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A Descoberta do Generoso em Genaro

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A Descoberta do Generoso em Genaro

Acordou ressaltado no meio da noite e vieram as imagens de todos. Era como mais um dos filmes dentro do cinema mental (que ele mesmo deu o nome e só ele conhecia), mas desta vez em altíssima resolução. “Não sabia que eu podia ver a minha mente em 4k”, divagou rindo, mas as imagens continuaram a passar e ele pensou em cada um dos seus primos e primas, tios e tias, pais e irmãos… De repente tudo fez sentido! O que até aquele momento era uma nuvem de dúvidas, mudou de figura, e chegou a um final feliz. Deitou-se, adormeceu, e o filme, no cinema mental, recomeçou.

Ao acordar sendo chamado por sua mãe, conhecida como “dona” Maria das Dores, o jovem Genaro começou o dia com a irritação habitual, pois detestava seu nome. Colocou o uniforme do colégio e desceu para o café, quando viu que seu pai, Virtulino Virtuoso, estava com o sorriso e a energia de sempre. “Se todos dizem que eles formam um casal quase perfeito, este ‘quase’ deve ser por conta deste grande erro que é o meu nome”, Genaro praguejou mentalmente. Afinal, todos diziam que seus pais se completavam e era comum ouvir na sua rua que “o Virtuoso Virtulino faz Maria esquecer das Dores”.

Quando perguntava ao pai o porquê daquele nome, recebia a mesma resposta: “O seu avô sempre dizia: ‘Filho, o seu nome é sua missão. Viva, reflita, olhe para dentro e descobrirá!’”. Aí ele se acalmava um pouco e fingia que entendia, mas não entendia (acho que vocês sabem como são essas coisas!).

A sua família inteira tinha nomes estranhos. A começar por Virtulino, somavam-se os tios Ordílio, Honestino e Responsildo, a tia Purina… Ele não conseguia compreender porque o avô, que se chamava Jorge, os escolheu. “E por que esse costume não parou na geração anterior à minha?”, pensou. Mas seu pai dizia que Vô Jorge era uma pessoa muito sábia; devia ter uma razão! E suspirou enquanto lembrava – com um amor devocional – de uma pessoa que ele não conheceu.

“Viva, reflita, olhe para dentro e descobrirá”, e as palavras iam e voltavam como se o Vô – ou Mestre? – Jorge as dissesse diretamente para ele, e Genaro saiu a caminho do colégio. Estava tão distraído que chutou uma pedra. Quando olhou para o chão viu um chumaço de notas; muito dinheiro… A dor num instante passou, olhou para os lados e não encontrou ninguém. O que deveria fazer? De quem seria o dinheiro? Qual a razão de tê-lo encontrado? Levou-o consigo e decidiu decidir depois. “Qual será a figura de linguagem nas palavras ‘decidiu decidir’? – pergunto para a professora na aula”, novamente distraiu-se, mas registrou a nota mental, enquanto seguia com o dinheiro no bolso.

A Descoberta do Generoso em GenaroNa rua dos Apoquentados, a caminho da escola, passou novamente pela casa caída – nome dado por ele e pelos colegas para uma construção com aspecto bem “caído”. Resolveu bater à porta. Nunca teve esse desejo antes, mas algo muito forte dentro dele o fez mudar de caminho. Não entendia, mas entendia (acho que vocês sabem bem como são essas coisas!).

“Ô de casa”, “alguém em casa” e saiu à porta uma senhora bem idosa, a coluna bastante curvada e com dificuldade em andar. Quando olhou para o garoto, perguntou o que ele fazia ali e ele disse não saber! “Algo em meu coração, senhora, me disse para bater aqui! Eu nunca senti isso, estava andando e pum… Algo me puxou”. E a dona Sozilda o convidou a entrar.

Genaro não notou o tempo passar a conversar com Sozilda. Parecia que já se conheciam: apesar de não saber nada sobre ela, gostava dela. Ela era uma pessoa bastante interessante, vivia só, contou que conhecia um pouco da família dele e continuou.

Enquanto falava, Genaro olhou atentamente para a “casa caída” por dentro e viu que o estado realmente não era muito bom. Era péssimo, na verdade, e ele se perguntou como aquela senhora conseguia viver ali. Pensou no dinheiro no bolso e quis oferecer, mas não era dele. Lembrou da lição do tio Honestino: “não tome pra si nada que não seja seu”. E continuou a conversar.

Olhou para uma estante e viu diversas fotos, mas em todas Sozilda estava sempre só. Um pouco mais ao lado viu uma caixa repleta de remédios. Ela era muito magra e parecia ter uma saúde bem débil, mas adorava conversar.

A Descoberta do Generoso em GenaroE Genaro esteve atento a tudo o que ela dizia, mas o coração doía pelo aspecto estrutural da casa, pela vida dela. Uma verdadeiro filme de guerra passava em seu cinema mental: queria, mas não podia doar um dinheiro que não o pertencia. A cena de guerra interior acabou e um dos exércitos ganhou: “Dona Sozilda, eu não sei porque vim aqui, mas antes de chegar encontrei uma grande quantia na rua, por acaso. Deve ser isso, só pode ser isso: eu gostaria de te dar esse valor. Acho que a senhora vive em condições ruins, isso pode ajudar…” e, enquanto falava, aquela senhorinha deu o sorriso mais cativante e amoroso que ele já viu.

“Querido, olhe para dentro da minha casa e reflita: do que eu mais preciso? Eu sou uma pessoa muito só, e você entrou aqui para ficar um pouco comigo. Não sabes a quanto tempo eu não converso, não me sinto à vontade com alguém. Trouxeste luz e felicidade. Em virtude de minha aparente pobreza todos os meus vizinhos me desprezam, mas você veio e me deu algo seu: sua presença, sua companhia. A generosidade não está em dar o que não é nosso, Genaro, e sim em gerar para dar. E você me deu algo que é seu!”. E contou um segredo: quando você entrega algo de coração, esse algo se multiplica e não deixa de ser seu!

“Isso é ser generoso, querido Genaro”. E a casa se desfez em nuvens lindas, e ele parecia cair dos céus sustentado por uma delas, retornando, retornando…

Acordou de novo… Já eram 6 da manhã e antes de sua mãe o chamar, ele a encontrou e a beijou. Arrumou-se, desceu e abraçou o pai. Ia saindo quando Virtulino perguntou o que ele faria durante o dia: “Vou viver, refletir e olhar para dentro, mas acho que já descobri o generoso dentro do Genaro, pai”.

 

Autor: João Paulo Vieira

 

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