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Árida Flor

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Árida Flor

Nas planícies quentes da Arábia haviam dois reinos vizinhos: Nahara que ficava próximo ao rio Eufrates, e o Vale Ário situado entre as colossais dunas de areia. O reino Nahara era governado pelo rei Amir, tinha por herdeira sua filha, a princesa Amina, e a região era abundante em alimentos graças à proximidade do rio. O Vale Ário, por sua vez, era governado pelo jovem e virtuoso Sila, de origem simples, mas que se tornou governante após se destacar na organização da cidade, resolvendo inúmeros conflitos entre o povo, que vivia entre a barbárie e a decadência antes de seu comando. Sila tinha como conselheiro e amigo um sacerdote, e essa amizade florescia com a troca mútua de virtudes: o mais jovem possuía determinação e coragem; o mais velho acumulava sabedoria e bondade. Mas, apesar do governo justo de Sila, a região do Vale era escassa em muitos sentidos: alimento racionado, educação voltada apenas para o trabalho e a água pura existia apenas quando adquirida com muito custo no reino vizinho.

O reino Nahara, porém, prosperava com rapidez e, querendo manter seus privilégios, os conselheiros do rei Amir instruíram-no a impedir a entrada de novos viajantes, visando preservar a cidade tal como estava. Isso tornou o reino rígido e fechado e, aqueles que eram impedidos de entrar, acabavam migrando para o Vale Ário. Assim, o Vale ficava cada vez mais populoso e alguns conflitos civis começaram a ocorrer entre os dois reinos. Alimento, comércio e até mesmo os costumes se tornaram motivo para animosidade entre os povos. Um dos conselheiros disse ao rei Amir:

– Majestade, os conflitos ficaram fora de controle e há rumores de que uma guerra pode ser armada pelo comandante do Vale. Dessa forma, o conselho propôs medidas mais duras a serem aplicadas.

O rei questionou:

– Nunca tivemos grandes problemas com essa pátria. Esse rumor é verdadeiro?

– Meu caro rei, há um ditado que diz “por causa da rosa, a erva daninha acaba também sendo regada”. Tua benevolência para essa nova pátria foi generosa, mas agora põe em risco nossa segurança. O povo do Vale já soma duas vezes a nossa guarda. Em uma possível guerra, estaremos em desvantagem.

Mediante a insistência do conselho, o rei autorizou que as instruções de alistamento fossem espalhadas para as pessoas do reino. Essa decisão chegou aos ouvidos do Vale Ário. O dirigente Sila aconselhou-se com seu sacerdote:

– Não pedi para liderar o povo do Vale, mas tomei de coração a responsabilidade para mim. Vejo agora, meu amigo, como o fardo de liderar tornou-se mais pesado do que nunca. Por qual motivo devo instigar à guerra esses pobres homens que conduzo?

– Meu jovem senhor, o rei vizinho teme uma guerra que não existe e que não queremos que exista. É necessário criar uma solução para este conflito.

Árida FlorRefletindo sobre estas palavras, Sila solicitou que preparassem um grupo de homens para se dirigir até as muralhas de Nahara com uma mensagem ao rei Amir.

Assim, uma comitiva do Vale Ário partiu para Nahara. O grupo estava desarmado e solicitava que a mensagem fosse entregue ao rei em pessoa. Os conselheiros do rei Amir alertaram-no de que poderia ser uma armadilha. Porém, aos olhos do rei, o ato era corajoso e, então, permitiu que se aproximassem. O mensageiro do grupo disse:

– Majestade, diante do rumor da guerra, nosso comandante oferece um acordo. Para manter a paz, ele propõe que o Vale Ário não mais seja uma terra independente, ficando assim, sob as leis de vossa Majestade. Porém, ele tem duas condições: uma delas é que ele possa permanecer comandando o Vale, pois ama muito aquelas terras.

Uma grande comoção se instalou nos ouvintes. Os membros do conselho estavam maravilhados com a possibilidade de possuir o comando do Vale Ário. O rei, porém, desejava conhecer a segunda condição do acordo. O mensageiro continuou:

– Majestade, nosso comandante solicita a garantia de que o Vale não será abandonado. Não haveria garantia melhor do que um membro real vivendo em nossas terras. Solicita, então, a mão de sua filha em casamento, selando a união entre os povos.

O desfecho da mensagem impactou o salão real. Os conselheiros censuraram a ousadia de Sila e falavam atrocidades contra ele. O rei ordenou que se calassem e disse:

– Fui informado por este conselho de que havia uma rebelião sendo iniciada pelo comandante Sila. No entanto, o que vi diante de mim foi uma oferta de união e que põe em minhas mãos a decisão pela guerra ou pela paz. O que me dizem agora?

