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Festa Interior

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Festa Interior

Conta uma antiga lenda, sobre um povo que viveu em um tempo tão longínquo e remoto, naquele tempo em que os Deuses tinham contato direto com os humanos…

Diz-se que os Deuses tinham uma predileção especial por um povoado chamado Raville, lá onde morava o pequeno Ravi, menino por Eles abençoado e destinado a se destacar entre seus companheiros. Nesse povoado, imerso em um vale de magnífica beleza, rodeado de uma exuberante vegetação, vivia um povo simples e acolhedor. Os Deuses sabiam que eram homens de boa vontade, mas que estavam um tanto quanto adormecidos… E planejaram uma grande festa para despertar esses seres queridos.

Festa InteriorO anúncio foi dado como um arauto a todos os habitantes desse pequeno povoado. Era um chamado misterioso, que conclamava cada morador a se preparar para esse grande evento. Todos deveriam esperar uma visita especial em suas casas.

Isso criou um tumulto tão grande entre os moradores, onde todos especulavam e imaginavam o que iria acontecer e como iria acontecer. Foi um alvoroço total. Como se preparar para receber uma visita divina? Ninguém sabia o que fazer. Seria a primeira vez que os Deuses desceriam para a Terra de forma tão especial.

Começaram então a cuidar melhor de seus corpos. Iniciaram um programa de ginástica para fortalecimento corporal e um programa alimentar para tornarem-se mais saudáveis. Isso não foi muito complexo, pois já estavam habituados a manter seu físico ordenado. Apenas estavam um pouco acomodados…

Em seguida começaram a arrumar suas casas. Optaram por fazer uma limpeza tão profunda como nunca haviam feito antes. Não ficou um só canto sem brilho, nenhum espaço sem ser vasculhado e remexido. Aposentos sem uso foram abertos e ventilados, roupas e utensílios desnecessários doados ou reciclados. Móveis foram consertados, telhados refeitos, janelas desobstruídas, paredes pintadas. Tudo foi objeto de um olhar atento, perscrutador, em busca de melhorias. Não foi uma tarefa fácil. Foi à custa de muito suor, dúvidas, inseguranças e até lágrimas. Desapegar-se de alguns de seus pertences tão queridos, outros talvez inúteis ou sem significado algum, foi a parte mais difícil e dolorosa. Mas, à medida que se esforçavam, tudo se iluminava. As casas ganhavam novos ares! Sentia-se um frescor e um perfume suave que exalava por todos os cantos de Raville. Estavam no caminho certo! Sentiam-se mais leves e mais puros após essa grande lustral. Mas sabiam em seu íntimo que algo mais seria necessário…

Festa InteriorDirigiram-se então aos jardins, pomares e quintais de suas casas. Podaram as gramas, árvores, folhagens e flores, renovaram os canteiros de hortaliças. Cada um destes pequenos seres que recebia vida nova deixava no interior de seu “salvador” uma pequena semente de gratidão, que iria brotar em breve.

Em um curto espaço de tempo essa natureza caseira floresceu, verdejou e, em festa, sorria e doava sua beleza intrínseca a esses locais outrora esmaecidos. Um perfume de flores e ervas se espalhou pelo ar, a mistura esfuziante de cores produzia até um ardume nos olhos ao se observar tamanha beleza. Lindos pássaros canoros surgiam de todos os lados e uma orquestra de harmoniosa doçura podia ser ouvida onde quer que se passasse. Mas sabiam em seu íntimo que algo mais seria necessário…

Então foram cuidar de seus animais. Gatos, cachorros, coelhos, vacas, cavalos, enfim, toda a espécie animal foi cuidadosamente tratada, muitas doenças curadas, muito amor espalhado para essas criaturas tão amigas dos homens. Em cada etapa de embelezamento e cura externa os homens percebiam que, à medida que cuidavam do seu entorno e dos pequenos seres vivos da natureza, sentiam-se revigorados e fortalecidos internamente. Era como se parte da potência desses seres fosse para eles transferida.

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Lá do alto os Deuses sorriam. Sabiam que os homens de Raville encontrariam o seu caminho de volta! E mais uma vez uma nova energia se apoderou desses moradores. Começaram a compartilhar com seus vizinhos os feitos de cada família. E perceberam a necessidade de checar se todo o povoado estava em condições de receber os Deuses. E lá foi o nosso pequeno Ravi verificar quem estava precisando de ajuda. Descobriram algumas casas que ainda não haviam passado por esse processo, ou por serem muito pobres ou por seus moradores serem muito anciãos. Liderados por Ravi, os mais jovens e mais fortes reuniram-se em um mutirão e puseram-se a ajudar na recuperação das pessoas e na renovação dessas casas. Agora todo o povoado estava belo, limpo, reluzente, florido, e todo seu povo saudável. Assim unidos conseguiram deixar Raville pronta para receber a visita mais importante de suas vidas. Mas sabiam em seu íntimo que algo mais seria necessário…

