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Por que Sabemos e não Fazemos?

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Por que Sabemos e não Fazemos?

 — O que te inquietas? — perguntou o ancião ao ver seu discípulo, movido pelo fogo do Deus Ares, destruir a golpes de espada uma velha carroça.

— Qual é o problema comigo, mestre? — Disse o adolescente em meio a lágrimas e suor. Por que continuo a buscar emoções vulgares? Por que meus braços continuam a praticar ações contrárias aos princípios que me ensinastes?

— Então reconheces que pensas de uma forma e age de outra?! — Disse o ancião, surpreso.

— Reconheço, mestre. E só os deuses sabem como me odeio por isso. Suplico que me oriente. Afinal, por que sabemos e não fazemos?

Já era fim da tarde e o sol mostrava intenção de se pôr. Contudo, para os dois filósofos o dia acabara de começar.

Satisfeito com a dignidade da pergunta, respondeu o ancião:

— Em síntese, Alexandre, se não fazemos é porque não sabemos. Pensávamos que sabíamos, mas faltava-nos a CONVICÇÃO.

— Convicção, mestre? Mas eu creio em suas palavras. Que tipo de convicção me falta?

— Falta conhecer a ti mesmo para além da crença, Alexandre. Só após este aprofundamento sobre você mesmo é que terás um saber que sustentará o teu fazer. Este é o poder da CONVICÇÃO. Além disso, quando empreenderes essa busca, duas coisas ficarão claras: que toda a humanidade em um chamado próprio de ser humano e que devemos nos qualificar para servir este chamado.

— Chamado próprio, mestre? Refere-se a uma vocação comum a toda humanidade?!

— Isso mesmo, Alexandre. Conhecer e cumprir o chamado próprio de ser humano é apossar-se da verdade de que somos todos, em alguma medida, convocados pelo destino a servir à Unidade. No seu caso, como idealista desperto que é, cumprirá esse chamado servindo o um Ideal. Mas lembre-se: a qualidade do seu serviço será sempre limitada ao seu grau de autodomínio.

— Que curioso, mestre. Por meio do autoconhecimento, posso adquirir uma CONVICÇÃO que não só me proporcionará o autodomínio, como também me remeterá a um Ideal?!

— Exatamente, Alexandre. E tudo começa com a busca do conhecimento sobre quem você é. É a convicção nesse conhecimento sagrado que sustenta o bom fazer. Esse é o motor oculto da reta-ação. Sem essa convicção, nossa natureza animal mais antiga se impõe. Então passamos a alimentar apenas nossas necessidades instintivas – a busca do prazer e a fuga da dor –. Mas, agir como animais ignorando nossa natureza humana trará apenas uma satisfação momentânea seguida de grande vazio. E disso você conhece bem, Alexandre. Então, quando dizes que sabe, mas não faz, esse seu saber, na verdade é apenas uma fraca opinião que carregas na mente. Opinião sobre princípios que ainda não são teus, pois carecem de uma investigação apurada para substanciar a convicção. Também pode ser que tu tenhas apenas uma crença em minhas palavras, por confiares em mim. Porque tu, Alexandre, creditas em mim uma autoridade, então crês no que digo. Mas tal crença muitas vezes não resiste às grandes paixões impostas pelas circunstâncias, pois assim como a opinião, a crença carece de evidências próprias. Por isso não basta apenas ouvir-me, Alexandre. Tens que aplicar as ideias, prová-las e fazê-las tuas. Deve atrever-se a pensar, sentir e explorar teu mundo interior em busca de tuas intuições. A opinião e a crença não servem para os reis filósofos, Alexandre. Estas, quando muito, são estágios transitórios rumo à convicção.

— Intrigante, mestre. Nunca pensei que opiniões e crenças pudessem ser tão destrutivas.