Cabisbaixos, os conselheiros se calaram. O rei, então, chamou sua filha Amina e comunicou-a do acordo oferecido. Ao ouvir sobre a intenção de uni-la com um estrangeiro e precisar viver fora de sua terra natal, a princesa caiu em prantos aos pés de seu pai. O rei, comovido, falou-lhe das responsabilidades da vida de um governante:

– Querida filha, um rei vive a serviço de seu povo. Poderia também tu dedicar tua vida em benefício dos demais, para que não conheçam o horror da guerra nesta geração?

A princesa Amina chorava, mas sabia que este era seu destino. Sabia que sua felicidade pessoal parecia ameaçada. Mas acima de tudo zelava pelo bem de seu povo. O rei abraçou-a e disse:

– Minha querida Amina, abra teu coração também a esta pátria que te receberá. Este povo roga por paz assim como tu. Seja o amparo que eles tanto almejam.

Árida FlorOs mensageiros, então, retornaram com a resposta de aceitação da princesa. Em retribuição, Sila pediu que entregassem a ela um vaso que continha uma pequena planta, com galhos ásperos e folhas escuras. Essa era a única planta que havia brotado na aridez do Vale em muitos séculos.

A princesa Amina recebeu o vaso enquanto realizava os preparativos para o casamento. Antes de subir ao altar, ela confessou à sua mãe que seu coração parecia seco como aquela planta e que seus pensamentos pareciam ásperos como aquelas folhas. Dentro de si não havia alegria, mas ela procurou agir com a dignidade de uma princesa.

Após o casamento, a princesa foi morar no Vale Ário. Porém, o comandante Sila esteve ausente nas primeiras semanas de matrimônio. Ele precisou ajudar os trabalhadores nos campos de sementes, pois a seca se intensificava na região. A princesa, então, se sentiu aborrecida por não receber atenção de seu marido. O velho sacerdote, amigo de Sila, intuindo os pensamentos da princesa, lhe falou:

– Princesa, não declares que as estrelas se apagaram só porque o céu está nublado. Há muito amor no coração do senhor Sila, e agora ele demonstra isso para seu povo.

Contrariada, a princesa indagou por um lazer ou algum livro para ler. O sacerdote, constrangido, informou à Amina que não existiam livros ali, pois ninguém sabia ler, nem mesmo Sila. Todos dedicavam-se ao trabalho desde muito jovens, não havendo oportunidades para aprender essa arte. Todavia, ofereceu-lhe um passeio pelo Vale.

Árida FlorConforme iam caminhando pelas ruas, Amina percebeu o comprometimento dos habitantes com seu comandante. Todos trabalhavam com alegria e se mantinham organizados, e ela imaginava como isso era possível sem uma comunicação escrita ou sem possuírem leis impressas. A princesa foi conversando com as pessoas, olhando em seus olhos e percebeu como o povo amava seu comandante. Isso começou a despertar em seu coração um forte desejo de contribuir também. Então, solicitou que todos os dias as crianças seriam reunidas pela manhã para que ela ensinasse leitura e escrita. Já os mais velhos receberiam lições de cálculo logo após cada dia de trabalho.

O comandante Sila foi sendo informado por seu sacerdote das atividades de sua esposa. Contudo, percebeu a transformação de seu povo em um fato muito especial. Certo dia, no período de secas intensas, trabalhadores conversavam sobre a distância do rio Eufrates até o Vale Ário. Logo, chegaram a um consenso sobre a profundidade do solo em relação aos caminhos subterrâneos do rio. Sila não entendia muito bem onde aquilo iria chegar, mas autorizou os trabalhadores a agirem como achassem necessário.

Em seguida, os trabalhadores iniciaram as escavações com uma profundidade nunca antes atingida, quando então, encontraram um tesouro: um fio líquido de água fresca começou a verter no terreno árido. Conforme iam cavando, a água brotava com mais abundância e todos foram tomados por uma alegria sem tamanho. Sila, então, ordenou que naquela noite fariam uma festa em comemoração como nunca haviam visto. A notícia da chegada da água trouxe vida e entusiasmo a todos: sorriam e saudavam-se alegremente.

Naquela noite houve muita comemoração e generosidade. Sila ofereceu àquela data em nome de sua esposa Amina, a qual trouxe vida para o coração de seu povo. Amina, então, enxergou dentro dos olhos de seu esposo e viu todo o amor que ali existia. E, como se fosse uma leve onda, esse amor inundou seu próprio coração.

Árida Flor

Ao acordar na manhã seguinte, Amina observou a planta que ganhara de presente e surpreendeu-se ao ver brotar uma flor, uma única flor, mas ainda assim a mais linda que já havia visto. Possuía pétalas de seda em cor rósea como a aurora, cujas bordas iam se tornando mais vivas em tons de rubi. Diante de tão pura beleza, a princesa disse:

– Antes eu duvidava que houvesse amor em mim, como também duvidei que houvesse vida em você, bela flor. Porém, assim como a água trouxe vida para esta terra seca, o amor também irrigou meu coração, antes tão endurecido. Querida flor, te chamarei a partir de hoje de Azaléia, “aquela que nasceu na aridez do deserto”.

Autora: Monique Vicente

 

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