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Um Pequeno Engenheiro

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Protagonistas de incríveis façanhas, as formigas possuem um fantástico comportamento social que desperta admiração e surpresa.

José Manuel Escobero Rodríguez

Lares de Madeira:

Existem numerosas espécies de formigas que utilizam um singular tipo de formigueiros. São aquelas que, por diversos métodos, encontraram uma forma de simbiose com alguns vegetais, estabelecendo uma relação tão estreita quanto incomum no resto do mundo vivo.

Basicamente, existem dois tipos de plantas que abrigam colônias de formigas. A esta relação simbiótica denomina-se “mirmecofilia”. Os vegetais oferecem ao formigueiro amparo e proteção, além de certas doses de alimento.

Em contrapartida, a planta obtém principalmente alimento destes insetos. Em sua maioria são plantas de vida epífita, que vivem sobre outras plantas, e que portanto não têm a sua disposição um solo nutritivo que as alimente. Também ocorre o caso dos vegetais de zonas desérticas e pantanosas que crescem sobre substratos pobres e arenosos.

Entre os exemplos do primeiro caso, plantas que amparam as formigas em troca de proteção, assinalamos um em especial.

As formigas do gênero Pseudomyrmex, por exemplo, mantém uma cordial relação com as árvores do gênero acácia. A acácia, da qual se conhecem 750 espécies, fabrica para se defender espinhos que se intercalam entre sua folhagem. A maioria das espécies engrossam a base destes espinhos, oferecendo assim um lugar propício onde se instalam as Pseudomymex. Cada espinho alcança um volume interno de 7 cm3, e as formigas ocupam tantos espinhos quantos sejam necessários para acomodar toda a colônia, formada por uns 30.000 indivíduos. As formigas patrulham constantemente a árvore, dia e noite, e a salvam não somente do ataque de insetos, mas de outras plantas epífitas ou parasitas, como também de cogumelos. A saúde da árvore, graças a estes diminutos seres, é perfeita. Em troca, a árvore dá, além de refúgio, alimento. Neste caso, a genialidade construtora dá lugar a um senso prático que substitui o trabalho de edificação pelo aproveitamento da situação presente.

Há casos de plantas que as formigas se encarregam de alimentar e que produzem tubérculos, rizomas ou folhas grossas nas quais aninham-se as formigas. Em alguns casos as formigas escavam no tecido da planta; em outros casos o vegetal cria o ninho e as formigas só necessitam abrir a entrada dessas estruturas, nas quais depositam excrementos, urina e alimentos. A planta toma os nutrientes que necessita destas substâncias em decomposição. Demonstrou-se que o enxofre, fósforo e carbono dos alimentos acumulados pelas formigas aparecem nos tecidos da planta na qual habitam. A presença de numerosos estomas nas câmaras destas plantas sugere também que o dióxido de carbono, liberado durante a respiração das formigas, pode ser absorvido e utilizado durante o processo de fotossíntese. Nas câmaras que contêm os dejetos das formigas crescem raízes, que os absorvem diretamente como nutrientes.

O caso mais bem estudado é o da Mymecodia tuberosa, planta epífita do sudeste da Ásia e norte da Austrália, que se especializou tanto nesta simbiose que diferencia seus tecidos internos para favorecer a instalação das formigas. Possui um enorme tubérculo com numerosas câmaras, umas enrugadas e escuras e outras lisas e claras. As formigas vivem nas câmaras de textura lisa, depositando excrementos e lixo nas câmaras escuras.

O desenvolvimento deste tubérculo é uma resposta direta à colonização da formiga. O ciclo se fecha com o tipo de semente que gera a Mymecodia. Possuem sementes muito desejadas pelo inseto, que armazena nos tubérculos onde as formigas se encarregam para que germinem.

Horta Subterrânea

Outro tipo de formigas utiliza de maneira muito diferente as árvores. As formigas conhecidas como “guarda-sol” recebem este nome pela forma curiosa que adotam em seus deslocamentos. Correm tronco abaixo com um pedaço de folha cortada preso entre as mandíbulas, como se fosse uma sombrinha. Mas não agem assim para evitar o calor do sol. Na realidade estão carregando folhas para suas hortas particulares.

Os gêneros Atta e Acromymex são um tipo de formiga que se dedica, milhares de anos antes do homem à agricultura. Ainda que deveríamos inventar a palavra “micocultura” para elas (de mycos, cogumelo). Ambas sobem ao teto da selva e pedacinho por pedacinho, desfolham árvores inteiras para levar as folhas para seus ninhos. A formiga atta estabeleceu uma relação simbiótica com algumas árvores, como a embaúba, já que esta árvore tolera a presença das cortadeiras, oferecendo inclusive no interior do seu tronco cavidades que as formigas utilizam como formigueiro. É um arranjo lógico, já que em troca do corte de parte de sua cobertura de folhas, a colônia de formigas mantém perfeitamente saneada e limpa a árvore. A acromymex, no entanto, converte-se onde quer que apareça em uma verdadeira praga.