Ravi, em sua pureza, conseguia perceber a presença dos mensageiros divinos, que observavam de perto os trabalhos desse povo eleito. E esses mensageiros, enigmáticos, transmitiram-lhe a mensagem de que ainda não estavam prontos. Contou isso imediatamente a seu pai e, em família, puseram-se a refletir e olhar em suas casas o que poderia estar faltando. Então começaram a olhar um para o outro. E começaram a ver, além das belezas e qualidades individuais, os defeitos de cada um. A beleza da casa não fora suficiente para harmonizar completamente a família.

Reuniram-se então os chefes de cada família e os sábios do povoado, para decidir o que deveria ser feito. Perceberam que necessário seria embelezar o interior de cada ser para que os Deuses pudessem ser atraídos aos locais. Todo membro de uma família seria responsável por uma virtude para ser trabalhada em sua casa, por um determinado período. Tão logo estivessem aptos a praticá-la, iriam imediatamente à casa de seus vizinhos para compartilhar esse conhecimento. E trariam da casa visitada o aprendizado recolhido por lá.

Os sábios anciãos, ao perceberem a prática das várias virtudes, complementares entre si, a integração na própria família e com os vizinhos, ficaram satisfeitos com os resultados. Em pouco tempo o povoado estava unido e as virtudes multiplicadas.

Agora era o momento de fazer uma seleção dessas virtudes, para colocar nas portas de suas casas o símbolo correspondente, a fim de mostrar aos mensageiros dos Deuses que estavam prontos. No entanto, essa decisão causou uma disputa muito grande no povoado, pois as virtudes se repetiam, concentradas nas “maiores e mais importantes”. Alguns queriam mostrar aos Deuses que a sua virtude era a melhor entre todas. Ainda não estavam bem prontos…

Então resolveram fazer uma grande reunião com todo o povoado e cada família deveria fazer a defesa da virtude escolhida. Os mensageiros, percebendo a dificuldade dos homens, resolveram dar uma ajuda e participar dessa reunião. Somente Ravi os via, e sentia-se fascinado pela angelical face de cada um desses seres enviados pelos Deuses. Eles assopravam no ouvido dos juízes, eleitos para atuarem nessa reunião, que toda e qualquer virtude seria bem aceita pelos Deuses, desde que conseguissem provar que ela estava não só escrita na porta de suas casas, mas marcadas no coração de cada morador.

E como conseguiriam provar isso? A virtude escolhida teria que favorecer não só a família que a escolheu, mas também a de cada vizinho de sua rua. Assim todos estariam tão entrelaçados com suas virtudes que não haveria porque escolher a maior ou menor entre elas.

Festa InteriorE assim foi feito. Então os deuses sorriram e derramaram bençãos sobre todos. Finalmente chegara a hora de premiá-los, enviando novamente seus mensageiros para marcar o dia da grande visita e grande festa. E, como da primeira vez, aquele arauto misterioso e fascinante os conclamou. Os Deuses desceram ao povoado e tocaram o coração de cada um dos moradores. Como que hipnotizados, todos, ao mesmo tempo, dirigiram-se ao local de reuniões. Percebiam que estavam leves e com o coração borbulhando de felicidade. Nos olhos de cada um havia um brilho diferente, vindo da luz resplandecente da alma. Os rostos expressavam uma alegria pura, vinda dessa maravilhosa centelha divina. Tudo isso denotava que os Deuses estavam com eles.

A promessa dos Deuses se cumpriu. Reunidos no grande salão, eram Um só, irmanados, festejando o grande encontro consigo mesmos e com cada companheiro ao seu lado. Sentiam que, da visita tão almejada, o caminho percorrido foi tão importante quanto a vitória alcançada.

Ravi sentiu algo tão grande dentro de seu pequeno coração, uma emoção tão forte, um aconchego tão carinhoso, como se estivesse nos braços de Deus. E, instintivamente, saiu do salão para elevar os olhos ao céu. Viu um halo de luz enorme que envolvia todo o salão e toda a extensão de Raville. Os Deuses estavam mesmo com eles. E a festa era no interior de cada um, ostensivamente sagrada. Mas Ravi sabia em seu íntimo que algo mais seria necessário…

Aquele povoado nunca mais foi o mesmo, permaneceu desperto! Ravi foi crescendo e começou a organizar expedições aos povoados vizinhos e a conclamar que fizessem o mesmo que eles haviam feito. E assim o amor dos Deuses e dos homens se propagou pelo universo!

E Ravi fez jus ao nome que seu pai lhe deu…

 

Autora: Izabel Aparecida Pereira

 

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