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Saúde e beleza no Antigo Egito

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Há 4000 anos, a estética e a saúde estavam unidas. Os egípcios cuidavam da beleza do corpo, a qual consideravam um reflexo da alma.

Na vida da sociedade egípcia, a preocupação com a limpeza do corpo e a aparência física era um fator primordial. A esse respeito, não nos chegaram tantos documentos e dados como no caso da medicina egípcia, mas todas as referências disponíveis coincidem ao sinalizar que se atribuía extrema importância à higiene pessoal, ao cuidado da beleza física e à prevenção de enfermidades.

Heródoto menciona a atenção dedicada pelos egípcios à higiene pessoal e diz que “apreciavam a limpeza acima da aparência agradável”. Aqueles que por qualquer motivo descuidavam das regras fundamentais de higiene, mereciam desprezo.

Acaso os egípcios foram pessoas vaidosas e excessivamente obcecadas pela estética do corpo? Ou as enfermidades lhes inspiravam tanto temor que preferiam dedicar um tempo exagerado ao cuidado da higiene corporal? Ou talvez considerassem a beleza do corpo como base fundamental da atração sexual?

A literatura de fácil acesso indica esses motivos como os principais. Talvez se deva ao fato de que assim nós os percebemos do ponto de vista de nossa época, na qual o cuidado com a saúde e com a estética do corpo são objetivos fundamentais para muitos habitantes de países economicamente desenvolvidos. No entanto, cabe perguntar se podemos valorar, segundo os nossos critérios atuais, uma civilização da qual nos separam vários milênios. Da minha parte, estou convencida de que não é possível e não penso em fazê-lo.

Partindo-se da nossa noção de Egito como uma sociedade de educação iniciática que conseguiu grandes realizações nas artes, na ciência, na política e na religião, torna-se impossível conceber que em outras esferas da vida daquela sociedade não aplicassem as mesmas motivações profundas, enquadrando-as no contexto da percepção transcendental da existência humana. Creio que assim também o foi com tudo que se relacionasse com a prevenção e o cuidado com a beleza física.

Para o egípcio, não se tratava de dar prioridade ao corpo em oposição à alma, mas de equilibrar ambos os níveis de maneira harmônica. Porque todo o visível e todo ato físico refletem-se nos níveis invisíveis e vice-versa. O equilíbrio da estética do corpo e da alma era condição para poder avançar com êxito na vida, expressão do reflexo do invisível no visível, das causas ocultas no mundo manifestado.

“Levaram-me na casa do príncipe. Esbanjava luxo com suas salas de banho e espelhos. Estava repleta de tesouros e roupas feitas de tecido real… Em todos os cômodos sentia-se o primoroso perfume do rei e de seus cortesãos favoritos… Libertaram meu corpo de anos, barbearam-me e pentearam-me. Minha sujeira retornou para a terra, minha roupa aos peregrinos das areias. Vestiram-me com o mais fino tecido, ungiram-me de óleo aromático e colocaram-me na cama real.” (Historia de Sinuhé. Império Antigo).

A extensão da higiene pessoal é conhecida pelos achados arqueológicos, em particular pelo que se conservou nas tumbas de mulheres de elevada posição social. Esses achados datam dos tempos pré-dinásticos e abarcam espelhos, pigmentos para maquilar os olhos, fórceps de metal, facas, navalhas com suas pedras de amolar, pentes, rolinhos, garfos e muitos outros acessórios de higiene pessoal. A pequena arca que foi propriedade da esposa de escriba Ani (1300 a.C.) continha vários unguentos, cosméticos, lápis para as sobrancelhas e paletas para misturar pintura facial. A rainha Mentuhotep (2000 a.C.) tinha uma caixinha de fibras de papiro entrelaçadas que além de diversos recursos de beleza, nela guardava medicamentos para sudorese, laxantes e diuréticos. Logo, sabia-se que uma boa secreção corporal (suor, urina e fezes) era considerada fundamental para a saúde e para a beleza da cútis.