Em ambos os casos, a arquitetura que estas formigas utilizam em seu formigueiro é destinada a abrigar câmaras de amadurecimento e frutificação de um cogumelo, do qual se alimentam. A atividade da atta começa na época chuvosa, quando os machos e as fêmeas aladas voam e se acasalam. Pouco depois, os machos morrem e as fêmeas caem ao solo, perdendo as asas. Porém as fêmeas levam uma bagagem em seu vôo. Antes de partir, recolheram cuidadosamente um pedaço do cogumelo Rhozites gongylophora das câmaras de cultivo, como se fosse um enxoval de núpcias.

Cada rainha, no solo, coloca excrementos sobre a haste do cogumelo e o enterra 10 a 30 centímetros sob a superfície. Depois de 3 dias, a formiga começa a colocar 10 ovos diários durante 10 ou 12 dias, alimentando-se com até 90% destes ovos para produzir um substrato adequado para o cultivo do cogumelo. As primeiras larvas aparecem depois de 2 semanas e a fêmea as alimenta com ovos até que se tornam pupas depois de 2 semanas. As primeiras formigas operárias saem depois de 10 a 12 dias e se alimentam do cogumelo. Estas escavam, aumentando o formigueiro, e depois de 7 semanas abrem um olho até a superfície. Conforme a colônia aumenta, também cresce a diferença morfológica destas formigas. Existem dentro do mesmo formigueiro exemplares centenas de vezes maiores que seus irmãos. Esta diversidade de tamanho é ditada pela especialização no trabalho.

As formigas operárias, de grande tamanho, saem para cortar folhas ou outros materiais, que as carregadoras levam às jardineiras, que por sua vez preparam uma pasta que utilizam como substrato para o cultivo dos cogumelos. Estas jardineiras são diminutas. Não podem ser de outra maneira, já que somente assim cabem no interior das câmaras de cultivo, e podem espalhar-se sem temor de danificar o mais precioso tesouro da colônia: o cogumelo.

As formigas soldados, com mandíbulas gigantescas, vigiam e protegem o ninho. A rainha é a única fêmea reprodutora na colônia, e se encarrega da postura dos ovos. As larvas se alimentam unicamente do cogumelo, as operárias cortadeiras, de seiva e do cogumelo. As babás e jardineiras são as menores trabalhadoras, e as cortadeiras e os soldados os maiores.

Para sair ou chegar ao ninho percorrem um longo caminho bem marcado e livre de vegetação, assinalado por feromonas e pelo contínuo tráfego.

No interior do formigueiro se distribuem pequenas câmaras onde prosperam os jardins de cogumelos. Estes necessitam cuidados especiais e sobretudo uma temperatura que varia entre 24º C a 30º C. Outro cogumelo que cultivam é um basidiomiceto do grupo dos agaricales, uma das espécies mais conhecidas é o Rhozites gongylophora. Há uma simbiose estreita entre o cogumelo e as formigas cortadeiras. O que utilizam como alimento são as formações que aparecem sobre o micélio, pequenas inflorescências chamadas gôngilos. As câmaras de cultivo dos cogumelos são atravessadas por galerias, orifícios e túneis, o que facilita a circulação do ar e o controle da temperatura.

No exterior do ninho pode ver-se um montículo de cor ocre, que se denomina “lixeiro”. Ali se depositam todos os dejetos, que dia-a-dia as operárias tiram para fora, mantendo o cultivo de cogumelos escrupulosamente limpo e sem contaminação.

Estas formigas produzem um som que dá o sinal de alarme ante um perigo para colônia, o que estimula todas a se reunir. Além disso, há uma série de feromônios que em seu conjunto mantém a coesão dos indivíduos. O bom crescimento do cogumelo se deve também aos feromônios que segrega a glândula metatorácica, como a mirmicasina, que atua como herbicida, evitando a proliferação de cogumelos inferiores, o ácido indolilacético, que fomenta o crescimento do cogumelo, e o ácido fenilacético, que mantém a cultura de cogumelos livre de bactérias.

O homem ainda não pôde ter cultivos livres de pragas e experimentou as substâncias que produzem as formigas para melhorar seus herbicidas. Novamente, os insetos ensinam algo.

Todos sabemos que as formigas lutam entre si. Quando um formigueiro detecta a presença de congêneres de distinto parentesco nas proximidades, organizam uma expedição de extermínio e, ou canibalizam as invasoras, ou as convertem em escravas. Somente formigas engendradas dentro do mesmo formigueiro, salvo raríssimas exceções, não se agridem até a morte.

