
Fernando Schwarz: Qual é a relação entre filosofia e natureza?
Delia S. Guzmán: Se entendemos por filosofia em seu sentido mais amplo, como amor à sabedoria, incluímos nessa sabedoria todas as leis da natureza. Logo, não podemos depreciar as leis; o que precisamos fazer é conhecê-las, buscar seu profundo sentido. A busca desse sentido profundo implica amor, não um amor como reação emotiva, mas um amor com compreensão, como aceitação destas leis e, sobretudo, como colaboração a essas leis.
F.S.: Você quer dizer que a filosofia não se ocupa simplesmente de abstrações?
D.S.G.: Em absoluto. Por isso mesmo que retomamos do mundo clássico o conceito de amor à sabedoria, onde esse amor não se reduz ao estudo das coisas, mas ao estudo e aplicação de todas as coisas que estudamos. Os conceitos abstratos nos distanciam do mundo, nos distanciam do entorno, nos distanciam das pessoas, nos distanciam de nós mesmos; portanto, também a filosofia deve ser ativa. E, de que se ocupa a filosofia? De tudo. A partir do momento em que se ocupa do homem, da realidade do homem e das possibilidades do homem, como podemos restringir o campo da filosofia? Seria, portanto, a mais ampla de todas as ciências, e a mais ampla de todas as artes.
F.S.: Dentro deste mundo vivente, dentro da Natureza, que lugar ocuparia o homem?
D.S.G.: Se fosse por nossa conta, buscaríamos o melhor, o lugar mais destacado possível, porque nos acostumamos a pensar que o homem é a coroa de toda evolução possível. Não nego que se nos compararmos com o mundo animal, vegetal, mineral, o homem apresenta algumas características mais desenvolvidas. E esse é precisamente o lugar que deveríamos ocupar na Natureza, não por vaidade de nos sentirmos os melhores, os únicos no topo da evolução, mas, precisamente porque vemos que em nós há uma diferença para o bem, ou para mais respeito aos minerais, às plantas e aos animais, isso nos outorga maior responsabilidade. Qual é nosso lugar na Natureza? É o de máxima responsabilidade. O que não pode fazer um mineral, o que não pode fazer uma árvore, o que não pode fazer um animal, nós podemos. E esse é o lugar do homem: poder pensar, colocar-se de acordo com a Natureza e trabalhar por ela, não quebrando suas leis. Eu lhe concederia, do ponto de vista filosófico, um papel de apoio e responsabilidade, jamais de destruição e de aproveitamento.
F.S.: Como podemos compreender e agir segundo as leis? Que leis?
D.S.G.: Vemos diariamente um sol que surge no horizonte e se esconde à tarde, no Ocidente. Estamos acostumadas as estações, ao seu percurso; estamos acostumadas as tormentas, aos resultados das tormentas, um vulcão que entra em erupção, o mar que avança e arrasa as praias. Pensamos que tudo isso acontece por quê? Nossa digestão, ou a aceleração de nosso pulso, ou o coração que, às vezes, parece querer saltar pela boca, acontece por que é assim? Entendo por leis o descobrir como e porque funciona a Natureza. Isso deve partir necessariamente de uma observação filosófica; não simplesmente o espírito de investigação de querer saber “o que”, mas querer saber “por que”. Para isso faz falta paciência, contemplação e respeito por tudo o que vemos; não é simplesmente um conjunto de experiências e ver quantas vezes se repete, mas observar que as coisas que estão acontecendo, não acontecem por acaso. Isso é compreender a Natureza e descobrir suas leis. Uma forma sistemática de ação, da mesma maneira que as aceitamos para aqueles que chamamos seres vivos.
F.S.: Isto nos leva então não somente a compreender, mas também a agir?
D.S.G.: A agir. Compreender seria nos colocarmos numa posição de receptor passivo, de contemplador da Natureza. Mas, se como disse antes, conferimos ao ser humano uma atitude responsável, não podemos ficar só olhando as coisas. Somente olhando não fazemos nada, e se fazemos parte da Natureza e ela está viva, se movimenta, evolui, nós também temos que estar vivos, temos que nos mover e temos que evoluir. Isso é agir sobre e dentro da Natureza.
F.S.: Então, você pensa que a vida evolui com uma finalidade e que, portanto, não seria fruto do acaso?
