Clio, a musa da História – Delia Steinberg Guzmán

Hoje vi Clio, a Musa da História.

À força de ler e sonhar com os antigos clássicos, aqueles que recebiam a visita inspiradora dessas inteligências sutis, fiquei extasiada na contemplação de um mármore polido com formas femininas que representa a História.

E tentei ver além das formas, além do mármore, tentando extrair o mistério da deusa que regeu o conceito de tempo e de História por tantos séculos.

Eu queria abordá-la explicando o que hoje chamamos de História, e tive vergonha de expor palavras tão pobres. Percebi que a História ficou restrita a uma série de relatos lidos em livros, mais ou menos adulterados e tingidos pelas ideologias de cada época. Percebi que a História havia deixado de ser ativa ou, pelo menos, dependia de alguns homens que moviam os fios ao seu gosto e de acordo com sua próprias conveniências, nunca suficientemente claras ou limpas. E a própria visão da Musa me lembrou do lendário mito da caverna, que Platão expôs tão bem: homens acorrentados no fundo de uma caverna e amos invisíveis que constantemente prometiam “liberdade” aos condenados, que viviam tomando as sombras das paredes por realidades. Aqueles acorrentados nas sombras e no engano dificilmente podem fazer história; e se lerem, lerão apenas o que lhes foi apresentado pelos obscuros amos da caverna.

Diante de tanta perplexidade, diante de tanta falta de ideais elevados, expliquei a minha Musa que a História ganhou feições de casualidade, esquecendo o ritmo, a lei, a harmonia, os critérios, os desígnios e as linhas profundas que o avanço da Humanidade exige.

Mas compreendi que minha Musa jamais havia sido da casualidade. Ela tinha governado sobre os fatos essenciais marcados pela Necessidade, pela Lei e pela Ação. Ela certamente tinha sido a Musa do destino. Ela inspirou os homens, mostrando-lhes o caminho a seguir, o caminho adequado para chegar a um porto bem-sucedido.

Hoje vi a Musa da História, e ela também me ajudou a ver os enigmas do livre arbítrio, aparentemente oposto à predestinação. Aprendi que as supostas “criações” humanas são eficazes assim que se desdobram nos canais da grande Lei, do grande Destino; então estamos diante de uma predestinação indubitável. Não seria possível, talvez, que Aquele que nos deu a vida e animou os mundos, também tenha designado um devir para esses mundos e para os seres viventes?

E qual é nosso livre arbítrio, nossa capacidade de criação individual?

É nossa capacidade de escolher conscientemente o caminho certo, o caminho indicado. Segundo a Musa da História, o homem acabará trilhando o caminho certo a partir de duas possibilidades: ou por determinação consciente, uma vez que a lei foi reconhecida e aceita, ou pela força, errando e sofrendo mil vezes, para acabar fugindo do erro como a criança escapa do fogo que queima sua pele, embora sem compreender as características do fogo.

Os olhos de mármore da Musa estavam fixos no futuro. Neles vi que, por mais que tenhamos esquecido o sentido da História, por mais que vivamos trancados nas profundezas da caverna sombria materialista, por mais que tentemos mil e uma fórmulas vazias de conteúdo, a dor nos levará, inexoravelmente, a buscar a linha intangível que demarca o olhar da Musa.

A escolha, e este é o livre arbítrio, é seguir um bom caminho o mais cedo possível e sem dor, ou mais tarde, mas com a alma dilacerada pelo sofrimento.

Seja como for, no final do caminho, a Musa da História espera, branca e firme, com os seus olhos serenos de mármore, para estender as mãos a quem ajuda a escrever o futuro e não apenas a contemplá-lo, a inspirar para todo o sempre os bravos e determinados, os protagonistas da vida, os conhecedores do início e do fim das coisas e, portanto, deste ambiente que agora percorremos.

Crédito da imagem: Museo Nacional del Prado - Madri, Espanha
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