Além do mais, como são clones da mesma mãe, todas as formigas compartilham igual carga genética, coisa que ocorre na maioria dos insetos sociais. Por isso cunhou-se o termo “super-organismo” para definir uma multidão de seres individuais idênticos e que funcionam como um só.

Considerando todo um formigueiro como um mesmo ser vivo, teremos uma surpresa de tamanho quilométrico.

Uma Surpresa Gigantesca

Há oitenta anos chegaram à Espanha, procedentes da América do Sul, diminutas invasoras. Tratava-se da formiga Argentina (Linephitema humile), de apenas 1,5 a 3 mm de comprimento. Esta formiga se adaptou bem ao clima europeu meridional, especialmente na área mediterrânea. Muito organizadas, cooperativas e sistemáticas, as formigas estrangeiras revelaram-se mais evoluídas socialmente que suas adversárias, impondo-se sobre elas sem que aparentemente influísse de maneira negativa o seu reduzido tamanho. Este “impor-se”, no mundo das formigas, significa que as espécies autóctones de formigas européias foram pouco a pouco sendo sistematicamente varridas dos seus nichos naturais. Expedições sistemáticas de exploração e conquista impõem a formiga Argentina, ali onde antes havia outros formigueiros de espécies distintas.

A introdução de espécies estrangeiras não é um problema novo, e a seu estudo se dedicam muitos cientistas. O mundo da entomologia não é alheio a esta problemática e um grupo de cientistas do Instituto de Ecologia da Universidade de Lausanne, na Suíça, junto com especialistas franceses e dinamarqueses, seguem a pista de nossas amigas. Este círculo de especialistas, liderados por Laurent Séller, efetuou recentemente o que pode ser a descoberta mais sensacional do século no campo da Zoologia. Eles seguiram a pista de formigueiros gigantescos compostos por um número de entradas que oscilam entre cinqüenta e cem, que podiam chegar a estender-se até aproximadamente um quilômetro. O que comprovaram no caso da Linephitema humile deixou os especialistas profundamente impressionados.

Tentando descobrir a extensão da invasão, deparam-se com o que constitui provavelmente o maior super-organismo da Terra. Existe um formigueiro contínuo de Linephitema humile de mais de 6.000 Km de extensão. Efetivamente, uma enorme colônia de formigas argentinas se estende na atualidade desde a Itália, pelo Mediterrâneo, Gibraltar e a costa atlântica da Península Ibérica, até a Galícia. Um indivíduo tomado de qualquer ponto desta gigantesca sociedade pode ser transladado a qualquer outro sem que seja atacado, experimento que realizaram com mais de 5.000 indivíduos tomados de 33 pontos da Itália, França e Espanha. Desta maneira descobriram a enorme extensão deste monstro. E a colônia, organizadamente, expande seus domínios a cada dia. É difícil imaginar uma sociedade humana que funcione tão bem. Até nas menores, uma família, por exemplo, existem problemas de convivência, quando não franca hostilidade. No caso estudado pelos cientistas, milhões de formigueiros são capazes de administrar sua vida como um só, sem atritos, sem choques, sem exclusões, cooperativamente.

A baleia azul mede 30 metros e pesa 150 toneladas, e as sequóias da Califórnia podem chegar a medir cem metros de altura. Samuel Chiltern, da Universidade de Yale, defendeu há tempo a existência de um “super-cogumelo” que pesaria 10.000 toneladas e se estenderia por dez milhões de quilômetros quadrados entre a Virgínia ocidental, nos EUA, até o Canadá e o Alasca. Agora, vários bilhões de formiguinhas acabam de elevar-se ao primeiro lugar do pódio do Livro Guiness dos Records.

Ainda que não tenhamos terminado de narrar as incríveis proezas dos pequenos invertebrados, convém seguir nossa jornada pelo reino animal, e lançar um olhar para as artes de construção dos peixes. Em nossa próxima edição seguiremos surpreendendo-nos com este afã construtor universalmente presente neste mundo. Conhecem as aptidões de construtores dos peixes e anfíbios ?

Dossiê

Virgens Negras

Autora: Paloma de Miguel

De conteúdos simbólicos ancestrais, relacionadas com crenças celtas e pré-celtas, cristãs-visigóticas, presentes tanto na rota Jacobea como nas lendas dos Cavaleiros Templários, as virgens negras seguem recebendo cultos populares, oferendas de ramos de flores monárquicos e até presidindo casamentos reais.

Sumário:

– Entre a história e a tradição

– A mãe negra

– Aproximação simbólica

– A lua obscura e suas representações

– Psicologia das deusas negras

– Virgens negras na Idade Média

– Lendas e mitos

– A virgem de Almudena

– A Senhora do Atochar

– Sobre o culto à tradição monárquica