A cosmética e o cuidado com a estética do corpo não estavam tão estritamente separados da medicina como no nosso tempo e a fronteira entre as especialidades era extremamente permeável.

“Aquele que mima seu corpo, perde força. Aquele que se mima quando jovem, débil será na velhice.” (Conselho de um escrivão. Época tardia).

Banhar-se, inclusive várias vezes ao dia, era a base da higiene pessoal. Não há evidências de que usassem sabão, os indícios preservados sinalizam produtos como natrão, soda cáustica, azeite, cinza ou areia. As casas mais opulentas contavam com quartos de banho com pias, as pessoas mais modestas faziam sua limpeza diária nas margens do Nilo ou nas valas. A limpeza era uma condição indispensável particularmente para os sacerdotes que atuavam nos âmbitos sagrados. Banhavam-se duas vezes ao dia e duas vezes à noite e a cada três dias depilavam o corpo inteiro.

Todos os demais – homens e mulheres – tiravam com sumo cuidado os pelos ou os aparavam, já que o corpo com pelos era inaceitável do ponto de vista estético, talvez (como geralmente afirmam) para evitar a presença de parasitas como piolhos, pulgas, etc. Os pelos eram eliminados com navalhas, espécies de lâminas de barbear e com cremes depilatórios especiais. Chegou até nós uma receita que descreve os componentes de um destes cremes: ossos de ave cozidos, misturados com fezes de mosca, azeite, suco de sicômoro, látex e pepino. O modo de usar em nada diferia da atual, já que a mistura aquecida, após esfriar, era puxada.

Como livrar um homem ou uma mulher do mau cheiro: cozinhe um ovo de avestruz, um casco de tartaruga e bolotas de tamarisco (um tipo de carvalho africano), unte o corpo com esta mistura. (Papiro Medicinal de Ebers).

Atribuía-se grande importância aos perfumes e aromas. Ao finalizar o banho, friccionava-se o corpo com óleos aromáticos umedecedores ou com unguentos perfumados importados do oriente que retardavam o envelhecimento da cútis em um clima arenoso e tórrido, ao mesmo tempo em que configuravam o elemento básico da fragrância corporal.

A fabricação de perfumes e aromas constituía um extenso ramo artesanal autônomo. Punham-se a macerar plantas completas ou somente as flores e lascas de madeiras aromáticas eventualmente eram cozidas em azeite e água. Desta forma, obtinha-se o óleo essencial que servia como base para posterior preparação de óleos aromáticos ou cremes. Os óleos de carvalho europeu, rícino, linho, gergelim, açafrão, oliva e amêndoas eram os de uso mais difundido.

Os segredos da preparação de unguentos e óleos eram compartilhados pelos que sabiam exatamente a temperatura e a ordem em que cada ingrediente devia ser agregado, posto que a última substância a ser agregada tinha sempre que ser a de odor mais penetrante. Na elaboração de perfumes, o requisito mais importante era que resistissem muito tempo na epiderme e também que pudessem ser conservados sem dificuldade, uma vez que alguns alcançavam sua autêntica qualidade após vários anos de armazenamento.

A pintura mural na tumba tebana Nº 175 (há 1400 a.C.) mostra detalhes da fabricação de unguentos, pois descreve a preparação de lascas de madeiras aromáticas para a maceração, a filtragem em peneiras, a maneira de derreter a gordura em um recipiente sobre a lareira, a moagem de plantas e espécies, a mistura de plantas com gordura e a confecção de pequenos pasteis. Lamentavelmente, o mural não vem acompanhado por nenhum texto, mas tudo parece corroborar que se tratava de uma fábrica importante de produção de unguentos para os templos circundantes.

Numerosas receitas para a preparação de óleos e unguentos são conservadas, mas alguns dos ingredientes são um enigma, já que até a presente data não foi possível relacioná-las com nenhuma planta conhecida.

