiro valente se ele tivesse chegado diante do dragão de joelhos. É a antítese da ficção comercial, a noção de seguir adiante e encontrar esperança no desespero. Alguns dos novos heróis modernos das estórias em quadrinhos pecam justamente por não acrescentar heroísmo nas suas façanhas, pois são amplamente dotados de poderes muito acima das necessidades de superá-los. Os elfos, em O Senhor dos Anéis, lutam no que Galadriel chama de a Longa Derrota. Sabem, há milhares de anos, que serão derrotados, mas continuam lutando até que sejam realmente derrotados. A coragem também se demonstra quando não se tem a menor esperança. Não existe coragem sem medo. Para poder ser valente é necessário ter algo para temer e superar esse medo para enfrentar o inimigo. É isso que torna Frodo um herói. É um hobbit, pequeno e enfrenta enormes forças. Nossas esperanças residem em dois pequenos hobbits perdidos nessa imensidão.
A pessoa normal que nunca se sentiu como um super-herói de epopéia, pode identificar-se muito bem com os hobbits. Assim a história de Tolkien nos parece mais real, porque nos identificamos com ela, na realidade é assim, porque o mito fala a cada pessoa aquilo que acontece em sua vida.
Alguns estudiosos consideram que os ringwraith, ou espectros do Anel, são a imagem do mal mais característica de Tolkien. Ele era filólogo, e a palavra wraith, “espectro”, está relacionada com outras, por exemplo, com wrath que significa ira, com wreath que significa espiral, e com o verbo to writhe, que significa retorcer.
É interessante a visão que Tolkien tem do mal, como um vazio moral, carência de vida independente (dependente de Sauron, e do anel). Isto é muito característico no momento atual. A geração de Tolkien tinha dificuldade para identificar o mal, ainda que tivesse que viver com ele. O espantoso é que a pessoa que o encarnava era completamente normal. Tolkien era veterano de guerra e sabia que seu batalhão também tinha feitos coisas horríveis. A natureza do mal do século XX foi curiosamente impessoal, como se todo mundo o rejeitasse, em contraparte, as maiores atrocidades do século XX foram cometidas por burocratas (no caso de Eichmann, o encarregado por Hitler de concretizar o holocausto). As pessoas que executam essas ordens são wraiths. Foram submetidos a um processo de anulação e não distinguem mais o bem do mal. Cometer atrocidades, como os campos de extermínio, torna-se um trabalho ou uma rotina, ou seja, deixam levar-se pela opinião dos outros ou do ambiente social, sem critérios próprios.
Saruman acredita ser capaz de controlar o mal, mas quem pactua com o mal acaba transformando-se nele. Não se pode justificar o meio para tentar salvar um fim; o futuro está em nossas ações, como a árvore está na semente.
Os que afirmam que essa ficção é evasiva, uma fuga do mundo real, estão equivocados, mas enfrentam coisas que a maioria das pessoas prefere não enfrentar. Nunca podemos estar seguros do Anel, o que me parece muito conveniente para a história. Gandalf pede a Frodo que lhe dê o Anel e quando Frodo tenta dar-lhe o anel, e sente que esse pesa muito, como se Frodo ou o anel estivessem relutantes em mudar de mão. Quem pesava, Frodo ou o anel ? Se for Frodo, estamos diante de um universo freudiano. Frodo não quer entregá-lo e, subconscientemente, esse desejo faz com que o anel pese mais. Neste caso, a fonte do mal é interna, mas poderia ser que o anel se fizesse mais pesado.
– Pegue, Gandalf! Leve-o!
– Não, Frodo. Não podes dar-me este anel!
– Mas eu estou te dando!
– Não tentes, Frodo. Não quero nem tocar nele. Nem mesmo escondê-lo. Compreenda-me, Frodo: use este anel com o intuito de fazer o bem. Mas comigo ele ganharia um poder desastrado e terrível de imaginar.