— Se te faltas força para manter-se na reta ação, então andas mal acompanhado, meu jovem; ou pela ignorância, pai dos desregrados; ou pela opinião e crença. O verdadeiro saber e por consequência a disciplina do reto agir andam juntos dessa “Vontade Mental” denominada convicção. Uma convicção que se conquista pela investigação e pela prática até que se encontre essa espécie de evidência pessoal sobre o tema, seja ela física ou intuitiva.

— Uma convicção firmada por evidência intuitiva, mestre? O que queres dizer com isso?

— As questões mais importantes da vida, Alexandre, relacionam-se com ideias transcendentais. Essas ideias nem sempre nos oferecem uma evidência física para firmar nossas convicções, mas nunca deixam de oferecer uma evidência intuitiva para aqueles que são verdadeiros buscadores. A evidência intuitiva é aquela que você sente que é verdade, como uma reminiscência gravada em seu coração. Cabe a você apurar sua intuição e ouvi-la. Isto porque as opiniões e as crenças, quando não investigadas até as evidências, roubam o espaço sagrado destinado à convicção e tornam o homem fraco, suscetível ao descontrole.

— Então mestre, queres dizer que as opiniões e as crenças carecem de força para manter o homem fiel ao melhor dele mesmo? Queres dizer que só o aprofundamento da convicção é capaz de integrar o homem dividido e alinhar pensamento, sentimento e ação?!

Por que Sabemos e não Fazemos?— Sim, Alexandre. Este é justamente o poder da convicção – integrar o homem –. Mas algumas reflexões ainda se fazem necessárias. Ao homem mais inferior, classifico-o como desregrado, pois é filho da ignorância e, portanto, não sente culpa diante dos vícios, pois não os reconhece como tais. Um pouco menos inferior, temos o homem descontrolado, filho da opinião e da fraca crença que, assim como você, retorcem-se na culpa pelos erros cometidos. Mas há aqueles que, mesmo sem investigar, creem nos dizeres valorosos de um bom mestre com tal força que não cedem aos vícios, embora sofram no exercício desse controle, pois desejam em alguma medida os excessos. A estes, chamamos de controlados e merecem nosso reconhecimento. Contudo, o homem realmente virtuoso e superior não é o controlado, mas o MODERADO, Alexandre. Este não se divide, pois tem por base, não uma crença destituída de evidências, mas a convicção no verdadeiro conhecimento. Porque “conhece a si mesmo” com convicção, o homem moderado deseja só aquilo que lhe é devido, segundo a sua Alma. Assim, não só não sofre quando na abstenção do indevido, como também sente até prazer nesta abstenção.

— Mestre. Parece-me que o homem controlado, motivado por suas crenças, e o homem MODERADO, motivado pela convicção, são muito parecidos. Ambos sustentam uma ação nobre.

— Exatamente, Alexandre. O que diferencia os dois é que o homem controlado está a sofrer internamente ao se abster do prazer indevido, enquanto o homem moderado sente prazer nesta mesma abstenção. De forma similar, o homem desregrado age externamente como o homem descontrolado. A diferença está nas emoções internas. Enquanto o desregrado não sente culpa, o descontrolado arrepende-se, pois a total ignorância não o “protege” mais.

— Se eu soubesse tudo isso antes, mestre. Mas agora o que fazer com toda essa indisposição emocional de culpa e vergonha que me chegam por assalto toda a vez que a lembrança de meu passado se apresenta?

— A dor é naturalmente pedagógica, Alexandre. Embora o bom senso sugira que não procure a dor, também aconselho-te a não fugir dela. Melhor seria que durante a dor da culpa você buscasse, por meio da imaginação, elevar sua consciência ao nível do homem MODERADO.

— O que queres dizer, mestre?!