Um célebre unguento egípcio denominava-se metapión e sua composição continha óleo de amêndoas amargas e olivas verdes, aromatizado com cardamomo, grama de cheiro, junco, mel, vinho, mirra, semente de beijo (maria-sem-vergonha), gálbano e essência de terebentina. Segundo Plínio e Dioscórides, utilizava-se esse unguento na medicina como calmante para curar abcessos purulentos, feridas de tendões e ligamentos, visto que causava a dilatação dos vasos, o aquecimento e uma melhor irrigação sanguínea e, por consequência, a transpiração.

Adicionava-se aos unguentos látex e resina, não só por seu aroma, mas também como elemento de fixação dos demais ingredientes. Outros ingredientes frequentes eram o incenso, a mirra e o kipi, mistura especial a base de vinho e passas com numerosos aromas e essências, tão importantes que as regras para a sua preparação foram esculpidas nas paredes de templos como nos de Edfú e Filae.

A aromatização corporal também era feita por meio de grãos de gordura especialmente preparados e aromatizados com plantas e especiarias, que se colocavam nas perucas. No ambiente tórrido, a gordura derretia pelos cabelos e pelos do corpo de quem a usava, impregnando de fragrância o entorno do seu portador.

Os unguentos encontrados nas tumbas como parte dos pertences do defunto não preservaram seu aroma através dos milhares de anos, devido ao efeito destrutivo das mudanças químicas nos produtos gordurosos. Na tumba de Tutankamon foram encontrados unguentos com uns 90% de conteúdo em gordura animal e uns 10% de resina. Preservados em recipientes de calcário, mais frequentemente usados para a conservação de tais produtos.

Outro aspecto interessante da higiene pessoal era a limpeza da dentadura. Utilizavam varetas de madeira especiais (raminhos de árvores ou junco) que mastigavam , assim como bolinhas de mirra, incenso ou canela para eliminar o mau hálito ou também gargarejavam com leite. Múmias e papiros medicinais encontrados dão testemunho sobre a grande incidência de abcessos dentais, em oposição à pouca frequência de cáries, o que seguramente tinha relação com a composição dos alimentos que, diferentemente de nosso tempo, continham consideravelmente menos açúcar. No entanto, devido à presença de areia fina nos alimentos, especialmente no pão, a dentadura desgastava-se excessivamente e os dentes ficavam fracos, assim, os achados de pontes dentais não eram uma exceção.

Como eliminar as rugas do rosto: moer a goma muito fina, adicionar cera, óleo bahún recém-prensado e fruto de junco e untar o rosto diariamente. Tente e verá que milagre! (Papiro Medicinal de Ebers).

Havia muitas outras maneiras de limpar a pele, não só do rosto, como do corpo inteiro. Alguns papiros medicinais sinalizam receitas para o peeling corporal que contém, entre outros ingredientes, calcário em pó, sal do Baixo Egito, mel ou soda cáustica vermelha (provavelmente, extraída da terra com conteúdo em ferro, muito abundante no Egito). Depois da primeira limpeza podia continuar com outro tratamento à base de látex ou fabricado segundo a receita citada acima, que servia como tônico cutâneo e impedia a formação de rugas.

As cicatrizes de queimaduras eram curadas com unguento de mel, incenso ou alfarrobeira. Para as mulheres grávidas, eram preparados unguentos de óleos especiais destinados a prevenir a formação de estrias.

“Meu desejo é como adorno para os olhos. Quando te vejo, meus olhos brilham.” (Canção de amor. Novo Império).

A maquiagem dos olhos era o ponto mais importante. A fim de obter a forma amendoada e prolongar a linha ocular, utilizava-se malaquita verde ou a substância denominada khol, que era produzida com galenita de cor cinza escuro e algumas vezes misturavam com gordura de ganso. O khol era guardado em recipientes tubulares dos quais era extraído com uma fina vareta.

Aplicava-se o ruge na pálpebra superior e na inferior e costumava-se combinar ambos os tipos de cor. O verde nas sobrancelhas e nos ângulos dos olhos, o cinza como delineador e para colorir os cílios.