Não se pode confiar em ninguém porque há algo em cada coração que é o começo de um processo de anulação. O anel tem um poder dual: uma ameaça e uma agressividade que devemos resistir, mas é também uma espécie de amplificador psíquico que retira a energia dos problemas e debilidades. É obvio que o anel é viciante, com todas as complexidades que levam este estado. Como se vê na cena de Bilbo atacando Frodo, em Rivendel para tirar o anel, ou Golum desculpando-se pelo mesmo ato: Não fui eu quem te atacou! O tesouro me obrigou!
Qual é o vicio do Anel? É o Poder? Os que são tentados sempre começam com boas intenções, querem o poder para fazer o bem. Mas quando estão de posse dele não o libertam, e as boas intenções passam a ser más. Além do mais, não requer somente boas intenções (como as de Boromir), tem que ter discernimento suficiente para saber qual é o caminho correto. A lista histórica que poderíamos fazer é longa.
O anel também é muito contemporâneo por sua afinidade com a tecnologia, pela qual Tolkien tinha certa fobia. Uma vez declarou que a criação mais maligna que a humanidade acolheu foi o motor de combustão. A tecnologia é poderosa, sedutora e direta. A sociedade se torna súdita da tecnologia. Na época de Tolkien, via-se muito bem como a cidade invadia a montanha e principalmente suas campinas, especialmente na Inglaterra.
Vemos neste sentido, alguns fragmentos de As Duas Torres:
Bárbol: – Ninguém se preocupa com os bosques. Os orcos arrancam, queimam, calcinam.
Saruman: – O mundo muda. Quem terá agora força para enfrentar os exércitos de
Isengard e de Mordor? O velho mundo se consumirá nos fogos das indústrias. Os bosques morrerão. Uma nova ordem surgirá. Seremos soldados de uma máquina de guerra, lança e punho de ferro de orco. Temos somente que eliminar aqueles que se opõem a nós.
Bárbol: – Houve um tempo em que Saruman passeava pelos meus bosques, mas agora tem rodas e mente de metal. Já não cuida das coisas que crescem.
Bárbol: – Não há um termo em élfico ou na língua dos homens para descrever esse horror (ver o desmatamento causado por Saruman e sua indústria).
A batalha final entre o bem e o mal descrito em O Retorno do Rei parece que foi inspirado em Armagedon do Apocalipse:
Então vi o céu abrir-se, e havia um cavalo branco: o cavaleiro é fiel e veraz; julga e combate com justiça. Seus olhos, chama de fogo; sobre sua cabeça há muitos diademas; leva escrito um nome que só ele conhece… vi então a Besta e os Reis da terra com seus exércitos reunidos para iniciar o combate contra o que está montado no cavalo e seu exército, mas a besta foi capturada…
Em Rivendel, o Rei elfo Elrond falava com desprezo de homens e anões, cheios de egoísmo e incapazes para a missão: O anel deve sair de Rivendel. É uma ameaça para toda a Terra Média. Eles devem decidir como destruí-lo. A era dos elfos está acabando. Meu povo deixará esta costa. Diga-me, Gandalf: Quem os socorrera quando não estivermos mais? E os anões? Hurgan nas montanhas quer riquezas, ignorando os problemas dos outros.
Gandalf:- É nos homens em quem devemos por nossas esperanças.
Elroud: – Homens! Os homens são fracos. A raça do homem está desvirtuada. O sangue de seus ancestrais está mais que esgotado. Seu orgulho e sua dignidade estão esquecidos. Por culpa do homem o anel ainda sobrevive. Eu estive lá, Gandalf. Eu estive lá faz 3.000 anos (Neste momento do filme se vê como Isildur corta o dedo de Sauron e recolhe o anel). Eu estava lá quando Isildur aceitou o anel. Eu estava lá no dia em que a vontade do homem fracassou (agora sabe como Isildur levou o coração do Monte do Destino, onde o anel foi forjado, como o Rei humano negou-se a destruí-lo no fogo que mora ali, o único lugar onde pode ser destruído). Aquele dia devia ser seu fim, mas o mal conseguiu sobreviver.
