A História sem Fim (1984)

O filme A História sem Fim começa com um menino escondido num sótão, lendo um livro sobre um reino que o Nada está apagando. Diante disso, surge uma reflexão: imaginar é fugir da realidade ou, pelo contrário, criar a partir dela?

 

Esta ficha traz sinopse, abordagem filosófica, perguntas para reflexão e citações.

Arte de capa da ficha do filme A História sem Fim: A Viagem da Vida: Juventude, de Thomas Cole

Ficha técnica

Título original The NeverEnding Story (alemão: Die unendliche Geschichte)
Ano 1984
Duração 94 min
Direção Wolfgang Petersen
Roteiro Wolfgang Petersen e Herman Weigel, a partir do romance de Michael Ende
Elenco Barret Oliver (Bastian), Noah Hathaway (Atreyu), Tami Stronach (Imperatriz Criança), Moses Gunn (Cairon), Gerald McRaney (pai de Bastian), Thomas Hill (Carl Conrad Coreander, o livreiro), Patricia Hayes (Urgl), Sydney Bromley (Engywook), Alan Oppenheimer (vozes de Falkor e Gmork, na versão original)
País Alemanha Ocidental e Estados Unidos
Gênero Fantasia e aventura
Lançamento mundial 6 de abril de 1984 (cinemas, Alemanha Ocidental)
Classificação indicativa Livre

Sinopse de “A História sem Fim”

Um menino corre pela rua, perseguido por três colegas, e, para escapar, esconde-se numa livraria. Bastian vive só com o pai desde a morte da mãe e, durante as aulas, passa o tempo sonhando acordado. Certo dia, o velho livreiro tem nas mãos um livro antigo e avisa o menino de que aquela leitura não é para ele. Mesmo assim, Bastian leva o livro escondido. Ao chegar atrasado à escola, em vez de entrar na sala, sobe ao sótão para começar a ler.

Enquanto isso, o livro conta a história de Fantasia, um reino de criaturas extraordinárias que está sendo devorado pelo Nada. Trata-se de um vazio que avança e apaga tudo o que toca. Nesse cenário, a Imperatriz Criança, que governa esse mundo, adoece. Diante disso, um jovem guerreiro chamado Atreyu recebe a missão de encontrar a cura. Para cumprir seu objetivo, parte levando apenas um amuleto que o guia. À medida que avança na leitura, Bastian começa a suspeitar que, de alguma forma, a história sabe que ele está ali.

Ruínas de uma abadia gótica entre carvalhos desfolhados, sob um céu crepuscular, com um pequeno cortejo de monges, de Caspar David Friedrich.
Abadia no Carvalhal (Abtei im Eichwald), Caspar David Friedrich, 1809–1810. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Abordagem filosófica

O inimigo de Fantasia não é um monstro nem um exército. É o Nada: um vazio sem forma que não luta, apenas apaga. Afinal, há mundos que não morrem pela guerra, mas pelo abandono. Nesse sentido, o filme sugere que algo parecido acontece dentro de nós. Quando deixamos de imaginar o que poderíamos ser, alguma coisa começa a sumir sem barulho.

Imaginar, nesse contexto, não é fugir da realidade. Pelo contrário, é ver o que ainda não existe, mas poderia existir. O oleiro, por exemplo, precisa ver o vaso antes de modelá-lo; sem essa imagem, só tem barro nas mãos. Inicialmente, Bastian abre o livro para escapar dos colegas e da tristeza de casa. No entanto, o livro não se contenta em ser uma fuga. Aos poucos, pede cada vez mais que ele participe.

O desânimo e a força de continuar

No Pântano da Tristeza, Atreyu caminha puxando o cavalo, Artax. Ali, quem se deixa vencer pela tristeza afunda. Em determinado momento, Artax para. Atreyu o chama, puxa as rédeas e pede que ele não desista. Ainda assim, a lama sobe devagar. Essa é a cena mais dura do filme e, ao mesmo tempo, a mais clara: o desânimo não derruba de uma vez; pelo contrário, é um peso que aceitamos aos poucos. De maneira semelhante, na Bhagavad Gita, o guerreiro Arjuna também fica paralisado diante da batalha. Entretanto, o chamado que recebe é o mesmo: levantar-se!