Os lábios e as unhas eram adornados com cor vermelha, porém são desconhecidos os ingredientes utilizados no corante. O vermelho também era usado para colorir as bochechas (geralmente se preparava com gordura e ocre vermelho).

Como conseguir que volte a crescer o cabelo em um calvo: misture gordura de leão, hipopótamo, crocodilo, gato, serpente e cabra montês e unte a cabeça com essa mistura (Papiro Medicinal e Ebers).

O cuidado com o cabelo, coroa da aparência, tinha enorme importância. Em ocasiões solenes, as mulheres e os homens ostentavam perucas feitas com cabelo humano. As mais elaboradas costumavam ser confeccionadas com mais de 120 mil fios, trançados em uma rede, utilizando-se rezina e cera como cola. As perucas comuns eram fabricadas com as avermelhadas fibras da tamareira.

Também, dedicava-se máxima atenção ao próprio cabelo. Nos papiros medicinais encontramos muitas receitas preparadas contra a calvície, os cabelos brancos e a caspa. Por exemplo, o corante que devia ocultar os cabelos brancos, preparava-se do seguinte modo: cozinhava-se em óleo sangue de um boi ou de um bezerro negro a fim de obter a cor negra ou preparava-se o unguento de óleo e chifres negros de antílope.

Para criar penteados empregavam-se numerosos acessórios como grampos, diversos tipos de pentes de madeira ou marfim, rolos de cabelo, diademas, anéis decorativos ou fitas e adornos de flores.

“Cuida de tua barquinha, filha minha, essa barquinha que leva tua alma pelas ondas da vida até o oceano de luz, que é a meta de tua peregrinação. Porque não alcançarás o esplendor e a nobreza da alma enquanto não lhe puder oferecer um aposento limpo e harmonioso. Não manterás sua barquinha nas ondas da vida enquanto não aguardares sã e equilibrada. E para os que a cercam não serás a flor amável, sempre que teu corpo não se torne um símbolo de tua beleza interior.

Quando a enfermidade acedia o corpo e necessita-se de médicos, é como se a barquinha virasse nas ondas. E quando a enfermidade leva tempo esgotando o corpo, a barquinha afunda e é muito difícil fazê-la retornar a flutuar.

Não mimes tua barquinha no porto, nem a encha de luxo inútil, mas cuida de asseá-la e adorná-la cada dia de forma que conserve sua construção ilesa e possa ter servir, até que chegue à meta de tua peregrinação e alcances a outra margem…”

Essa conversação não foi inscrita em nenhum dos papiros e provavelmente nunca aconteceu. Porém, com base no que sabemos sobre o Antigo Egito, poderiam levar-se a cabo muitas conversações similares, nas quais as mães explicavam as suas filhas como cuidar do próprio corpo e de que maneira cuidar de seu aspecto harmonioso e de sua beleza, a fim de cumprir com sua missão de veículo pelas ondas da vida.

Embora muitos mistérios dessa grandiosa civilização permaneçam sumidos no silêncio da história, pode-se ouvir com nítida clareza sua mensagem transportada pelo vento do tempo: todo o visível tem sua causa invisível. Tudo se relaciona com o tempo e o espaço, no qual as coisas transcorrem. Tudo caminha até se cumprir e o sentido da evolução humana é entender qual é a direção correta.

Obras consultadas:

 

Livraga, J.A.: Théby (Tebas), Praga 1994

Manniche, L.: Staroveký Egypstský Herbár (Herbolario Egípcio Antigo), Volvox Globator, Praga 1993.

Pollak, K.: Medicina Starodávných Civilizaci (Medicina de Civilizações Ancestrais), Orbis, Praga 1993.

Vachala, B.: Zajímavosti Starého Egypta (Curiosidades do Antigo Egito), Albatros, Praga 1989.

Vilímková, M.: Staroveký Egypt (O Antigo Egito), Mladá fronta, Praga 1977.

Tyldesley, J.: Dcery bohyne Isis (Filhas da Deusa Ísis), Domino, Ostrava 1999.

Sabina Hrncirová