Isildur conservou o anel e assim interrompeu a saga real. Não sobrou poder no mundo dos homens desfeitos, divididos, sem direção.
Assim como a história do Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda se inicia numa Inglaterra dividida, arrasada por contínuas guerras, atolada numa escuridão na qual não se vê saída. A espada do último rei inglês, Excalibur, está cravada numa pedra. Esta espada simboliza a verdadeira autoridade, a capacidade de trazer paz, harmonia e justiça onde não há. Todos acreditam que o homem capaz de tirar a espada da pedra será o verdadeiro rei da Inglaterra. O Rei cujo retorno todos esperavam.
Não é necessário dizer quem poderia ser o mago Mérlin no relato de Tolkien. Quando Sauron quebra a espada de marsil, a desunião e a discórdia instalam-se entre os homens. Anduril, a espada dos reis de Elendil feita de marsil – a que conserva o fio depois de milhares de anos – é Excalibur. E não precisa de muita imaginação para ver o Rei Arthur em Aragorn. A ilha de Avalon poderia ter inspirado a ilha para qual viajam os elfos acompanhados de Bilbo, Frodo e Gandalf.
Existem outros personagens interessantes para recordar ao reler O Senhor dos Anéis, como Sir. Galahad, o cavaleiro puro. Apesar de tirar a espada da pedra, Arthur não consegue dar fim à escuridão em que seu povo está submerso. Para libertá-los, põe sua esperança no Santo Graal, pois quem beber desta taça curará todos seus males físicos e espirituais, e acabará com os tempos de escuridão.
Os cavaleiros partem pelo mundo buscando-o, mas todos perdem-se e morrem sem encontrar o Graal. Somente Sir Lancelot chega a vislumbrá-lo, mas não pode tocá-lo porque uma única mancha escura em seu coração o impede: o adultério com a rainha Ginebra. Só um homem de coração puro poderá encontrar o Graal, e este cavaleiro é apenas um aprendiz, alguém a quem não é sensato encomendar-lhe tamanha responsabilidade, embora nele residam as esperanças de todo um reino. Ainda que Tolkien não pensasse em Galahad ao descrever Frodo, apesar dos personagens não se assemelharem, Frodo apresenta muitos traços de Galahad.
A iniciação é algo que se repete em todas as religiões e culturas. Percorre-se um caminho espiritual que conduz a progressivas mudanças (iniciações) até tornar-se uma pessoa completamente distinta. Fala-se de um segundo nascimento que sobrepõe a uma morte simbólica (ou duas vezes nascido). Como já não se é mais o mesmo, terá que mudar de nome: Gandalf, o cinza, passa a ser Gandalf, o branco. Atravessando a experiência da morte, teve um segundo nascimento, agora é uma pessoa mais madura, mais espiritual e mais poderosa.
Frodo não é o único herói, pois sem o heroísmo de seus companheiros, teria fracassado. Nossos destinos estão interligados. Ortega ensinava: Eu sou eu e minhas circunstâncias, e se não as salvo, não salvo eu. Nosso ambiente é parte da nossa realidade. Tentar fugir dos problemas dos demais e enclausurar-se em si mesmo é enganar-se.
Um fragmento da peça de teatro de Brecht diz algo parecido: “Faz alguns mesesm, a Gestapo veio e prendeu meus vizinhos judeus. Eu nada fiz. Depois vieram prender meus vizinhos comunistas. Eu nada fiz. Logo em seguida prenderam pessoas normais e comuns. Eu nada fiz. Hoje vieram me prender.”
Poderíamos continuar falando de personagens ou feitos históricos que teriam inspirado passagens da obra de Tolkien, como Rasputin, os jockeys negros de Ivan, o Terrível, a Armada Invencível ou os exércitos de Aníbal, pois nossa história está repleta de passagens que lembram a constante luta do homem.
A obra de Tolkien é mais uma oportunidade no caminho para melhor entender a vida. Não a deixe passar!