— Quando lembrar do passado, Alexandre, certifique-se de constatar onde está sua consciência. Se enquanto lembras, a tua consciência ainda estiver no nível do desregrado, então pode ser que sintas excitação e saudosismo com este tipo de lembrança. Porém, se tua consciência estiver no nível do descontrolado ou controlado, sentirá uma mistura de excitação com remorso. Por fim, se estiveres com a consciência mais alta, ao nível do homem moderado, então qualquer lembrança do passado virá para ti acompanhada de autocompaixão e gratidão pelo aprendizado. Isto porque, Alexandre, superado as ilusões, toda experiência, boa ou má, é apenas aprendizado. Por tudo isso, sugiro que desde já faça o exercício de imagina-se com a convicção e consciência de um moderado, mesmo que ainda não seja um. Faça o mesmo toda vez que o passado lhe assaltar. Isto lhe poupará energia e te colocará mais rápido no caminho da correção.

— Depois de tudo que me disseste, mestre, e observando-me com veracidade posso dizer que dentro de mim mora um desregrado para alguns assuntos; um descontrolado para outros; um controlado para alguns poucos e um MODERADO na raridade.

— Assim somos todos em alguma medida, Alexandre. Ignorantes para alguns assuntos, meros opinantes para outros, dogmáticos para uns tantos e raramente convictos. Mas não esqueça que um filósofo é acima de tudo um artesão a esculpir-se rumo à obra-prima da MODERAÇÃO.

— Bendito sejas, mestre. Fostes benevolente e destes a cura para minhas aflições. A partir de hoje buscarei aprofundar minhas convicções e farei bom uso da imaginação. Com a espada da investigação e o exercício da vontade tomarei posse de mim mesmo.

— Neste caso, age bem, Alexandre, e tens todo meu apoio. Mas aqui vai um último alerta: busque as convicções, mas não confunda suas convicções com a Verdade. Primeiro porque a “Verdade Absoluta” não é deste mundo. Segundo porque, embora a verdadeira convicção seja reflexo de sabedoria, existe uma falsa convicção que marcha por caminhos perversos.

— Não entendi, mestre. Ora você me diz que a convicção é requisito para a moderação e é a única ferramenta capaz de curar minha incoerência e agora o senhor me diz que ela pode ser um instrumento perverso? Como isso é possível?

— Alexandre. Muito mal se fez e muito mal se fará quando pessoas poderosas, mas ignorantes no amor, confundem sua falsa convicção com a Verdade. Nesse caso, a pior inimiga da Verdade, não é a mentira, como se pensa, mas sim a convicção desvirtuada da Verdade.

— Então, como saber se tem Sabedoria e Verdade em minhas convicções, mestre?! Como saber se minhas convicções estão desvirtuadas e, portanto, fora da virtude?

— A Sabedoria, meu caro, é a emanação do 2° Logos e por isso anda sempre junto do Amor. O Amor é o solvente natural do pequeno eu egoísta. Eis uma boa dica para saber se suas convicções são verdadeiras e sábias: quando buscardes as evidências para fortalecer suas convicções, veja se elas também estão banhadas pelo Amor. Use o Amor como régua para firmar suas convicções. Afinal, um Ideal subjetivo de Sabedoria é sempre um Ideal objetivo de Amor.

— Acho que entendo, mestre — disse um Alexandre já mais calmo. Mas isso me força a confessar-te mais uma coisa. Também não tenho certeza se eu sei o que realmente é o Amor.

As palavras do jovem tocaram profundamente o ancião, que lembrou-se de seus próprios mestres e de seu próprio discipulado que um dia começou, mas nunca há de terminar.

Então, disse o ancião já recuperado:

— Se já sabes que não sabe, meu jovem, então já sabes muito. Eis que você se encontra pronto para investigar e aprender a viver o amor verdadeiro. Por estar vazio de soberba, podes investigar com afinco essa suprema virtude que tão bem serve à Unidade. Agora voltemos ao castelo, pois já é tarde e a moderação nos convida ao descanso.

— Se é a Moderação que nos convida, mestre, então nos curvemos a ela.

 

Autor: Leandro Guedes dos Santos

 

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