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SCHLIEMANN E UM SONHO CHAMADO TRÓIA

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Criativo e tenaz, investigador atípico do mundo antigo, conseguiu convencer-nos sobre a existência de Tróia, que até então era tida somente como fruto da imaginação de Homero.
Entremos na interessante biografia de Heinrich Schliemann, um dos pais da Arqueologia, além de grande poliglota, erudito e destacado homem de negócios.
Tróia, também chamada Illión, foi a cidade que o grande poeta grego Homero escolheu como cenário da guerra entre os aqueus (povo que viveu na atual Grécia) e os troianos (habitantes da cidade que recebem seu nome, situada na Asia Menor, próximo ao Bósforo), durante o segundo milênio antes de nossa era. O poeta narra a guerra em um poema épico, Ilíada, no qual exalta o valor dos heróis dos dois grupos, e termina com a conquista de Tróia e seu posterior incêndio.
Devido ao caráter antigo do poema (séc. VIII a.C.) e sobretudo ao fato de que nunca se encontrou nenhum resto da cidade, era amplamente admitido que ela somente havia existido na imaginação de Homero, de quem até os dias de hoje duvida-se de que se tratasse de um homem só. Não antes do século XIX, quando Schliemann desenterrou a cidade e conseguiu convencer o mundo inteiro de que ela existia e não era produto da mente de um poeta.
Nosso personagem nasceu no vilarejo alemão de Neubouk, em 6 de janeiro de 1822, ocupou o quinto posto entre os nove filhos de Ernst Schliemann, o pastor protestante da aldeia. Por um lado foi amplamente criativo (acreditava em todas as lendas que lhe contavam), mas por outro lado, incrivelmente tenaz e prático.
Seu pai foi uma das pessoas que mais marcou sua infância e sua vida, sentia uma grande admiração pelos que visitavam as escavações de Pompéia, admiração esta que contagiou seu jovem filho, pois soube plantar em seu coração a paixão pelos heróis homéricos.
Por problemas económicos, e apesar do grande amor que sentia pela ciência, aos catorze anos vê-se obrigado a deixar os estudos e começa a trabalhar em um armazém em condições sub-humanas, das cinco da manhã às onze da noite, sem mais horizontes que o trabalho. Com dezenove anos decide embarcar no “Dorothea”, rumo à América do Sul com o intuito de tentar a sorte no novo continente. Mas após dez dias de luta contra as inclemências do tempo, o barco naufraga na costa holandesa. Naquele momento, ele, que chegaria a ser um dos homens mais ricos de seu século (chegou a possuir o equivalente a 20 bilhões de dólares atuais), viu-se obrigado a mendigar e fingir estar doente para sobreviver no hospital.
Decidido a alistar-se no exército, conseguiu antes um trabalho como mensageiro que lhe proporcionou dinheiro para subsistir e tempo para reiniciar seus estudos. Com sua praticidade e desejo de se superar na vida, dedica-se ao estudo de línguas modernas e desenvolve um método de estudo que lhe permitiu, em somente seis meses, dominar o Inglês e em outros seis meses o Francês, quanto ao Italiano, o Português, o Espanhol e o Holandês foram seis semanas para cada uma.
Graças às línguas que aprendeu conseguiu um trabalho muito melhor. Colocou todo seu afã nos estudos da língua russa, que dominaria em outros seis meses, e que se converteria no último trampolim para seu triunfo, pois lhe permitiu marchar a São Petersburgo, a capital da Rússia naqueles tempos, quando tinha vinte e quatro anos. A partir desse momento, obteve triunfos comerciais, até que, com a idade de quarenta e seis anos, considera-se possuidor dos recursos necessários para partir em busca de sua adorada Tróia.
Durante seu último período de atividade comercial sempre encontrou tempo para continuar estudando, tanto Arqueologia como outras línguas (ao final de sua vida chegou a conhecer duas dúzias de idiomas), do árabe ao polaco, do sueco ao hindu, o sânscrito, o latim, mas em especial seu querido grego, que aprendeu por meio dos clássicos, pois não somente estudou Homero como também Sófocles, Ésquilo, Eurípides, Platão e muitos outros.
Para conseguir as permissões pertinentes, nosso persistente personagem marcha até a pérola da Ásia Menor, para a zona do Helesponto, a fim de começar as escavações de Tróia. Bastaram onze meses, após séculos de especulação de muitos eruditos, para fazer justiça sobre a obra do poeta grego.
Depois de séculos de esquecimento, o que havia sido verdade para Platão e Tucídides voltava a converter-se em verdade para o homem moderno. Não foram poucas as dificuldades encontradas por esse personagem, tachado por arqueólogos oficiais de de um “aficionado que não sabe o que fazer com seu dinheiro”. Entre elas poderíamos mencionar o frio, os insetos, as víboras, os saqueadores, a falta de higiene do lugar e sobretudo o feito de que a alguns dias antes de começar as escavações, se deu conta de que o solo proveniente da colina estava a dezessete metros de profundidade, e que embaixo do pó de tantos séculos não jazia a Tróia homérica, mas a superposição de seis cidades, desde os tempos pré-históricos até a época romana, entre os quais situou Tróia no segundo nível. Durante os primeiros meses de escavações nada mais fazia além de encontrar restos pré-históricos.
Nosso protagonista, longe de se vangloriar, exclamou, ao descobrir Tróia: “Pudera este sublime monumento em memória dos heróis gregos manter-se até a eternidade!”; “Que este lugar converta-se em um referencial para os futuros viajantes que passem pelo Helesponto!”; “Que possa trazer de agora em diante os jovens de todo o mundo!”. Não conheceu o descanso nem a ociosidade nos vinte anos que lhe restaram de vida. Após Tróia, veio o descobrimento de Micenas, para depois dar a vez a Tirinto, Orcómenos e uma segunda escavação em Tróia. No último ano de sua vida, organizou e custeou dois congressos internacionais nas ruínas troianas para demonstrar ao mundo que seus trabalhos eram corretos. Alguns criticaram seus negligentes métodos de escavação, mas nenhuma Universidade européia nem americana se preocupou com as escavações de Tróia nos cinco anos que separaram a primeira e a segunda escavação de Schliemann, tal como ele havia desejado.
A morte o surpreendeu quando estava em Nápoles, estudando os últimos achados das ruínas de Pompéia. Longe de deixar-se vencer pelos anos e pelas doenças, até o útlimo dia de sua vida conseguiu viver o sonho arqueológico de sua infância. A Grécia ergueu um panteão em memória desse homem que chegou a ser Doutor Honoris Causa das universidades européias sem ter sido formado pelas mesmas, assim como Galileu. Sobre seu túmulo levantou-se um pequeno templo dórico com quatro colunas em cujos frisos encontram-se cenas dos textos homéricos e das escavações de Tróia, e em um busto, o povo grego dedicou-lhe três palavras: ” Ao Herói Schliemann”. Porque um herói é um homem que além de suas limitações e erros consegue, com esforço pessoal, realizar algo em benefício da Humanidade.

Bibliografia
Dioses, Tumbas y Sabios. C.W. Ceram.
Autobiografia. Heinrich Schliemann.