D.S.G.: É impossível que a grandiosidade que nos é oferecida todos os dias pela terra, pelo céu que nos rodeia, seja fruto da casualidade. Se fosse uma casualidade, seria um desperdício; e seria uma “casualidade” que o ser humano, que tanto estuda o Universo, nossa Natureza circundante, não possa, por “casualidade”, criar coisas similares. Algo que diante de nós, de maneira clara e precisa, nos demonstra que tem ciclos, que esses ciclos se repetem, mas que nunca são exatamente iguais, nos demonstra que se dirige a uma meta. O fato de que nós não compreendamos exatamente a meta, não significa que tenha que ser casualidade. Devemos apagar o conceito de casualidade e procurar as causas, a causalidade. Se há uma meta, por que não a entendo? Se não a entendo, posso compreendê-la? Se tudo isso que se desenvolve ao nosso redor revela harmonia e uma direção permanente, o que me autoriza pensar em casualidade? Não seria melhor que pensássemos em buscar o porquê de todas essas coisas? Já não é uma questão de crença, é uma questão de lógica. O que vemos tem um sentido, tudo que tem um sentido, tem uma finalidade. A casualidade é um monte de coisas desarmoniosas reunidas, e só os seres humanos geram casualidade, e nem sempre…
O que acontece é que hoje o homem está muito mergulhado no termo cultura, e tem separado muito o termo cultura e sua própria cultura, da visão geral de Natureza. Qual seria, do ponto de vista filosófico, esta relação entre o homem, a natureza e a cultura, cultura e natureza?
Se fez da cultura um termo quase tão vazio como filosofia e uma filosofia abstrata o suficiente para não estudar nada, a não ser os restos que ficam das demais ciências. O que nenhuma ciência trata, o que nenhuma ciência pode explicar, deixa para a filosofia, para ver como ela resolve com suas definições vazias. Acredito que com a cultura estamos fazendo o mesmo. Que é a cultura senão o produto do homem interior, o que o homem pensa, o que o homem sente? Pode o homem sentir e pensar afastando-se por completo da Natureza? Impossível. Estamos imersos na Natureza. Podemos criar uma cultura que esteja completamente distante da Natureza? Podemos fazer uma cultura abstrata? Não seria fácil. Vejo isso tão difícil como pensar que o mundo existe por casualidade. Existe alguma ciência que possa se distanciar da Natureza? Há alguma arte que possa se distanciar da Natureza? Existe algum conceito interior de evolução humana, de desenvolvimento humano que possa se distanciar da Natureza? Não. Portanto, se cultura é a expressão de tudo que vivemos, de uma forma que se possa transmitir a outras gerações, seja pela ciência, pela arte, pela filosofia como formas distintas de pensamento ou de crenças, esta cultura está necessariamente unida a nosso mundo circundante, no meio do qual vivemos. Distanciá-la é esvaziá-la, o que já não seria cultura.
F.S.: Muitos pensam que de tanto querer-se integrar à Natureza, o homem perderia sua própria especificidade. Como integrar-se à ela sem deixar de ser homens, humanos?
D.S.G.: Integrar-se a ela pensando, integrar-se à Natureza inteligentemente é uma maneira de conservar a integridade e a identidade. O homem pode e de fato forma parte da Natureza, mas também pode pensá-la, pode entendê-la, pode participar inteligentemente dela. Então, como perder a identidade? Se eu me agachasse e juntasse uma folha, ou um caramujo que rastejava a alguns instantes e que agora deve estar escondido na relva – Este caracol perdeu sua identidade pelo fato de esconder-se atrás das folhas? Uma folha como esta, perde sua identidade, posso confundi-la com um cavalo, com um cachorro? Porém, ela está tão harmonicamente unida à Natureza que acredito que sua maneira de ser é fazer parte da Natureza e ser naturalmente o que ela é. O homem crê que para não perder sua identidade deve diferenciar-se, e, penso, que o homem deve mais que diferenciar-se. Quando o homem conseguir entender a si mesmo, ser verdadeiramente o que é, encontrará seu autêntico lugar na Natureza e nada o confundirá nem com pedra, nem com folha, nem com um cavalo.
F.S.: Muito obrigado.
Entrevista realizada pelo Prof. Fernando Schwarz à Professora Delia Steinberg Guzmán, Presidente Honorária da Nova Acrópole. O termo "homem" é usado no sentido genérico, como "humanidade" ou grupo de seres humanos.
Crédito da imagem: Wilton Esteves da Fonseca - Voluntário da Nova Acrópole de São José dos Campos/SP.