Gravura em metal de uma figura alada sentada, com a cabeça apoiada na mão, cercada de instrumentos abandonadosNo Pântano da Tristeza, Atreyu tenta tirar Artax da lama: o desânimo não derruba de uma vez, pesa aos poucos. Imagem: Albrecht Dürer, Melencolia I, 1514. The Metropolitan Museum of Art, Nova York (domínio público), via fonte.

O autoconhecimento e a participação na própria vida

Mais adiante, Atreyu precisa passar diante de um espelho mágico que mostra a cada um quem ele de fato é. Diante dessa experiência, muitos fogem do que veem. Afinal, os mitos sempre usaram espelhos assim: a aventura do herói é a nossa, contada com outros nomes. Nesse sentido, Lao-Tsé ensinava que conhecer os outros é perspicácia, mas conhecer a si mesmo vai além. O que Atreyu vê não convém contar aqui. Basta dizer, porém, que o herói e o leitor estão mais perto do que parece.

No início, Bastian é apenas um leitor escondido num sótão. Contudo, pouco a pouco, entende que nenhuma história se cumpre sem alguém que aceite entrar nela. Assim, o destino de Fantasia passa a depender de uma escolha que só ele pode fazer. Trata-se da passagem de espectador a protagonista da própria vida. E essa transformação não acontece por acaso: exige imaginação e, sobretudo, vontade.

Por fim, todos guardamos uma Fantasia que o Nada ameaça: um sonho adiado, um ideal que deixamos de alimentar. Diante disso, vale perguntar: qual é a sua? E, mais importante, o que você está disposto a fazer, hoje, para que ela não desapareça?

Perguntas e problemas propostos por “A História sem Fim”

Imaginação e realidade

Desânimo e coragem

O leitor e o herói

Outras perguntas que surgem do filme

As grandes oposições do filme

Imaginação e Nada

Esperança e desânimo

Espectador e protagonista

Citações

“Também deveríamos aumentar a nossa imaginação, pois ela é a arma com que podemos criar.”

También deberíamos acrecentar nuestra imaginación, ya que ella es el arma con la que podemos crear.

Delia Steinberg Guzmán, Crecer en memoria e imaginación (artigo extraído do livro Recuerdos y reminiscencias). Biblioteca de Nueva Acrópolis, publicado em 12-06-2015. Fonte (tradução livre)

“Inclinamo-nos a pensar que os grandes sonhos existem, mas é preciso saber encontrá-los. São sonhos que eliminariam pouco a pouco a angústia, mas que, para isso, precisam tornar-se realidade.”

Nos inclinamos a pensar que los grandes sueños están, pero hay que saber encontrarlos. Son sueños que eliminarían poco a poco la angustia, pero que para ello necesitan convertirse en realidad.

Delia Steinberg Guzmán, Angustia juvenil (artigo). Biblioteca de Nueva Acrópolis, publicado em 18-10-2014. Fonte (tradução livre)

“Desperta! Sê tu mesmo! Levanta-te, flagelo dos teus inimigos!”

Wake! Be thyself! Arise, Scourge of thy Foes!

Bhagavad Gita (palavras de Krishna a Arjuna; tradição indiana, atribuída a Vyasa), Bhagavad Gita, na tradução poética inglesa de Sir Edwin Arnold, The Song Celestial (domínio público). Capítulo II, abertura da resposta de Krishna. Project Gutenberg nº 2388. Fonte (tradução livre)

“Quem conhece os outros é perspicaz; quem conhece a si mesmo é inteligente. Quem vence os outros é forte; quem vence a si mesmo é poderoso.”

He who knows other men is discerning; he who knows himself is intelligent. He who overcomes others is strong; he who overcomes himself is mighty.

Lao-Tsé (atribuição tradicional), Tao Te Ching. Capítulo 33. Tradução inglesa de James Legge, The Tao Teh King (domínio público), Project Gutenberg nº 216. Fonte (tradução livre)

Leituras recomendadas

Podcast Nova Acrópole: “Qual a relação do filme “A História sem fim” com a sua vida?” — ouça ou baixe o episódio ou acesse no YouTube.

Leia também

Imagem de capa: A Viagem da Vida: Juventude (The Voyage of Life: Youth), Thomas Cole, 1842. Domínio público, via Wikimedia Commons.

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