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Os Sete Passageiros

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Os Sete Passageiros

Em um determinado dia, resolvi fazer uma viagem. Uma viagem sem destino certo. Sai de casa e peguei o primeiro ônibus que encontrei. Como foi uma decisão impulsiva, esqueci de colocar algumas coisas na mala e fiquei preocupado com as dificuldades que poderia encontrar: será que estou levando tudo que é necessário? Será que conseguirei voltar? Será que vou gostar do caminho? Antes mesmo do ônibus partir eu já me encontrava totalmente inquieto.

Na primeira parada do ônibus, sentou-se ao meu lado uma senhora. Ela logo percebeu minha ansiedade e perguntou o que tanto me incomodava. Contei a ela que estava saindo numa viagem para um lugar que eu não conhecia e ela, achando isso uma imprudência sem tamanho, foi rapidamente me passando uma bronca ao mesmo tempo que me aconselhava como as coisas deveriam ser feitas na próxima viagem. Falou para sempre preparar-me com antecedência, fazendo uma leitura de tudo que vou precisar e imaginar os imprevistos que podem ocorrer. Disse que todo cuidado é pouco e que alguns lugares parecem ser atrativos se vistos de longe, mas quando se está lá, a realidade é bem diferente. E me disse também para aproveitar o caminho: se por uma infelicidade o destino não me parecer satisfatório, pelo menos valeu a caminhada para chegar até ele; assim o tempo passará de forma mais agradável. E foi exatamente desta forma o tempo que conversamos. Breve, mas muito proveitoso. Logo chegou o ponto de parada desta senhora e ela teve que seguir seu caminho.

Passaram-se mais alguns pontos de embarque e num deles subiram duas crianças. No início elas ficaram receosas de sentarem ao meu lado. Ficavam olhando uma para a outra com certa desconfiança. Mas foi apenas acenar-lhes com um sorriso que elas sentiram-se à vontade. Queriam saber de tudo: de onde eu era, quem eram os meus pais, para onde eu estava indo, se eu ia demorar a voltar, se era longe, enfim, perguntas e mais perguntas. Sempre com os olhos brilhando elas ouviam atentamente o que eu dizia e o melhor: gostavam do que estavam aprendendo, deliciavam-se a cada resposta. Quando chegou o momento de saírem do ônibus elas ficaram tristes, pois queriam ouvir mais da minha história. Disse a elas que talvez um dia poderiam fazer uma viagem como essa e desfrutar de momentos tais como esse que passamos ou até melhores. Foi o que bastou para que saíssem correndo pelo corredor do ônibus e atropelando-se pelas escadas.

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A terceira pessoa que se sentou ao meu lado era um senhor com cara de poucos amigos. Olhei para ele tentando algum contato visual, mas ele se demonstrava inalterável. Resolvi cumprimentá-lo verbalmente e ainda assim foi difícil desenvolver uma conversa. Aos poucos ele foi relatando-me alguns momentos de sua vida e vi que ele tinha algo em comum com a primeira mulher que tinha sentado ao meu lado. Mas seu ponto de vista era diferente. Ele havia vivido todos aqueles perigos, foi forjado pela experiência real dos acontecimentos. Lentamente pude compreender que seu silêncio não era um sinal de rudeza ou insensibilidade, mas de segurança, um escudo que evitava situações desnecessárias. Infelizmente, quando chegou sua vez de despedir-se, foi eu quem ficou com desejo de ter aproveitado mais o tempo que desfrutara com este passageiro. Despedimo-nos e segui viagem.

Alguns pontos de parada a mais e eu já estava ficando entediado. Porém, em uma dessas paradas, uma mulher entrou no ônibus que rapidamente chamou minha atenção. Era uma beleza genuinamente feminina. No começo pensei que ela não iria sentar-se ao meu lado, mas em determinado momento, nossos olhares se cruzaram e ela repentinamente sentou-se, de uma forma inexplicável para mim, e acredito que fora assim para ela também. Começamos a conversar e logo de início observei que tínhamos muitas coisas em comum. Passamos um longo tempo conversando e a medida que conversávamos foram surgindo algumas diferenças. Mas essas diferenças não influenciavam em nada o momento que estávamos compartilhando, pelo contrário, tornava tudo mais agradável. Então percebi que as diferenças não eram forças opostas, e sim complementares. Foram momentos encantadores e nem notei o tempo passar. Logo ela chegou ao seu destino e tivemos que nos despedir, para nossa tristeza.

Pois bem; eu ainda estava entristecido por ter perdido uma presença tão marcante, quando sentou-se ao meu lado uma outra criança. No começo não dei muita bola a ela, mas, diferente das outras duas crianças anteriores, esta me olhava com um olhar tão cândido que não consegui manter meu desânimo por muito tempo. Via que aquela criança necessitava de carinho e atenção, e que queria ter referenciais de como formar-se como um adulto. Durante o tempo que passamos juntos tentei passar o máximo de conhecimentos que adquiri em minha vida. Isso criou um laço de admiração por parte dela e confiança por parte minha. Confiança de que ela não tropeçaria nas mesmas pedras que eu tropecei e que certamente teria um futuro brilhante pela frente. Esse sentimento conseguiu ser mais forte que tudo que já havia sentido antes. E, novamente, quando ela partiu, senti-me triste, mas também realizado por ter feito o que me cabia para o momento.

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Algum tempo passou e comecei a sentir-me cansado de viajar. Via que meu destino estava se aproximando. Nesse ponto, uma senhora aproximou-se lentamente e sentou-se ao meu lado. Ela tinha um olhar distante, mas era notável a sabedoria em seu semblante. Tentei iniciar uma conversa com ela, mas percebi que ela não podia falar. Então tivemos que trocar apenas alguns gestos para nossa comunicação. Em certa altura da curiosa conversa, mostrei o pôr do sol a ela. Ela sorriu, pegou um papel e um lápis, terminou de escrever, dobrou o papel, pegou minhas mãos, colocou o papel entre elas e se despediu com outro sorriso. No papel estava escrito: “Querido desconhecido, todas as viagens, por mais brilhantes que sejam, um dia chegam ao fim”. Mal terminei de ler a frase e ela já havia desaparecido pelo corredor do ônibus. Levantei-me, tentei localizá-la pela janela, porém não havia mais nenhum sinal dela.

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Novamente, sentei-me no banco do ônibus e olhei por mais um instante o pôr-do-sol. Transcorreu-se um intervalo de tempo que jamais saberia contar. Talvez tenha se passado apenas alguns segundos, mas em meu interior aquele espaço de tempo durou uma eternidade. Ou quem sabe, uma viagem. Uma viagem completa em mim mesmo. Onde não havia nenhum passageiro além de mim. Eu era o condutor e o conduzido. A partida, o caminho e a chegada. O nascer, o crescer e o morrer. Senti que enfim, havia chegado em meu destino. Levantei-me e dirigi-me em direção a porta de saída, seguro de que outras viagens, cedo ou tarde, iriam novamente recomeçar.

 

Autor: Renan Ramon Ramos Mendes

 

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